Filha de mãe negra e pai Terena, a deputada transformou uma formação nas lutas populares da Zona Leste em quase duas décadas de atuação por mulheres, crianças, população negra, povos indígenas, SUS, trabalho e periferias
Quando Juliana Cardoso assumiu, em fevereiro de 2026, a presidência da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados, aquela cadeira carregava uma história muito maior do que uma troca de comando parlamentar. Uma mulher negra, indígena Terena, criada na periferia de São Paulo e formada politicamente nas lutas populares da Zona Leste passava a dirigir um dos espaços permanentes do Congresso dedicados justamente aos povos originários e às comunidades tradicionais.
Ela chegava à função aos 46 anos e no quarto ano de seu primeiro mandato como deputada federal. Antes de Brasília, haviam sido quase 14 anos e quatro mandatos consecutivos na Câmara Municipal de São Paulo, uma trajetória política iniciada muito antes dos gabinetes e construída em Sapopemba, nas Comunidades Eclesiais de Base, na Pastoral da Juventude, nos movimentos sociais e no trabalho assalariado.
Antes de receber salário como parlamentar, Juliana foi balconista, atendente do McDonald’s, auxiliar administrativa e trabalhadora de organização social. Depois vieram o serviço público, a assessoria parlamentar, quatro eleições municipais vencidas, uma primeira tentativa frustrada de chegar ao Congresso, a vitória federal com 125.517 votos, centenas de propostas legislativas, leis que continuam produzindo efeitos anos depois, confrontos políticos, agressão dentro da própria Câmara Municipal e uma presença cada vez mais forte nas disputas por direitos indígenas.
Em 2026, essa história volta a ser submetida às urnas. Juliana registrou uma nova candidatura a deputada federal por São Paulo, pelo PT, com o número 1333, e chega à disputa não mais como uma vereadora tentando alcançar Brasília, mas como uma parlamentar federal em pleno exercício, presidenta de uma comissão permanente e com uma agenda nacional já construída.
Sua trajetória não se tornou importante porque foi tranquila. Ela ganhou dimensão justamente porque atravessou rupturas familiares, desigualdades sociais, derrotas eleitorais, enfrentamentos institucionais e disputas em torno de temas que durante muito tempo tiveram pouca representação nos espaços de poder.
Em diferentes momentos, Juliana colocou dentro do Legislativo pessoas que nem sempre encontravam quem falasse por seus direitos: mulheres que queriam parir com autonomia, pessoas trans excluídas da escola e do trabalho, crianças vivendo nas ruas, indígenas invisibilizados dentro das cidades, professoras e professores endividados, trabalhadoras negras buscando reconhecimento profissional, mulheres que não conseguem abandonar uma relação violenta porque dependem economicamente do agressor.
Para entender como essa agenda chegou ao Congresso, é preciso voltar ao lugar onde tudo começou.
Sapopemba ensinou que direito não cai do céu
Foi criada na Zona Leste, com Sapopemba como território decisivo de formação. A política entrou cedo em sua vida, não como carreira profissional, mas como parte da organização de uma comunidade que lutava por serviços públicos e condições melhores de vida.
Nas lembranças que compartilha sobre a infância, aparece com força a atuação de sua mãe. Ana Maria participava das mobilizações populares do território, e a filha cresceu acompanhando um ambiente em que saúde, escola, transporte e moradia não eram direitos abstratos escritos em leis distantes: eram reivindicações concretas da vizinhança.
Anos depois, em entrevista ao Jornal Empoderado, Juliana resumiria aquele aprendizado em poucas palavras: “Na periferia nada cai do céu.” A frase se tornou uma chave para entender uma carreira política em que praticamente todas as grandes áreas de atuação têm relação com direitos que precisam chegar efetivamente à vida das pessoas.
Foi também nesse território que vieram as Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs, experiências da Igreja Católica fortemente relacionadas à organização popular e à luta por direitos durante décadas decisivas da redemocratização brasileira. Juliana passou pela Pastoral da Juventude e reivindicaria mais tarde a Teologia da Libertação como uma das matrizes de sua formação.
Ainda adolescente, participava da organização estudantil. Aos 20 anos, já integrava o diretório municipal do PT. A entrada na política partidária ocorreu, portanto, depois de uma formação produzida em comunidade, igreja, juventude, mobilização territorial e movimentos sociais.
Esse caminho também ajudou a formar o Coletivo Sonho, Resistência e Luta, que acompanhou a construção de seus mandatos. A ideia de que um mandato não pertence apenas à pessoa eleita, mas a uma rede de organizações e movimentos, continuaria presente mesmo quando Juliana passasse a ocupar instituições muito maiores.
O ponto de partida permaneceu importante porque nunca foi apenas geográfico. Sapopemba forneceu a Juliana uma forma de compreender o poder público: direitos precisam existir no cotidiano, e a presença popular é necessária para que o Estado seja pressionado a garanti-los.
O pai Terena, a perda e uma identidade reconstruída
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A ancestralidade indígena de Juliana também foi atravessada por uma perda precoce. Seu pai, Jonas Cardoso, conhecido como Juruna, era indígena Terena e tinha raízes familiares em Mato Grosso do Sul.
Juliana tinha seis anos quando o pai foi morto a tiro. O relato público de sua história registra que ela estava com ele naquele momento e associa aquele período também a mobilizações populares das quais Jonas participava. A narrativa familiar menciona ainda mortes de parentes indígenas em Mato Grosso do Sul, sem estabelecer de forma documental uma conexão entre esses episódios.
A morte do pai provocou mais do que uma ausência dentro de casa. Houve também um distanciamento da família paterna, interrompendo parte do vínculo cotidiano que poderia ter aproximado Juliana desde criança de sua história Terena.
Crescer em São Paulo acrescentava outra dificuldade. O imaginário brasileiro frequentemente reconhece como indígena apenas quem vive em aldeia, fala determinada língua ou corresponde a uma representação construída a partir de estereótipos. Indígenas urbanos acabam submetidos à cobrança permanente de provar uma identidade que a sociedade insiste em considerar incompatível com a vida nas cidades.
Juliana contou publicamente que não iniciou sua trajetória política se apresentando como uma mulher indígena. Esse reconhecimento ganhou força aos poucos, conforme se aproximou de movimentos e comunidades, compreendeu de maneira mais profunda a história familiar e passou a identificar também a violência contida na negação da identidade de indígenas que vivem em contexto urbano.
A transformação se tornou um dos grandes movimentos de sua vida. A criança que perdeu o pai Terena e viveu anos de afastamento de parte dessa história familiar cresceu até assumir publicamente sua ancestralidade e colocar os direitos indígenas entre os eixos permanentes de sua atuação política.
Décadas depois, aquela identidade reconstruída alcançaria um dos lugares mais altos de sua trajetória institucional. Em 2026, Juliana passou a presidir justamente a comissão da Câmara dos Deputados destinada à Amazônia, aos povos originários e às comunidades tradicionais.
A força desse percurso não está apenas no simbolismo de uma indígena Terena chegar à presidência. Está no fato de uma experiência de pertencimento marcada por perda, distanciamento e reconstrução ter se transformado também em capacidade política de defender participação indígena, políticas públicas e direitos em escala municipal e nacional.
Antes de vereadora, trabalhadora
A história profissional de Juliana antes da política institucional ajuda a compreender outra dimensão de sua trajetória. Ela começou a trabalhar ainda adolescente e passou por ocupações muito distantes dos caminhos tradicionais de formação das elites políticas brasileiras.
Em 1995, trabalhou como balconista. Entre 1996 e 1998, foi atendente do McDonald’s. Depois veio o trabalho administrativo no PT e, entre 2000 e 2002, uma função no departamento pessoal da Casa da Criança Betinho.
Foram anos de trabalho assalariado em atividades de atendimento e administração, enquanto a militância política e comunitária continuava se formando. Antes de discutir direitos de trabalhadoras e trabalhadores dentro de um Parlamento, Juliana conheceu uma rotina em que jornada, salário, horário e subordinação faziam parte da vida concreta.
A passagem pela Casa da Criança Betinho acrescentou contato com outra área que permaneceria durante décadas em sua atuação: a infância. Mais tarde, como vereadora e deputada, Juliana apresentaria propostas destinadas justamente a crianças e adolescentes que vivem situações extremas de vulnerabilidade.
Entre 2003 e 2004, ela trabalhou na Coordenadoria de Participação Popular da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Essa fase também aprofundou seu contato com a administração pública e com formas institucionais de participação popular.
Depois vieram funções na Assembleia Legislativa de São Paulo e a experiência próxima ao funcionamento cotidiano de um Parlamento. Quando decidiu disputar uma eleição, portanto, Juliana já havia conhecido a política por diferentes lados: como moradora de periferia, militante, trabalhadora, integrante de organização social, funcionária da administração pública e assessora.
A formação universitária veio quando ela já estava eleita. Entre 2014 e 2016, cursou Gestão Pública, numa inversão interessante do caminho mais convencional: Juliana não chegou à política depois de conquistar um diploma universitário; chegou à universidade depois de anos de experiência social e política e já no exercício de um mandato.
Décadas depois dos primeiros empregos, o trabalho continuaria ocupando espaço em sua agenda. Em 2026, ela se tornou uma defensora do fim da escala 6×1, relacionando jornadas extensas à saúde mental, ao esgotamento e ao direito de trabalhadoras e trabalhadores terem tempo para viver, descansar e conviver com suas famílias.
Há uma potência particular nesse encontro entre passado e presente. A adolescente que conheceu cedo trabalhos de atendimento chegou ao Congresso e passou a participar de uma das maiores discussões contemporâneas sobre jornada, tempo de vida e dignidade no trabalho.
Aos 28 anos, uma mulher da periferia entra na Câmara
Em outubro de 2008, Juliana Cardoso recebeu 30.607 votos e foi eleita vereadora de São Paulo. Tinha 28 anos. Quando tomou posse, em janeiro de 2009, já havia completado 29 e foi apresentada pela própria Câmara Municipal como a vereadora mais jovem daquela legislatura.
A entrada de uma mulher negra, periférica e com ancestralidade indígena num Legislativo historicamente marcado pela predominância masculina e branca já representava uma ruptura de representação. O que veio depois mostrou, porém, que sua presença não seria passageira nem apenas simbólica.
Juliana conquistou quatro mandatos consecutivos. Em 2012, recebeu 46.757 votos. Em 2016, foram 34.949. Em 2020, conquistou novamente a cadeira, com 28.402 votos.
Durante quase 14 anos, permaneceu na Câmara Municipal enquanto São Paulo e o Brasil atravessavam mudanças profundas: diferentes administrações municipais, mobilizações de rua, a crise política nacional, o impeachment de Dilma Rousseff, a ascensão da extrema direita, retrocessos em direitos e a pandemia de Covid-19.
Sua permanência permitiu que construísse uma produção legislativa extensa. O balanço histórico da Câmara Municipal registra 355 projetos de lei de autoria ou coautoria, com 111 aprovados no período abrangido pelo levantamento.
Os números impressionam, mas a importância aparece sobretudo quando se observa o conteúdo dessas propostas. Juliana levou ao Legislativo temas que nem sempre encontravam ambiente favorável: parto humanizado, direitos indígenas, população trans, igualdade racial, assistência social, infância em situação de rua, juventude negra, cultura popular, esporte e participação social.
Algumas dessas iniciativas se tornaram leis e continuam produzindo efeitos anos depois. Outras não conseguiram maioria, foram arquivadas ou interrompidas pela dinâmica institucional. Juntas, porém, revelam aquilo que Juliana escolheu colocar em disputa durante seus quatro mandatos.
Uma das primeiras grandes marcas de sua atuação municipal foi a saúde das mulheres. Em 2009, Juliana apresentou o PL 542, destinado a estabelecer diretrizes para a criação de Centros de Parto Normal em São Paulo.
A proposta tinha relação direta com uma experiência existente em sua própria região: a Casa de Parto de Sapopemba. O modelo valorizava gestações de baixo risco, autonomia da mulher, atendimento humanizado e presença de acompanhante, numa concepção diferente daquela em que o nascimento é tratado exclusivamente pela lógica hospitalar.
O projeto atravessou anos de tramitação e, em 2013, transformou-se na Lei Municipal 15.945. Uma política relacionada a uma experiência existente na periferia passou, assim, a integrar oficialmente a legislação da maior cidade brasileira.
A atuação de Juliana também passou por discussões relacionadas ao Programa Mãe Canguru e pela defesa continuada da Casa de Parto de Sapopemba. A saúde das mulheres deixou de ser uma pauta circunstancial e se tornou um eixo que acompanharia sua carreira.
Quando chegou ao Congresso, o tema continuou vivo. Já deputada federal, Juliana participou da promoção de debates e audiências sobre violência obstétrica e mortalidade materna, levando para Brasília uma discussão que atravessava seu trabalho desde o primeiro mandato municipal.
Essa continuidade ajuda a compreender sua forma de atuação. A política pública não termina necessariamente quando um projeto é aprovado. Juliana acompanha determinados temas durante anos, ampliando a escala à medida que aumenta o espaço institucional que ocupa.
A Casa de Parto de Sapopemba e os debates nacionais sobre violência obstétrica pertencem, nesse sentido, a uma mesma linha de preocupação: mulheres precisam ser tratadas como sujeitos de direitos também no momento do nascimento de seus filhos.
Uma lei para garantir participação dos povos indígenas
A importância da lei está na própria concepção de participação. Políticas dirigidas a povos indígenas não deveriam ser simplesmente formuladas pelo Estado e entregues às comunidades. As próprias pessoas indígenas precisavam participar da elaboração, acompanhamento e avaliação dessas políticas.
O conselho foi posteriormente estruturado pelo Executivo e continuou fazendo parte da organização municipal. Em 2026, novas representações foram designadas para o triênio 2026–2029, mantendo aquela legislação entre seus fundamentos institucionais.
Dezesseis anos depois, portanto, uma iniciativa apresentada por Juliana no começo de sua carreira continua sustentando um espaço de participação indígena na maior cidade do país.
Essa permanência dá outra dimensão à sua posterior chegada à Comissão da Amazônia. A parlamentar não começou a falar sobre povos indígenas quando chegou a Brasília ou quando sua ancestralidade ganhou maior visibilidade pública. Já no primeiro mandato municipal, procurava criar mecanismos para que indígenas participassem diretamente das políticas que os afetavam.
O caminho entre o conselho municipal e a presidência de uma comissão nacional mostra uma expansão de escala, mas também uma continuidade de propósito.
Em 2015, Juliana apresentou o PL 652 com o objetivo de transformar em lei o Programa TransCidadania, destinado a travestis e pessoas transexuais em situação de vulnerabilidade.
O programa já existia por decreto e procurava combinar escolarização, qualificação e inclusão social. Transformá-lo em lei significava ampliar sua proteção institucional e reduzir a possibilidade de que uma mudança administrativa simplesmente eliminasse a política.
Aquele era um momento em que pessoas trans ainda encontravam pouquíssima representação nos espaços de poder. Violência, expulsão da escola, discriminação no mercado de trabalho e vulnerabilidade econômica faziam parte da realidade de uma população frequentemente atacada também no debate político.
Juliana decidiu colocar o mandato ao lado dessas pessoas. Em vez de escolher apenas pautas com apoio fácil, levou à Câmara uma política dirigida a um grupo que sofria rejeição intensa e tinha pouca capacidade de fazer prevalecer seus próprios interesses dentro do Legislativo.
O projeto não conseguiu se transformar na lei permanente pretendida, mas a disputa revela uma dimensão importante de sua carreira. Juliana não construiu relevância apenas nas propostas em que conseguiu formar maioria; parte de sua identidade política vem justamente dos direitos que decidiu defender quando o ambiente institucional ainda era hostil.
A presença da população LGBTQIA+ em seus mandatos mostra uma parlamentar disposta a usar o espaço conquistado para ampliar a voz de pessoas que raramente controlavam a correlação de forças dentro das instituições.
A infância voltou ao centro de sua atuação no PL 253/2021, destinado à criação de uma Política Municipal de Atenção a Crianças e Adolescentes em Situação de Rua e na Rua.
A proposta foi construída com outras parlamentares e com participação de organizações ligadas à defesa da infância. O ponto de partida era simples e profundo: uma criança nas ruas não enfrenta apenas ausência de abrigo.
Pode existir ao mesmo tempo violação do direito à saúde, educação, alimentação, convivência familiar, segurança, moradia, cultura, trabalho e renda da família. Uma única secretaria não consegue responder a todas essas dimensões.
O projeto propôs, por isso, uma atuação integrada das políticas públicas. A infância deixou de ser tratada como caso isolado da assistência social e passou a ser vista pelo conjunto de direitos que precisam funcionar para que uma criança possa viver com dignidade.
Em 2023, a política foi promulgada como Lei 17.923. Juliana já havia deixado a Câmara Municipal para assumir o mandato federal quando a legislação entrou definitivamente no ordenamento da cidade.
Esse desfecho ajuda a medir o alcance de um mandato. Juliana partiu para Brasília, mas uma política que ajudou a construir permaneceu em São Paulo e passou a integrar a estrutura de proteção destinada a crianças e adolescentes.
A antiga trabalhadora da Casa da Criança Betinho havia chegado à Câmara Municipal e, anos depois, ajudava a transformar em política pública municipal uma concepção ampla de proteção à infância.
Assistência social como direito, não como favor
O projeto dialogou com trabalhadoras, trabalhadores e organizações da área e expressava uma concepção presente em diferentes momentos da trajetória de Juliana: políticas destinadas às populações mais vulnerabilizadas precisam estar organizadas como direitos públicos permanentes, e não como favores concedidos por uma determinada administração.
A diferença é fundamental. Quando a assistência depende apenas da decisão política do governo do momento, famílias e comunidades permanecem vulneráveis às mudanças de gestão. Quando ela é estruturada como sistema, com responsabilidades, serviços, participação social e regras públicas, passa a constituir um direito.
O projeto chegou ao plenário e se tornou mais um espaço de disputa sobre a maneira como a cidade deve proteger pessoas em situação de vulnerabilidade.
A história profissional de Juliana volta a aparecer nesse ponto. A experiência comunitária de Sapopemba, o trabalho na Casa da Criança Betinho e a passagem pela administração pública antecederam uma atuação legislativa que procurava transformar proteção social em estrutura permanente.
Não era apenas uma parlamentar falando sobre assistência de fora. Havia uma longa trajetória de contato com organizações, territórios e políticas sociais antes que Juliana passasse a formular leis sobre o tema.
Até a memória da cidade entrou na luta contra o racismo
A proposta atingia uma dimensão muitas vezes naturalizada da cidade: os nomes de ruas, monumentos, equipamentos e outras formas de celebração pública. Ao entrar nessa disputa, Juliana fazia uma pergunta que ultrapassava a burocracia legislativa: quem São Paulo escolhe transformar em herói?
Num país construído sobre mais de três séculos de escravidão de pessoas negras, homenagens públicas não são necessariamente neutras. Quando figuras diretamente associadas à escravidão continuam nomeando espaços e recebendo monumentos, uma interpretação da história permanece inscrita na paisagem da cidade.
O projeto não conseguiu ser aprovado e acabaria arquivado em 2025. Ainda assim, marcou a disposição de Juliana de levar a pauta antirracista também para a disputa sobre memória.
Sua atuação pela igualdade racial não ficava restrita a cerimônias, datas comemorativas ou declarações de princípio. A parlamentar tentou fazer a cidade reconsiderar quem deveria continuar sendo homenageado pelo Estado.
Essa disposição para questionar símbolos considerados intocáveis revela uma política que nem sempre procura o caminho mais confortável. Em alguns momentos, reconhecer direitos significa também revisar estruturas históricas que durante muito tempo pareceram naturais exatamente porque foram construídas por quem detinha o poder.
Cultura, esporte e o direito da periferia a viver plenamente
A Zona Leste também apareceu em propostas relacionadas a esporte e lazer. Em 2012, o PL 174 buscou criar um Centro Olímpico em Vila Progresso, com atividades destinadas especialmente a crianças e adolescentes.
A iniciativa mostra uma concepção de periferia que não se reduz a pobreza, violência ou ausência de serviços. Pessoas que vivem nas regiões periféricas também têm direito a esporte, lazer, cultura, convivência e oportunidades de desenvolvimento.
Essa visão atravessou diferentes iniciativas do mandato. A juventude não aparecia apenas como grupo que precisava ser protegido da violência, mas como população que precisava ter acesso à cidade e às possibilidades de construir outros projetos de vida.
Esse aspecto é importante porque modifica a própria forma de falar das periferias. Juliana não as apresenta apenas como lugares carentes que devem receber ajuda do centro; sua trajetória reconhece esses territórios como espaços de organização política, produção cultural, conhecimentos e relações comunitárias.
Foi de um desses lugares que ela própria saiu. Defender esporte, cultura e participação na Zona Leste significava também afirmar que meninas e meninos de bairros semelhantes àquele onde cresceu não deveriam ter seus horizontes definidos pela desigualdade territorial.
A mulher que aprendeu a fazer sua voz ocupar o plenário
Entrar na Câmara Municipal não significou automaticamente possuir o mesmo poder de quem historicamente dominava o espaço. Juliana já contou que enfrentou medo, timidez e dificuldades para se impor numa instituição majoritariamente masculina.
Ao longo dos mandatos, porém, sua forma de ocupar o Parlamento mudou. Em entrevista à Mídia NINJA, relatou que colegas passaram a chamá-la de “tsunami” quando já estava no terceiro mandato.
A mudança é importante porque não se refere apenas ao volume da voz. Juliana foi construindo autoridade política dentro de uma instituição em que mulheres, pessoas negras, indígenas e moradoras das periferias permaneceram historicamente sub-representadas.
Quatro mandatos consecutivos mostram que essa presença ganhou força suficiente para permanecer. Durante quase 14 anos, Juliana deixou de ser apenas uma das mulheres mais jovens da Câmara para se tornar uma liderança experimentada, conhecida por posições firmes e por uma ligação persistente com movimentos populares.
A parlamentar que inicialmente precisou aprender a ocupar o plenário passou a participar de alguns dos confrontos mais duros de sua época.
Essa transformação também ajuda a compreender por que determinados episódios de 2017 não podem ser lidos simplesmente como conflitos pessoais. Naquele momento, Juliana já representava dentro da Câmara um campo político, social e territorial consolidado.
Fernando Holiday e duas visões de política frente a frente
Em 2017, Juliana protagonizou um dos confrontos mais conhecidos de seus mandatos municipais ao entrar em choque com Fernando Holiday, vereador ligado ao Movimento Brasil Livre.
O episódio ocorreu depois que pessoas relacionadas ao mandato de Holiday entraram numa reunião da liderança do PT. Houve tumulto, versões divergentes sobre agressões e, depois, pedidos de cassação de ambos os lados: Holiday apresentou um pedido contra Juliana, enquanto a bancada petista pediu a cassação dele.
A cena fazia parte de um conflito político muito maior que uma discussão nos corredores. O Brasil atravessava uma reorganização profunda após o impeachment de Dilma Rousseff, e forças conservadoras que haviam crescido nas mobilizações antipetistas começavam a ocupar o Legislativo.
Holiday simbolizava parte dessa nova direita. Juliana já estava no terceiro mandato e trazia para a Câmara uma história ligada às CEBs, ao PT, aos movimentos populares, à população negra, às mulheres, aos direitos LGBTQIA+, aos indígenas e às periferias.
Eram dois projetos de política diante um do outro.
A grandeza de Juliana naquele momento não vem do confronto em si, mas da posição que já ocupava. A jovem vereadora eleita aos 28 anos havia se transformado numa liderança com base social própria e disposição para enfrentar uma força política que chegava à Câmara justamente contestando muitas das agendas e movimentos dos quais ela fazia parte.
Juliana não recuou para tornar sua presença mais confortável dentro de uma correlação política que mudava rapidamente. Continuou defendendo sua equipe, suas posições e os grupos com os quais havia construído o mandato.
O episódio evidencia o quanto sua carreira se afastou de uma presença parlamentar decorativa. Juliana estava no centro das disputas porque sua atuação representava interesses e movimentos reais fora do prédio da Câmara.
Quando a Guarda Municipal avançou, Juliana ficou ao lado dos manifestantes
Juliana interveio durante a ação. A cobertura daquele momento registrou que ela também foi agredida e recebeu voz de prisão, embora não tenha sido detida.
A cena tem força porque mostra uma parlamentar usando sua presença institucional no exato momento em que manifestantes entravam em confronto com agentes do Estado.
Há diferença entre defender movimentos sociais num discurso e permanecer ao lado deles quando uma ação policial começa. Juliana poderia ter assistido aos acontecimentos de uma posição protegida pela autoridade do cargo; escolheu intervir.
Aquele gesto ajuda a compreender a relação que construiu durante tantos anos com organizações populares. O gabinete não funcionava apenas como lugar de tradução de reivindicações em projetos de lei. Em momentos de conflito, a própria autoridade parlamentar era colocada em campo.
A agressão sofrida naquele dia não encerrou sua atuação nem provocou recuo diante de disputas semelhantes. Juliana continuou exercendo o mandato e preservou um estilo político em que defender direitos podia significar enfrentar diretamente agentes e forças com muito mais poder institucional.
Anos depois, já no Congresso, essa mesma disposição apareceria novamente numa das maiores disputas nacionais relacionadas aos povos indígenas.
Uma derrota em 2018 e a decisão de tentar de novo
A derrota se tornou um ponto importante de sua história porque Juliana não abandonou o projeto de ampliar sua atuação. Voltou à disputa municipal e, em 2020, conquistou o quarto mandato de vereadora, com 28.402 votos.
Permaneceu na política institucional, continuou apresentando projetos e reconstruindo um caminho para Brasília.
Quatro anos depois da primeira tentativa, voltou a se candidatar a deputada federal. Em 2022, recebeu 125.517 votos, mais do que o dobro da votação de 2018, e finalmente conquistou uma cadeira na Câmara.
O intervalo entre as duas eleições mostra uma característica que atravessa sua trajetória: persistência. Juliana perdeu uma disputa importante, permaneceu em movimento e voltou a tentar quando teve nova oportunidade.
O PT passou a destacar sua eleição como a da primeira indígena eleita deputada federal na história do partido. Para uma mulher que havia levado anos para reconstruir publicamente a própria identidade Terena, a chegada ao Congresso carregava também uma dimensão de representação.
A vitória federal não apagava a derrota anterior. Ela a transformava em parte de um percurso que exigiu nova candidatura, mais organização e capacidade de ampliar a votação.
No primeiro pronunciamento como deputada federal, em 7 de fevereiro de 2023, Juliana poderia ter escolhido apresentar apenas suas credenciais parlamentares. Preferiu começar pela origem.
Falou da mãe negra, do pai indígena Terena, da periferia da Zona Leste, da Pastoral da Juventude, das CEBs, da Teologia da Libertação e dos movimentos sociais. Lembrou os quatro mandatos como vereadora e os 125.517 votos que a haviam levado até Brasília.
O discurso funcionava como uma declaração de pertencimento. A cadeira federal não significava rompimento com aquilo que havia vindo antes.
A trabalhadora, a militante comunitária, a mulher negra, a indígena urbana, a vereadora e a deputada eram apresentadas como partes da mesma pessoa.
Há uma dimensão importante nessa presença. Quando Juliana ocupa o plenário como mulher negra, indígena e periférica, grupos historicamente sub-representados deixam de aparecer apenas como objetos de políticas públicas e passam a estar representados também por alguém que reivindica pertencer a eles.
Essa representação ganha significado ainda maior quando se observa o que ela faz com o mandato. Juliana não utilizou sua origem apenas como narrativa biográfica; levou para o Congresso propostas relacionadas diretamente às populações e desigualdades que afirma representar.
O marco temporal e uma parlamentar que não suavizou a defesa indígena
Durante o debate parlamentar, ela utilizou uma expressão dura contra deputadas e deputados favoráveis ao avanço da proposta e acabou alvo de representação no Conselho de Ética.
O processo poderia ter resultado em punição política. Não resultou. Em setembro de 2023, o Conselho aprovou por 13 votos a 2 o arquivamento de uma das representações. Outro procedimento sobre matéria idêntica perdeu posteriormente o objeto porque o primeiro já havia sido definitivamente arquivado.
A Coordenação da Bancada Feminina colocou aquele conjunto de procedimentos contra deputadas dentro do debate sobre violência política de gênero. A manifestação revelava uma preocupação mais ampla com a tentativa de utilizar instrumentos disciplinares contra mulheres por posições assumidas durante confrontos políticos.
Juliana permaneceu na linha de frente da pauta indígena.
O episódio demonstra que sua chegada a Brasília não significou moderação destinada a facilitar a adaptação ao novo ambiente institucional. Quando uma das disputas mais importantes para os povos originários chegou ao plenário, Juliana assumiu posição de enfrentamento.
A representação terminou arquivada e, nos anos seguintes, sua presença na agenda indígena aumentou.
Em 2026, a deputada que havia sido alvo de processo por sua atuação durante o debate sobre o marco temporal estava presidindo justamente a comissão permanente da Câmara dedicada aos povos originários.
A infância voltou ao centro da agenda federal em 2025. Juliana apresentou o PL 3.256 para fortalecer a proteção integral a crianças e adolescentes em situação de orfandade.
A proposta altera dispositivos do Estatuto da Criança e do Adolescente, da Lei Orgânica da Assistência Social e da legislação relacionada aos registros públicos, buscando melhorar a articulação do Estado diante de crianças que perderam responsáveis.
A orfandade pode gerar uma sucessão de problemas que ultrapassam a perda familiar. Benefícios, documentação, acompanhamento pela assistência, saúde, proteção e convivência familiar podem se tornar partes fragmentadas de um mesmo problema.
O projeto procura aproximar essas estruturas.
Há uma continuidade expressiva entre diferentes momentos da vida de Juliana. Ela trabalhou na Casa da Criança Betinho antes de ser parlamentar, construiu na Câmara Municipal uma política para crianças e adolescentes que vivem nas ruas e, já no Congresso, passou a atuar sobre a situação de crianças que perderam seus responsáveis.
A infância reaparece porque permanece uma das áreas em que Juliana identifica grupos que podem desaparecer entre lacunas do próprio Estado.
Em 2026, o projeto já havia avançado na Câmara e continuava tramitando, tornando a proteção à orfandade uma das frentes abertas de seu mandato federal.
Fazer o SUS chegar até a casa de uma pessoa idosa
Outra iniciativa federal ampliou sua agenda de cuidados para uma fase diferente da vida. O PL 2.168/2025 propõe criar no SUS o Programa Acompanhante da Pessoa Idosa.
A ideia é garantir acompanhamento continuado a pessoas idosas que necessitam de apoio, inclusive no ambiente domiciliar.
A proposta dialoga com uma concepção de saúde que aparece desde os mandatos municipais. Para Juliana, o SUS não se limita ao hospital ou à consulta médica: precisa acompanhar as condições concretas em que as pessoas vivem.
No parto humanizado, isso significava respeitar autonomia, vínculo e cuidado no nascimento. No acompanhamento de pessoas idosas, significa reconhecer que uma pessoa pode precisar que a política pública chegue à sua própria casa.
O projeto avançou pelas comissões de Saúde e de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa e continuava tramitando em 2026.
Mesmo com o crescimento da agenda indígena, Juliana permaneceu também na Comissão de Saúde. O SUS continua sendo um eixo de sua atuação, reunindo temas aparentemente distantes como nascimento, envelhecimento, saúde das mulheres, saúde mental e condições de trabalho.
Em 2025, Juliana apresentou outro projeto voltado à vida concreta de uma categoria profissional. O PL 966 propõe um programa emergencial para renegociação das dívidas de professoras e professores da rede pública.
A iniciativa passou a ser divulgada como “Desenrola Professores” e procura alcançar profissionais da educação básica e técnica, inclusive aposentadas e aposentados.
O projeto desloca o debate sobre valorização docente. Salário, carreira e condições de trabalho continuam centrais, mas trabalhadoras e trabalhadores também vivem sob pressão de aluguel, contas, crédito, juros e endividamento.
Juliana colocou esse problema econômico dentro da agenda educacional.
A proposta mostra uma característica recorrente de seu mandato: olhar para um direito a partir das condições materiais que determinam se ele pode ser exercido plenamente.
Valorização da educação não é apenas homenagear professoras e professores ou reconhecer sua função social. Também significa olhar para as condições concretas em que vivem.
O projeto continuava tramitando em 2026, mantendo aberta uma frente que conecta educação, trabalho e renda.
Trancistas: um saber negro tratado como profissão
Trançar cabelos é ao mesmo tempo trabalho, geração de renda, expressão estética, memória e prática cultural profundamente ligada à população negra, sobretudo às mulheres.
Durante muito tempo, esse conhecimento foi empurrado para a informalidade e tratado como habilidade doméstica mesmo quando sustentava famílias e movimentava uma economia própria.
A regulamentação procura reconhecer aquilo que essas trabalhadoras já fazem como profissão.
Para Juliana, filha de uma mulher negra e parlamentar com longa atuação em igualdade racial e direitos das mulheres, a iniciativa se conecta a uma política que procura transformar reconhecimento cultural também em direitos econômicos.
Em 2026, a proposta havia avançado até a Comissão de Constituição e Justiça.
Há uma mudança simbólica importante quando um ofício historicamente negro e feminino entra formalmente na agenda legislativa nacional. Questões antes tratadas como pequenas ou privadas passam a ser reconhecidas como trabalho e direito.
Essa transformação também depende de quem chega às instituições. Quando mulheres negras e parlamentares comprometidas com igualdade racial ocupam o Congresso, experiências ignoradas durante décadas passam a ter quem as transforme em proposição legislativa.
Migrantes e o direito à universidade
O projeto parte da realidade de migrantes que vivem, trabalham e constroem suas vidas no Brasil, mas ainda encontram barreiras específicas para acessar políticas públicas.
A educação superior é uma dessas barreiras.
Ao levar o tema para o Prouni, Juliana amplia sua agenda de igualdade para um grupo que não corresponde diretamente às identidades que ela própria reivindica.
Isso ajuda a demonstrar que sua concepção de direitos não funciona apenas como representação autobiográfica. O mandato procura também identificar populações que enfrentam exclusões específicas e colocar suas necessidades dentro da política pública.
A trajetória iniciada num território periférico vai ganhando, dessa forma, alcance cada vez mais amplo. Quanto maior o espaço institucional ocupado, maior também se torna o conjunto de pessoas que entram na agenda.
Para sair da violência, uma mulher precisa ter como sobreviver
A proposta reúne ações relacionadas a formação profissional, habitação, transferência de renda, emprego e autonomia financeira.
O ponto central é reconhecer que violência doméstica também pode ser sustentada pela dependência econômica.
Uma mulher pode saber que precisa sair de uma relação violenta e ainda assim permanecer nela porque não tem renda, moradia ou condições materiais para sustentar a si própria e às crianças que dependem dela.
Nesse cenário, proteção não pode significar apenas polícia, processo judicial ou medida protetiva. Precisa significar a possibilidade concreta de sobreviver depois da ruptura.
Essa visão demonstra a maneira como Juliana costuma abordar direitos. A norma formal é importante, mas precisa alcançar as condições materiais que permitem à pessoa exercer a liberdade prometida pela lei.
O projeto passou a integrar uma tramitação mais ampla sobre autonomia econômica de mulheres vítimas de violência e permanecia em discussão na Câmara em 2026.
A pauta também se conecta a uma atuação feminista construída durante anos, desde o parto humanizado até as discussões sobre trabalho, cuidados e violência política.
Ainda em 2026, Juliana apresentou o PL 2.340 para explicitar mulheres negras e jovens entre os públicos prioritários da Política Nacional de Cuidados.
O recorte parte de uma desigualdade histórica. Mulheres negras ocupam parcela expressiva do trabalho doméstico e de cuidados no Brasil, tanto dentro das próprias famílias quanto no trabalho remunerado, muitas vezes em condições marcadas por baixos salários e pouca proteção.
Uma política de cuidados que trate todas as pessoas como se partissem das mesmas condições corre o risco de reproduzir essas diferenças.
A proposta de Juliana busca fazer o Estado reconhecer raça, gênero e geração como elementos concretos para organizar a política pública.
Esse debate se encontra com sua atuação em defesa das mulheres e do trabalho. Em 2026, Juliana também destacou publicamente como a inserção das mulheres no mercado de trabalho não foi acompanhada de divisão equivalente das tarefas domésticas, produzindo dupla e tripla jornada.
Parto, cuidado, violência, trabalho, renda e tempo de vida aparecem, assim, como partes de uma mesma agenda.
A parlamentar que começou defendendo uma forma mais humana de nascimento chegou à política nacional dos cuidados discutindo quem realiza esse trabalho, quem suporta seus custos e quais mulheres permanecem mais sobrecarregadas.
Relatar projetos também é exercer poder legislativo
Relatar um projeto significa estudar textos apresentados por outras parlamentares, negociar mudanças, construir pareceres e participar diretamente da forma como uma proposta poderá seguir adiante.
Em 2026, a Câmara registrava 22 proposições relatadas por Juliana, além de 121 proposições classificadas na categoria de autoria naquele ano. Os números abrangem diferentes modalidades de proposição e revelam um mandato em plena atividade.
Na Comissão da Amazônia, essa dimensão ganhou peso especial.
Em agosto de 2026, Juliana relatou proposta aprovada no colegiado destinada a ampliar direitos de mulheres rurais, quilombolas e indígenas.
O texto reúne saúde, enfrentamento à violência, autonomia econômica e participação política. Na área da saúde, inclui atenção sexual e reprodutiva, parto humanizado e estratégias destinadas a alcançar comunidades isoladas.
Poucos episódios sintetizam tão bem as diferentes linhas de sua trajetória.
Mulheres, SUS, parto humanizado, povos indígenas, comunidades tradicionais e autonomia econômica, agendas construídas em diferentes momentos da carreira, aparecem reunidas dentro de uma única atuação parlamentar.
Quanto maior o espaço institucional ocupado por Juliana, mais essas linhas começam a se encontrar.
Presidir a Comissão da Amazônia significa ocupar um espaço central de disputa
A função coloca sob sua condução um colegiado que acompanha alguns dos conflitos mais importantes do Brasil contemporâneo: direitos territoriais, mineração, proteção da floresta, clima, desenvolvimento econômico, comunidades tradicionais e políticas destinadas aos povos indígenas.
A comissão reúne parlamentares de diferentes partidos e orientações políticas. Conduzi-la significa também organizar debates nos quais posições profundamente divergentes disputam o futuro das políticas ambientais e indígenas.
Juliana chegou à presidência depois de ocupar a vice-presidência do colegiado.
Sua ascensão demonstra o espaço que a pauta indígena conquistou dentro de sua própria carreira.
Ao assumir, defendeu o protagonismo dos povos originários, ribeirinhos e comunidades tradicionais e relacionou desenvolvimento econômico à floresta em pé, energia limpa, manejo sustentável e proteção ambiental.
Durante 2026, a comissão debateu propostas e realizou atividades relacionadas a territórios, saúde, direitos sociais e comunidades tradicionais.
A presidenta também levou para o debate a realidade de indígenas que vivem nas cidades, um tema diretamente relacionado à sua própria história.
A força da posição alcançada por Juliana não está apenas em seu pertencimento Terena. Está na possibilidade de transformar essa presença em capacidade efetiva de conduzir reuniões, construir agendas, relatar textos, aprovar requerimentos e organizar um dos espaços em que direitos indígenas são disputados dentro do Congresso.
Uma indígena urbana no centro da política nacional
Ela nasceu numa metrópole, cresceu numa COHAB, trabalhou em comércio e fast-food, participou de pastoral católica, tornou-se vereadora e chegou à Câmara dos Deputados.
Nada disso elimina sua identidade Terena.
A experiência mostra que indígenas não deixam de ser indígenas porque vivem numa cidade ou porque suas trajetórias incorporam elementos da vida urbana.
Essa realidade atinge milhares de pessoas cuja identidade continua sendo contestada exatamente por não corresponder ao estereótipo produzido pela sociedade não indígena.
Quando Juliana transforma indígenas em contexto urbano em tema da atuação parlamentar, sua própria vida dá concretude ao debate.
Uma mulher que demorou anos para reivindicar publicamente a própria ancestralidade passou a ocupar um espaço nacional de autoridade justamente quando o país precisa discutir quem reconhece como indígena e quais direitos garante a esses povos.
Esse movimento dá à sua carreira um significado que ultrapassa a trajetória individual.
Uma mulher Terena pode nascer na maior cidade do país, construir sua vida em Sapopemba, trabalhar em atividades comuns à juventude periférica, organizar movimentos sociais, vencer eleições e dirigir uma comissão da Câmara dos Deputados.
A história de Juliana amplia, assim, não apenas a representação indígena no Congresso, mas a própria imagem social de quem pode ocupar esse lugar.
Em 2026, Juliana também passou a defender com força o fim da escala 6×1 e a redução das jornadas de trabalho.
Sua posição associa o tema à saúde pública, ao adoecimento mental, à convivência familiar e ao direito ao descanso.
Para as mulheres, o problema ganha outra dimensão. Muitas continuam responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico e dos cuidados mesmo quando também possuem emprego remunerado, acumulando jornadas sucessivas dentro e fora de casa.
Juliana colocou essa desigualdade no centro de sua defesa de mudanças no mundo do trabalho.
O tema conecta áreas que aparecem em momentos distintos de sua trajetória: mulheres, saúde, renda, cuidados e direitos trabalhistas.
Há também uma força biográfica evidente nessa agenda.
A deputada que discute hoje jornada de trabalho no Congresso começou sua vida profissional como balconista e atendente de fast-food.
A experiência não precisa ser convertida em explicação automática de sua posição política para adquirir significado. Ela demonstra que Juliana percorreu mundos do trabalho muito diferentes daqueles em que se formaram muitas das elites políticas brasileiras.
A distância entre atender atrás de um balcão e participar das decisões nacionais sobre trabalho ajuda a dimensionar o caminho percorrido.
Nem todos os projetos defendidos por Juliana se transformaram em lei. Nem todas as eleições foram vencidas. Nem todos os confrontos terminaram sem desgaste.
O projeto destinado a retirar homenagens a escravocratas acabou arquivado. O TransCidadania não conquistou a proteção legislativa permanente pretendida. A primeira candidatura para deputada federal terminou sem mandato. Propostas apresentadas em Brasília continuam aguardando votação.
Também houve pedidos de cassação, agressão dentro da Câmara Municipal e representação no Conselho de Ética.
Juliana continuou.
Voltou às urnas depois da derrota federal, continuou defendendo indígenas depois do processo no Conselho de Ética e permaneceu apresentando pautas sociais mesmo quando a correlação política não oferecia maioria fácil.
Essa persistência é uma das características mais fortes de sua trajetória.
Uma parlamentar não constrói relevância apenas acumulando vitórias. Há também grandeza política em sustentar determinadas disputas quando elas enfrentam resistência e em continuar defendendo grupos que possuem menos força dentro das instituições.
Ao longo de quatro mandatos municipais e um mandato federal, Juliana consolidou esse tipo de presença.
Ela usa o espaço parlamentar para colocar em debate pessoas que frequentemente chegam ao Estado depois de sofrer violência, exclusão ou abandono.
Em 2026, Juliana volta às urnas com uma história maior
Seu registro foi apresentado pelo PT com o número 1333. Na carga eleitoral disponibilizada no fim de agosto, o pedido ainda constava como aguardando julgamento pela Justiça Eleitoral, situação que poderá ser atualizada ao longo do processo eleitoral.
Ela chega à nova disputa numa condição profundamente diferente daquela de 2018.
Na primeira tentativa federal, Juliana era uma vereadora experimentada buscando ampliar o alcance de sua atuação. Agora é uma deputada federal em exercício, presidenta de comissão permanente e autora e relatora de uma produção legislativa nacional construída desde 2023.
Também chega com uma identidade indígena muito mais afirmada publicamente.
A mulher que relatou ter levado tempo para se reconhecer politicamente como indígena ocupa hoje a presidência do colegiado destinado justamente aos povos originários e tradicionais.
A candidatura transforma o presente da reportagem em continuidade, e não encerramento.
Juliana volta a pedir ao eleitorado paulista a oportunidade de permanecer no Congresso levando uma trajetória que, desde 2008, já passou por quatro vitórias municipais, uma derrota federal, uma eleição para a Câmara dos Deputados e quase duas décadas de vida parlamentar.
A permanência ao longo desse tempo demonstra que seu percurso ultrapassou um momento eleitoral específico. Há uma base política construída em movimentos, territórios, organizações e eleitoras e eleitores que acompanhou sua passagem de Sapopemba ao Congresso.
Quando as propostas apresentadas por Juliana são colocadas lado a lado, elas formam uma espécie de retrato de sua concepção de Estado.
No primeiro mandato municipal, procurou ampliar as casas de parto e garantir participação institucional dos povos indígenas. Mais tarde, tentou proteger o TransCidadania por meio de lei, ajudou a construir uma política ampla para crianças e adolescentes nas ruas, levou a institucionalização do SUAS ao Legislativo e questionou homenagens públicas a escravocratas.
No Congresso, apresentou propostas para crianças em situação de orfandade, acompanhamento de pessoas idosas pelo SUS, renegociação de dívidas de profissionais da educação, acesso de migrantes ao Prouni, autonomia econômica de mulheres vítimas de violência e inclusão de mulheres negras e jovens na Política Nacional de Cuidados.
Também se tornou coautora da regulamentação da profissão de trancista e assumiu relatorias relacionadas a mulheres rurais, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Os projetos percorrem grupos muito diferentes, mas existe uma coerência entre eles.
Juliana olha repetidamente para quem pode se tornar invisível dentro das estruturas tradicionais do poder.
A criança que vive na rua.
A mulher que não consegue sair da violência porque depende financeiramente do agressor.
A pessoa trans excluída da escola e do emprego.
A indígena cuja identidade é questionada porque mora numa cidade.
A trancista cujo saber sustenta famílias, mas ainda luta por reconhecimento profissional.
A professora endividada.
A pessoa idosa que precisa que o SUS chegue até sua casa.
O fio que une essas histórias é a tentativa de fazer o Estado enxergar pessoas que ele frequentemente reconhece tarde demais.
É nesse ponto que a importância de Juliana Cardoso ultrapassa o número de mandatos, leis aprovadas ou votos recebidos.
Sapopemba nunca deixou de estar presente nessa história.
A mulher que chegou à Câmara Municipal aos 28 anos acumulou quatro mandatos. A candidata derrotada em 2018 voltou a disputar e recebeu mais de 125 mil votos em 2022. A vereadora que apresentou, no começo da carreira, uma proposta para estruturar a participação indígena na cidade chegou à presidência da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais.
A trabalhadora que passou por balcão e fast-food participa agora do debate nacional sobre a escala 6×1. A parlamentar que fez da Casa de Parto de Sapopemba uma referência de sua atuação discute no Congresso saúde das mulheres e violência obstétrica.
A jovem que precisou reconstruir sua relação com a ancestralidade Terena tornou-se uma das vozes que ajudam a colocar indígenas urbanos dentro do debate público nacional.
A mulher que precisou aprender a ocupar um plenário passou a presidir uma comissão permanente da Câmara dos Deputados.
Nada disso ocorreu sem conflito.
Houve perda familiar, desigualdade, derrotas, projetos arquivados, resistência política, agressão, pedidos de cassação e representação no Conselho de Ética.
Juliana continuou.
Continuou quando perdeu uma eleição federal.
Continuou quando forças políticas antagônicas cresceram dentro da Câmara paulistana.
Continuou quando foi agredida ao intervir durante a retirada de manifestantes.
Continuou depois de ser alvo de processo por sua atuação na defesa dos povos indígenas.
Continuou também quando o espaço de poder aumentou.
A pauta da infância não desapareceu quando chegou ao Congresso. O SUS não perdeu espaço quando a questão indígena ganhou centralidade. As mulheres continuaram aparecendo na saúde, no trabalho, nos cuidados e no combate à violência. A periferia permaneceu como referência política mesmo quando o endereço institucional passou a ser Brasília.
Essa continuidade talvez seja uma das melhores formas de compreender sua trajetória.
Juliana Cardoso não chegou ao centro do poder deixando para trás as pessoas e experiências com as quais começou.
Ao contrário, passou quase duas décadas tentando fazer com que elas entrassem junto com ela.
Em 2026, a história está novamente diante das urnas.
A candidata que pede outro mandato federal não apresenta apenas quatro anos de atuação em Brasília. Leva consigo décadas de trabalho, militância, organização comunitária e vida parlamentar, uma história que atravessa Sapopemba, a Câmara Municipal e o Congresso Nacional.
A menina que aprendeu com a mãe e com a comunidade que direitos não caem do céu ocupa hoje um dos lugares onde esses direitos podem ser escritos, disputados, ampliados ou negados para milhões de pessoas.
E talvez seja exatamente essa a dimensão mais exuberante da trajetória de Juliana Cardoso: quanto maior se tornou o lugar ocupado por ela, maior se tornou também a possibilidade de fazer chegar ao centro do poder as pessoas que o poder historicamente manteve do lado de fora.
O QUE PODE ACONTECER A PARTIR DE AGORA
A eleição de 2026 abre um novo capítulo dessa trajetória. Juliana registrou candidatura a deputada federal por São Paulo, pelo PT, número 1333, e o pedido aparecia como aguardando julgamento na carga eleitoral disponibilizada no fim de agosto. O TSE informa que os pedidos de registro para deputadas e deputados federais são analisados pelos tribunais regionais eleitorais, dentro do processo formal de registro das candidaturas.
Enquanto disputa a continuidade do mandato, Juliana permanece no exercício da função parlamentar. Projetos relacionados a infância, cuidados, pessoas idosas, educação, mulheres e proteção social continuam tramitando, ao mesmo tempo em que ela exerce a presidência da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais.
A nova candidatura coloca diante do eleitorado uma parlamentar diferente daquela que tentou chegar a Brasília pela primeira vez em 2018. Agora, Juliana leva para a campanha também a experiência de ter exercido mandato federal, presidido comissão, participado de grandes disputas nacionais e ampliado para o Congresso pautas que acompanharam sua trajetória desde a Zona Leste.
O futuro dessa história volta, portanto, a ser decidido nas urnas.
FONTES CONSULTADAS
A reportagem utilizou documentos e registros da Câmara dos Deputados, incluindo biografia parlamentar, pronunciamentos, proposições legislativas, tramitações, atividades em comissões e registros do Conselho de Ética. Também foram utilizados documentos e registros da Câmara Municipal de São Paulo sobre os quatro mandatos de Juliana, sua produção legislativa, projetos, audiências, políticas de saúde, infância, população trans, igualdade racial, assistência social e participação indígena.
Entrevistas concedidas por Juliana ao Jornal Empoderado e à Mídia NINJA ajudaram a reconstruir infância, formação política, trajetória dentro da Câmara, identidade indígena e transformações ao longo dos mandatos. Materiais públicos do PT foram utilizados para aspectos da história familiar e da ancestralidade que aparecem atribuídos às respectivas fontes.
Para a eleição de 2026, foram utilizados dados de candidaturas reproduzidos a partir da base eleitoral. Juliana Cardoso aparece como candidata a deputada federal por São Paulo, pelo PT, número 1333, com o pedido ainda aguardando julgamento na atualização disponível no fim de agosto.
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