Andrei Rodrigues comandava a Polícia Federal que prendeu Daniel Vorcaro, apreendeu seus aparelhos e avançou sobre a rede política e financeira do Banco Master. Quando informações passaram a atingir André Mendonça e pessoas dos círculos de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, Mendonça afastou Andrei e o diretor de Inteligência Leandro Almada. Fux, que havia pedido para mudar de Turma e depois assumido a presidência do colegiado, e Kassio anteciparam seus votos e formaram maioria com ele. Dias depois, Gilmar Mendes acusaria Fux e Mendonça de terem feito um “ajuste prévio” para a sessão.
Para compreender o que aconteceu em 8 de setembro de 2026 no Supremo Tribunal Federal, é preciso começar por Andrei Rodrigues, porque foi sob seu comando que a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, avançou sobre seu patrimônio, seus telefones, suas mensagens e sua rede de relações e passou a reunir documentos que alcançariam empresários, políticos, advogados, familiares e pessoas próximas de integrantes dos tribunais superiores. O portal Vermelho registrou que Andrei acompanhou diretamente a operação que localizou Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando o banqueiro se preparava para embarcar em um jatinho. Meses depois, aquela mesma corporação guardaria mensagens envolvendo pessoas ligadas a André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Então veio 8 de setembro. André Mendonça afastou preventivamente Andrei da direção-geral da PF e também retirou do cargo Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial. O partido Novo havia pedido algo ainda mais grave: queria também a prisão preventiva de Andrei. Mendonça não decretou a prisão, mas acolheu o afastamento. Horas depois, submeteu sua própria decisão a uma sessão extraordinária da Segunda Turma. Gilmar Mendes pediu vista assim que a votação começou, mas Luiz Fux e Kassio Nunes Marques anteciparam seus votos e acompanharam Mendonça, formando a maioria.
A composição que permitiu aqueles três votos não havia surgido naquela manhã. Ela vinha sendo construída institucionalmente havia quase um ano, desde que Fux decidiu abandonar a Primeira Turma e ingressar justamente no colegiado formado por Kassio, Mendonça, Gilmar e Dias Toffoli. Dois dias depois da transferência de Fux, em outubro de 2025, a Folha já apontava que um alinhamento Fux + Kassio + Mendonça poderia garantir maioria na Segunda Turma e dar ao trio um poder que antes parecia improvável. Em setembro de 2026, essa possibilidade se materializou contra o comando da instituição que havia prendido Vorcaro e guardava o material que passaria a expor justamente pessoas próximas dos três.
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Antes do Master, Fux já era questionado pelas relações profissionais e familiares em torno de seu gabinete
As controvérsias envolvendo o entorno de Luiz Fux são anteriores ao Banco Master. Em 2014, quando sua filha Marianna Fux disputava uma vaga de desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro pelo quinto constitucional, a Folha revelou que o ministro procurava advogados e desembargadores envolvidos no processo de escolha para defender a candidatura. Dos oito conselheiros da OAB-RJ ouvidos pela reportagem, quatro disseram que Fux mencionou, durante as conversas, processos daqueles profissionais que poderiam chegar ao Supremo.
A pressão levou a OAB-RJ a mudar o procedimento de escolha. Trinta e um advogados chegaram a assinar pedido para impugnar a candidatura de Marianna, que posteriormente se tornou desembargadora. Anos depois, outro filho entraria no centro de controvérsias sobre os limites entre atividade privada e a atuação do pai no Supremo.
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Cliente do filho de Fux bancou resort para ministros e Fux abriu o evento
Em novembro de 2018, o Conselho Nacional de Praticagem promoveu um seminário no Ferradura Resort, em Búzios. A entidade tinha Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux, como advogado e era parte em processos no STF e no STJ. Foi o próprio Conselho que pagou passagens e hospedagens de ministros convidados para o encontro.
Rodrigo palestrou sobre temas jurídicos de interesse de seu cliente, enquanto Luiz Fux compareceu e fez o discurso de abertura. A reportagem mostrou ainda que Rodrigo citava decisões do próprio pai nas argumentações que apresentava em defesa da entidade.
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Fux também julgou processos de empresas atendidas pelo escritório do filho
Em 2021, a Folha mostrou que Rodrigo Fux advogava para grandes empresas como Embraer, Light, Golden Cross e outras companhias que tinham processos no Judiciário. Luiz Fux se declarava impedido quando o próprio Rodrigo aparecia formalmente como advogado no processo que estava no STF, mas continuava julgando outras ações envolvendo empresas atendidas pelo filho em instâncias diferentes.
Saiba mais: Folha — Fux julgou no Supremo processos de empresas defendidas pelo filho em outras instâncias
Mendonça já havia usado a Polícia Federal contra críticos do governo Bolsonaro
André Mendonça também trazia para a crise de 2026 um histórico próprio de relações com a Polícia Federal e com a atividade estatal de inteligência. Quando comandava o Ministério da Justiça no governo Jair Bolsonaro, Mendonça determinou à PF a abertura de uma série de inquéritos com base na antiga Lei de Segurança Nacional contra críticos do então presidente, entre eles jornalistas, um advogado e pessoas responsáveis por manifestações políticas.
A Procuradoria-Geral da República abriu procedimento preliminar para examinar a conduta de Mendonça por possível abuso de autoridade. Um dos inquéritos instaurados a partir de requisição do ministro, contra o advogado Marcelo Feller, foi posteriormente arquivado pela Justiça Federal por falta de justa causa e atipicidade da conduta.
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Ministério comandado por Mendonça produziu dossiê sobre 579 antifascistas
No mesmo período, o Ministério da Justiça comandado por Mendonça ficou no centro do chamado dossiê dos antifascistas. Uma estrutura da pasta reuniu informações sobre 579 servidores federais e estaduais da área de segurança e três professores universitários identificados com o movimento antifascista. O caso chegou ao Supremo e, em 2022, o STF declarou inconstitucionais atos do Ministério da Justiça de produção ou compartilhamento de informações sobre a vida pessoal, escolhas políticas e atividades cívicas de integrantes do movimento que atuassem dentro da legalidade.
A Corte afirmou que atividades de inteligência precisam respeitar o regime democrático e não podem servir à perseguição de opositores. Em 2026, Mendonça voltaria a colocar a inteligência estatal no centro de uma crise — desta vez acusando a própria Polícia Federal de monitorar ministros e usando esse argumento para afastar seu diretor-geral e seu diretor de Inteligência.
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Fevereiro de 2024: Kassio primeiro se declara impedido no caso Alcídia
A ligação mais documentada entre uma decisão de Kassio Nunes Marques e interesses econômicos do universo do Banco Master começa antes mesmo da crise aberta do banco. Em fevereiro de 2024, a Segunda Turma julgava um processo da Destilaria Alcídia, cuja decisão poderia atingir uma carteira bilionária de precatórios do setor sucroalcooleiro mantida pelo Banco Master. Segundo estimativas da PF citadas pela revista piauí, o banco carregava mais de R$ 10 bilhões em créditos desse segmento.
Kassio inicialmente não participou. A certidão registrou: “Impedido o ministro Nunes Marques.” O ministro já havia atuado no caso quando era desembargador do TRF-1.
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Um mês depois, Kassio retira o próprio impedimento
Em março de 2024, Kassio voltou atrás e disse que o impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria”, declarando-se novamente habilitado para votar. O processo estava empatado em 2 a 2: Toffoli e Fachin haviam votado a favor da tese da Alcídia, enquanto Gilmar e André Mendonça haviam votado contra. Kassio passava, portanto, a deter o voto capaz de decidir o julgamento.
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Enquanto o julgamento avançava, empresa ligada ao círculo do filho de Kassio começou a receber milhões
Em maio de 2024, a Consult Inteligência Tributária fez alterações societárias e elevou seu capital de R$ 10 mil para R$ 500 mil. Meses depois, a empresa começou a receber valores milionários: entre agosto de 2024 e julho de 2025, o Banco Master transferiu R$ 6,632 milhões para a Consult, enquanto a JBS transferiu outros R$ 11,38 milhões.
No mesmo período, a Consult repassou aproximadamente R$ 282 mil ao escritório de Kevin Marques, filho de Kassio Nunes Marques. Os movimentos chamaram a atenção do Coaf pela diferença entre o volume movimentado e o faturamento declarado pela empresa.
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Outubro de 2024: Kassio dá o voto decisivo; minutos depois vem “Dominado aqui”
Em 1º de outubro de 2024, Kassio devolveu o processo da Alcídia e votou. Seu voto desempatou a Segunda Turma em 3 a 2 a favor da tese que interessava à destilaria e tinha impacto sobre os créditos do setor sucroalcooleiro mantidos pelo Master. A reação dentro do banco aparece no celular de Vorcaro: o então diretor jurídico Luiz Rennó informou o resultado — “Ganhamos alcidia” — e encaminhou o placar.
Quatro minutos mais tarde, Rennó voltou à conversa, encaminhou novamente o cartão de contato de Kevin Marques e escreveu: “Dominado aqui.” A piauí revelou que, no mesmo período, a Consult recebia milhões do Banco Master e repassava dinheiro ao escritório de Kevin.
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Ciro Soares aparece comemorando com Vorcaro uma decisão de Mendonça
Poucos dias depois, outro personagem que mais tarde ligaria Vorcaro a André Mendonça já aparecia comemorando decisões judiciais com o banqueiro. Em 10 de outubro de 2024, depois de uma decisão de Mendonça relacionada a Cláudio Castro, o advogado Ciro Rocha Soares escreveu a Vorcaro: “Deu certo. Eu lhe disse. Ganhamos.” Na sequência, encaminhou material relacionado à decisão.
Ciro seria, meses depois, um dos intermediários responsáveis por levar Vorcaro a um encontro privado com André Mendonça.
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Novembro de 2024: Vorcaro procura Rodrigo Fux para ajudá-lo “num caso”
Enquanto Ciro fazia pontes no círculo de Mendonça, Daniel Vorcaro estreitava sua relação com Rodrigo Fux. Em 5 de novembro de 2024, o banqueiro escreveu para o filho do ministro: “Quero te chamar para me ajudar num caso.” Rodrigo respondeu e marcou uma conversa; os dois fizeram uma videoconferência e, depois, Vorcaro enviou um documento, ao qual Rodrigo respondeu que iria analisar.
As mensagens recuperadas pela PF mostram que o contato entre os dois durou mais de um ano.
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Dezembro de 2024: Rodrigo oferece “tapete vermelho” a Vorcaro
No mês seguinte, a intimidade das conversas ficou ainda mais explícita. Rodrigo e Vorcaro se tratavam como “irmão” e, ao rearranjar sua agenda para receber o banqueiro no escritório, Rodrigo escreveu: “Tapete vermelho irmão.” Meses depois, o mesmo conjunto de mensagens revelaria contatos que alcançavam também uma estrutura ligada ao gabinete de Luiz Fux.
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Dezembro de 2024: agente pergunta a Vorcaro quem pagaria viagem pedida por “Ministro Kassio”
No mesmo período, o celular de Vorcaro registra outro tipo de relação. Um agente de viagens recebeu mensagem de um contato identificado como “Ministro Kassio” pedindo a organização de uma viagem internacional para cinco pessoas. O agente encaminhou a conversa a Vorcaro e perguntou se deveria tratar diretamente com Kassio ou faturar o serviço para o banqueiro, chegando também a perguntar quem pagaria a conta.
A viagem acabou não se realizando, segundo as informações posteriormente divulgadas, mas o registro mostra um prestador de Vorcaro consultando o banqueiro sobre despesas privadas atribuídas ao ministro.
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Fevereiro e março de 2025: interlocutores trabalham para aproximar Vorcaro de Mendonça
No início de 2025, as mensagens revelam um esforço persistente para colocar Daniel Vorcaro diante de André Mendonça. Ciro Soares disse ao banqueiro que Mendonça queria recebê-lo e, num áudio, afirmou que havia contado ao ministro sobre a situação do Master perante o Banco Central e que Cezinha de Madureira também já havia conversado com ele sobre o assunto.
A primeira tentativa de reunião não ocorreu, mas Cezinha reorganizou o encontro. Em 13 de março, enviou a Vorcaro o endereço do Instituto Iter, em São Paulo. No dia seguinte, quando o banqueiro informou que estava chegando, Cezinha respondeu: “Ministro já está te esperando.”
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Março de 2025: mensagens falam em encontro com “Kassio” e cobrança de R$ 10 mil
No mesmo mês aparece uma das mensagens mais constrangedoras do material apreendido. Uma mulher identificada como Rayanna havia tratado com Vorcaro de um encontro e informado que “as meninas estão prontas”. Dias depois, voltou a procurar o banqueiro e disse que uma amiga havia “ficado com o Kassio” e estava cobrando; Vorcaro perguntou o valor e a conversa indica R$ 10 mil, seguida de dados para pagamento.
O endereço ligado ao encontro foi identificado pelo UOL como um tríplex no Itaim Bibi avaliado em aproximadamente R$ 50 milhões e relacionado a Vorcaro. A conversa específica registra apenas “Kassio”, sem sobrenome. Por isso, o documento prova a existência da cobrança e do nome, enquanto a identificação daquela pessoa como Kassio Nunes Marques decorre do cruzamento com o restante do material e permanece como suspeita publicada, não como identidade demonstrada no próprio diálogo.
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Rodrigo Fux leva comunicação ligada a Vorcaro até a secretaria do pai
Em 12 de março de 2025, as mensagens entre Rodrigo e Vorcaro alcançaram outro nível. Depois de um encontro em Brasília, Rodrigo tratou de um compromisso em Londres e orientou que determinadas informações fossem encaminhadas também para Patrícia, secretária de Luiz Fux, utilizando endereço institucional do STF.
A relação que começara como contato pessoal do filho passava, assim, por um canal ligado diretamente ao gabinete do pai.
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14 de março de 2025: Mendonça recebe Vorcaro por cerca de duas horas no Iter
No dia 14 de março, o encontro finalmente ocorreu. Vorcaro chegou ao endereço do Instituto Iter pouco antes das 17h e só voltou a enviar mensagem ao motorista às 18h40 dizendo que estava saindo. A sequência indica permanência de aproximadamente duas horas. O Iter não era o gabinete oficial de Mendonça no Supremo, mas uma instituição privada fundada pelo próprio ministro.
A existência do encontro só se tornaria pública em setembro de 2026, quando Mendonça já havia assumido a relatoria do caso Master. A revelação levou o professor de Direito Constitucional Pedro Serrano a sustentar publicamente que a reunião deveria impedir Mendonça de continuar comandando o caso. Era uma interpretação jurídica do professor, não uma decisão judicial, mas transformava o encontro num problema institucional aberto.
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No dia seguinte ao encontro, Mendonça interfere no ritmo do caso dos cemitérios
A data daquela reunião ganhou peso adicional por causa de outro processo. No dia seguinte ao encontro entre Mendonça e Vorcaro, o ministro pediu vista e interrompeu julgamento relacionado às concessionárias dos serviços funerários de São Paulo. Mais tarde surgiram relações financeiras entre empresas do universo do Master e concessionárias do setor.
Em setembro de 2026, Flávio Dino determinaria que a própria Polícia Federal e a CVM investigassem as operações entre o Banco Master e concessionárias de cemitérios de São Paulo, mencionando a sequência entre o encontro e a atuação de Mendonça no julgamento. O episódio dos cemitérios é diferente do caso Alcídia de Kassio: Alcídia está ligada à carteira de precatórios do Master e à mensagem “Dominado aqui”; cemitérios está ligado a Mendonça, ao encontro com Vorcaro e à posterior investigação financeira das concessionárias.
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Vorcaro continuou sendo convidado para atividades do instituto de Mendonça
A reunião de março também não encerrou os contatos. Em maio de 2025, Ciro Soares convidou Vorcaro para um evento do Instituto Iter em Belo Horizonte e, dias depois, retirou o convite após uma interferência de Cezinha de Madureira. As mensagens revelam discussões entre integrantes do círculo de Mendonça sobre a presença do banqueiro em atividades do instituto.
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Julho e agosto de 2025: “500 mil mês” e pagamento “essencial”
Enquanto Vorcaro circulava no entorno do Iter, as conversas do núcleo de Kassio ganhavam conteúdo financeiro ainda mais explícito. Em 4 de julho de 2025, Luiz Rennó encaminhou o contato de Kevin Marques para Vorcaro e perguntou: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?” No mês seguinte, Rennó avisou ao banqueiro que entre os pagamentos considerados essenciais estava faltando o da Consult e, logo depois, encaminhou novamente o contato de Kevin. Meia hora mais tarde, informou: “Foi pago.”
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Outubro de 2025: Fux muda de Turma e a possibilidade do trio é identificada imediatamente
Em 21 de outubro de 2025, Luiz Fux tomou uma decisão institucional que se tornaria fundamental para tudo o que aconteceu depois: pediu para sair da Primeira Turma e entrar na Segunda Turma do Supremo. A vaga havia sido aberta pela aposentadoria de Luís Roberto Barroso e, no dia seguinte, Fachin autorizou a mudança prevista no Regimento Interno.
A Segunda Turma já era composta por André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Dois dias depois da autorização, a Folha publicou reportagem sobre a nova correlação de forças e registrou que um eventual alinhamento de Kassio com Fux e Mendonça poderia garantir maioria ao trio, dando aos três um poder considerado até então pouco provável. Portanto, a possibilidade de Fux + Kassio + Mendonça = maioria não foi descoberta depois do afastamento de Andrei; ela foi identificada publicamente em outubro de 2025.
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Novembro de 2025: Kassio viaja em jato operado por empresa da qual Vorcaro havia sido sócio
Poucos dias depois da estreia de Fux na Segunda Turma, outra movimentação apareceu no círculo de Kassio. Em 12 de novembro, seis dias antes da primeira prisão de Vorcaro, o banqueiro enviou à advogada Camilla Ewerton Ramos o contato de uma profissional de aviação executiva. Dois dias depois, Kassio e sua mulher embarcaram num Legacy 650 de Brasília para Maceió para participar da festa de aniversário de Camilla.
A aeronave era operada pela Prime Aviation, empresa da qual Daniel Vorcaro havia sido sócio até setembro daquele ano. O próprio gabinete de Kassio confirmou posteriormente que Camilla ficou responsável pelo voo e pelos detalhes da viagem.
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18 de novembro de 2025: a PF de Andrei prende Vorcaro
Quatro dias depois daquela viagem, a Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro. Andrei Rodrigues estava no comando da corporação e, segundo o Vermelho, o próprio diretor-geral acompanhou a operação que encontrou Vorcaro em Guarulhos. A partir daquela prisão, celulares e documentos do banqueiro passaram a alimentar investigações que, meses depois, atingiriam os círculos dos ministros.
A posição de Andrei na história não é periférica. Ele era o chefe da instituição que prendeu Vorcaro e passou a custodiar justamente o material que explodiria no STF no ano seguinte.
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Fevereiro de 2026: Mendonça recebe por sorteio a relatoria do Master
Em fevereiro, depois que Dias Toffoli deixou a relatoria de procedimentos relacionados ao Master, André Mendonça foi escolhido por sorteio eletrônico para assumir o caso. O detalhe é importante porque não foi Mendonça quem escolheu a relatoria; o problema que emergiria depois era outro: o novo relator já havia recebido pessoalmente Daniel Vorcaro no Instituto Iter em março de 2025, informação que ainda não era pública quando ocorreu o sorteio.
A partir dali, Mendonça passou a ter grande poder processual sobre a investigação da Polícia Federal.
Março de 2026: o trio já funcionava como maioria no caso Master
A convergência de votos entre os três não começou no afastamento de Andrei. Em março, quando a Segunda Turma decidiu se manteria Daniel Vorcaro preso, André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques formaram a maioria pela prisão.
Esse fato demonstra, primeiro, que Fux, Kassio e Mendonça já constituíam na prática uma maioria funcional dentro da Segunda Turma meses antes da crise de setembro. Também mostra que essa maioria nem sempre atuou para beneficiar Vorcaro: em março, manteve o banqueiro preso. O contexto se transforma posteriormente, quando as investigações começam a revelar conexões pessoais, familiares e financeiras em torno dos próprios integrantes dessa maioria.
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Março de 2026: relações de Rodrigo Fux e Kevin Marques com o universo Master começam a vir a público
No mesmo mês, duas frentes atingiram familiares de ministros da Segunda Turma. A Folha revelou que Rodrigo Fux havia sido convidado por Vorcaro para o camarote VIP da Sapucaí em 2025 e também veio a público o relatório do Coaf sobre os milhões recebidos pela Consult e os pagamentos de aproximadamente R$ 282 mil ao escritório de Kevin Marques.
Aquilo que em 2024 estava espalhado entre decisões judiciais, relações empresariais e mensagens privadas começava a ganhar forma pública.
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26 de março: CPI do Master chega às mãos de Kassio — e fica sem decisão
Em 26 de março, Kassio Nunes Marques recebeu por sorteio outro processo diretamente relacionado ao Banco Master. Era um mandado de segurança que pedia ao Supremo para obrigar o presidente do Senado a instalar uma CPI do Banco Master. O requerimento da CPI tinha 53 assinaturas de senadores, quase o dobro das 27 necessárias.
A revista piauí verificou que, até 18 de setembro, quase seis meses depois, Kassio não havia assinado sequer um despacho no processo. Em junho, quatro senadores pediram que Kassio fosse declarado suspeito para decidir a ação, alegando amizade com Ciro Nogueira e interesse direto no caso. Fachin rejeitou o pedido porque a arguição havia sido apresentada fora do prazo regimental, numa decisão processual.
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PF pediu para usar mansão de Vorcaro no combate à corrupção; Mendonça determinou venda
Outro episódio de tensão entre Mendonça e a corporação ocorreu no primeiro semestre. A PF pediu autorização para transformar uma mansão de aproximadamente R$ 30 milhões atribuída a Vorcaro em base discreta para equipes de combate à corrupção e lavagem de dinheiro, argumentando que precisava de um local reservado para atividades de inteligência.
Mendonça negou o pedido e, em 8 de julho, determinou que o imóvel fosse leiloado e que o dinheiro permanecesse depositado judicialmente. A decisão tinha fundamentação patrimonial própria, mas passou a integrar a cronologia de choques entre o relator e a Polícia Federal.
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Kassio viajou diversas vezes em avião de advogado eleitoral
Em abril, outra relação privada de Kassio veio a público. A Folha localizou diversas viagens do ministro utilizando aeronave do advogado eleitoral Gustavo Severo, seu amigo, e identificou cinco entradas conjuntas de Kassio e Severo no terminal executivo de Brasília apenas em setembro de 2025.
Severo havia defendido Cláudio Castro na Justiça Eleitoral. Kassio posteriormente participou do julgamento de Castro no TSE.
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Kassio depois nomeou a mulher de Severo para a Escola Judiciária do TSE
Em 1º de julho, Kassio, já presidente do Tribunal Superior Eleitoral, assinou a Portaria nº 389, que designou Fabiana Cristina Ortega Severo da Silva como vice-diretora da Escola Judiciária Eleitoral do TSE. Fabiana é mulher de Gustavo Severo e a nomeação consta do documento oficial do Tribunal.
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Junho de 2026: o mesmo trio volta a formar maioria no Master
Em junho, Mendonça, Fux e Kassio voltaram a aparecer juntos. A Segunda Turma analisou as prisões de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, e Felipe Vorcaro, primo do banqueiro, e novamente os três votaram juntos. Por 3 a 1, mantiveram as prisões.
A sequência confirma que a maioria Fux–Kassio–Mendonça já funcionava dentro da Turma antes de Fux assumir sua presidência.
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Junho: fica definido que Fux comandará a Turma que julga o Master
Em 30 de junho, o desenho institucional ganhou outra peça: foi anunciado que Luiz Fux assumiria em agosto a Presidência da Segunda Turma. A Agência Brasil destacou naquele momento que aquele colegiado era responsável pelo julgamento dos processos envolvendo Daniel Vorcaro e a Operação Compliance Zero.
A estrutura passaria a reunir André Mendonça como relator do Master, Luiz Fux como presidente da Turma e Kassio Nunes Marques como integrante capaz de completar uma maioria de três votos. A presidência de Fux decorria do rodízio regimental, mas seu efeito objetivo era concentrar no trio posições capazes de influenciar o ritmo e o resultado das decisões da Segunda Turma.
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Setembro começa com a revelação do encontro entre Mendonça e Vorcaro
A crise explode de vez em 2 de setembro, quando CartaCapital publica as mensagens que comprovam o encontro de março de 2025 entre Vorcaro e Mendonça no Instituto Iter. O material revela a atuação de Ciro Soares e Cezinha de Madureira para aproximar os dois e mostra que Mendonça havia sido informado sobre problemas do Master perante o Banco Central antes da reunião.
A partir daquele momento, a posição do próprio relator passou a ser questionada.
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No dia seguinte, vêm os R$ 11,5 milhões do Iter e Mendonça deixa a sociedade
Em 3 de setembro, outra revelação atingiu a estrutura privada fundada pelo ministro. O Instituto Iter havia firmado 68 contratos por contratação direta com órgãos públicos de 15 estados desde 2024, recebendo R$ 11,5 milhões. No mesmo dia, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade e doaria suas quotas e as da esposa.
A instituição que sediara o encontro reservado com Vorcaro se tornava agora uma segunda frente de questionamentos.
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Também em 3 de setembro, Moraes pede investigação sobre a atuação de Mendonça
No mesmo momento em que o encontro e os negócios do Iter ganhavam repercussão, Alexandre de Moraes encaminhou a Edson Fachin relatórios e pediu providências contra André Mendonça. Segundo a documentação divulgada, relatórios da própria Polícia Federal apontavam possíveis indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na condução de investigações relacionadas ao Master e ao INSS.
Cinco dias depois, Mendonça afastaria justamente os dois principais dirigentes da Polícia Federal.
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8 de setembro: Mendonça afasta Andrei e o diretor de Inteligência da PF
Na manhã do dia 8, Mendonça tomou a decisão que alteraria toda a crise: afastou Andrei Rodrigues e Leandro Almada, atingindo simultaneamente o diretor-geral e o diretor de Inteligência da Polícia Federal. O pedido utilizado como base havia sido apresentado pelo partido Novo, que também solicitara a prisão preventiva de Andrei.
Mendonça justificou a decisão dizendo que havia sido alvo de monitoramento irregular da PF e apontou gravidade na produção e divulgação de relatórios de inteligência. Havia, porém, uma circunstância institucional impossível de separar daquele ato: a própria PF havia produzido documentos posteriormente utilizados para pedir investigação contra Mendonça, além de ser a corporação responsável pela prisão de Vorcaro e pela custódia de seu celular.
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Dino acusa Mendonça de agir em causa própria
Flávio Dino transformou esse possível conflito em acusação institucional explícita. Ao analisar o afastamento, afirmou que Mendonça não poderia transformar divergências pessoais ou funcionais com a Polícia Federal em fundamento para uma decisão “em causa própria” com capacidade de paralisar investigações e trabalhos policiais.
A crítica partiu de outro ministro do Supremo e tinha como objeto exatamente o vínculo entre o conflito pessoal alegado por Mendonça e a decisão contra o comando da PF.
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Horas depois, Fux abre a sessão e Kassio completa a maioria
Mendonça não deixou sua decisão aguardando o calendário normal da Turma e a submeteu imediatamente ao colegiado. Fux, agora presidente daquela Segunda Turma para a qual pedira transferência em 2025, conduziu a abertura de uma sessão extraordinária. Gilmar Mendes pediu vista assim que a sessão começou, às 10h, mas Fux e Kassio anteciparam os votos e acompanharam Mendonça.
A maioria de três estava formada. O Vermelho calculou que apenas nove minutos separaram a abertura da sessão da formação da maioria. A aritmética prevista pela Folha em outubro de 2025 havia se tornado realidade: Fux, Kassio e Mendonça usaram seus três votos para manter afastados os dirigentes da Polícia Federal.
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9 de setembro: Dino é o primeiro a devolver Andrei e Almada aos cargos
A primeira reversão veio de Flávio Dino. Na manhã seguinte, ele determinou a reintegração de Andrei e Leandro Almada, falou em “atropelos processuais”, questionou a legitimidade do partido Novo para pedir aquele tipo de afastamento e apontou o risco de paralisação de investigações e trabalhos policiais.
Só depois Fachin entraria diretamente na disputa.
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Fachin assume a crise e mantém a direção da PF
Horas depois da decisão de Dino, o presidente do Supremo assumiu o conflito. Fachin suspendeu os efeitos das decisões conflitantes e manteve Andrei e Almada em suas funções. A intervenção da Presidência retirava da Segunda Turma o controle exclusivo sobre uma crise que já envolvia competência constitucional, investigações em andamento e acusações internas entre ministros.
A partir desse momento, Fachin passaria a centralizar cada vez mais a condução institucional do caso.
A crise avança para o sigilo — e Moraes acusa Mendonça de seleção
Depois da tentativa de afastar a PF, a guerra mudou de terreno e passou para o controle sobre aquilo que seria tornado público nas investigações. Mendonça levantou o sigilo de 15 procedimentos, enquanto Alexandre de Moraes acusou o colega de fazer uma “escolha seletiva” dos documentos divulgados e pediu a abertura completa do caso.
A Procuradoria-Geral da República também pediu a ampliação da transparência, afirmando que liberar apenas parte do conteúdo poderia transmitir uma ideia equivocada sobre o que existia no processo. Fachin então deu 24 horas para a retirada mais ampla do sigilo.
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Por que Moraes aparecia na mira e Fux e Kassio não?
A disparidade passou a ser questionada publicamente. O UOL publicou em 12 de setembro uma reportagem perguntando por que, entre ministros citados de formas diferentes no universo Vorcaro — Toffoli, Moraes, Fux e Kassio — somente Moraes tinha sido colocado no centro de uma investigação comandada por Mendonça.
Àquela altura, já existiam informações públicas sobre Rodrigo Fux e Kevin Marques. O debate sobre seletividade deixava de ser apenas uma disputa entre Moraes e Mendonça e passava a envolver diretamente o tratamento dado a outros ministros da Segunda Turma.
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Fachin retira de Mendonça a relatoria do caso sobre Moraes e trava outras frentes
Em 12 de setembro, Fachin foi além: assumiu a relatoria do procedimento sobre Moraes e Vorcaro e determinou o envio à Presidência das íntegras das investigações do Master e do INSS. A decisão mencionou o risco de impedimento do magistrado.
Com isso, Fachin reduziu o controle de Mendonça sobre processos que já haviam provocado a maior crise interna do Supremo em anos.
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O celular inteiro chega a outros ministros — e a história muda
Em 14 de setembro, o conteúdo integral do celular de Vorcaro passou a chegar a gabinetes de outros integrantes do STF. Foi a partir desse acesso que novas mensagens envolvendo Rodrigo Fux, Kevin Marques, Ciro Soares e outras pessoas próximas aos três ministros ganharam dimensão pública.
A partir dali, as relações deixaram de aparecer isoladamente e começaram a se conectar.
A proposta de delação de Vorcaro também havia citado Fux e Kassio
Nesse momento surgiu ainda outro documento. Versões preliminares de uma proposta de colaboração premiada de Vorcaro citavam Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. No capítulo relacionado a Fux, Vorcaro relatava que Ciro Soares tinha boa relação com Marianna Fux e que teria pedido a Ciro para usar essa proximidade em temas ligados a precatórios.
É uma conexão particularmente relevante porque Ciro, que intermediou o acesso de Vorcaro a André Mendonça, também apareceu na proposta do banqueiro como pessoa com acesso à família de Luiz Fux. As menções a Fux e Kassio foram retiradas da última versão da proposta, que acabou rejeitada pelas autoridades. Não existe evidência pública de que os ministros tenham provocado a retirada dos nomes.
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15 de setembro: as mensagens atingem os três círculos ao mesmo tempo
No dia 15, a fotografia se tornou muito mais clara. A Folha publicou uma reconstrução das mensagens de Vorcaro envolvendo André Mendonça e os filhos de Fux e Kassio. No núcleo Kassio apareceram Kevin Marques, o “500 mil mês”, o “Dominado aqui”, viagens e outros contatos; no núcleo Fux apareceram Rodrigo, “irmão”, “tapete vermelho”, pedido de ajuda “num caso”, reuniões e comunicação que chegou à secretária de Luiz Fux; no núcleo Mendonça apareceram Ciro Soares, Cezinha de Madureira, o encontro no Iter e as articulações para aproximar Vorcaro do ministro.
A própria Folha descreveu Mendonça, Fux e Kassio naquele momento como aliados que atuavam juntos numa ala oposta a Moraes, Dino, Gilmar e Zanin.
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Kassio deixa uma sessão depois que o filho aparece nas mensagens
A divulgação teve efeito imediato. Kassio se declarou impedido de participar de uma das discussões sobre os desdobramentos do caso Master justamente quando o material envolvendo Kevin Marques ganhava repercussão pública.
Posteriormente, Kassio indicaria que pretende retirar esse impedimento depois das eleições, o que poderá recolocá-lo em votações capazes de decidir processos envolvendo Mendonça e Moraes.
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Gilmar acusa Mendonça de agir de forma defensiva em relação a Kassio
Na sessão de 15 de setembro, Gilmar Mendes foi ainda mais direto e acusou Mendonça de tratar Kassio com condescendência nas apurações sobre as relações de Vorcaro com autoridades. Segundo Gilmar, relatório de inteligência da PF registraria uma “postura abertamente defensiva” de Mendonça em relação a Nunes Marques.
A acusação relacionava diretamente dois dos três integrantes da maioria que havia afastado Andrei.
Saiba mais: Folha — Gilmar acusou Mendonça de postura defensiva em relação a Kassio
Fux e Mendonça passam a atacar juntos a atuação da PF
Na mesma sessão, a convergência entre Fux e Mendonça deixou de aparecer apenas nos votos e passou ao discurso. Fux afirmou que a Polícia Federal não poderia “peitar ministro” e acusou a corporação de “desvio de finalidade”, enquanto Mendonça falou na existência de uma “PF paralela” destinada a monitorar integrantes do Supremo.
Uma semana antes, ambos haviam participado da retirada da direção da corporação. Agora falavam publicamente numa mesma direção contra a atuação da PF.
Saiba mais: UOL — Fux e Mendonça acusam PF de “peitar ministro” e agir como “polícia paralela”
Cezinha de Madureira forma uma ponte entre Mendonça e Kassio
Outro personagem conecta diretamente dois dos três círculos. Cezinha de Madureira foi um dos articuladores políticos da indicação de André Mendonça para o STF e ajudou a organizar o encontro privado entre Mendonça e Vorcaro no Iter. Depois, a Polícia Federal passou a investigar Cezinha sob suspeitas relacionadas a tráfico de influência e atuação perante tribunais superiores.
Mensagens obtidas pela PF indicam que ele procurava também Kassio Nunes Marques em processos de interesse de clientes representados por pessoas de seu grupo. Assim, a mesma pessoa que serviu de ponte entre Vorcaro e Mendonça aparece também em tratativas sobre processos nas mãos de Kassio.
Kassio anulou investigação de cliente ligada ao grupo de Cezinha
Um desses processos envolvia a prefeita de Beberibe, Michele Queiroz. A PF encontrou contrato que previa R$ 500 mil em honorários depois do julgamento de uma reclamação no Supremo, enquanto mensagens mostram interlocutoras do grupo falando sobre o processo e Cezinha indicando que buscaria Nunes Marques.
Kassio negou o pedido formal apresentado pela defesa, mas concedeu habeas corpus de ofício e anulou as diligências investigativas realizadas pelo Ministério Público do Ceará. A Segunda Turma posteriormente confirmou sua decisão por unanimidade.
A mesma investigação da PF cita outro caso envolvendo o prefeito de Aquiraz. Fachin havia negado a pretensão, mas a Segunda Turma reverteu a decisão por 3 a 2, com Kassio, Toffoli e Gilmar na maioria.
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A mansão de R$ 250 milhões reservada para “KN”
Em 18 de setembro veio outra revelação sobre o círculo de Kassio. Mensagens mostram pessoas ligadas a Vorcaro organizando uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, para uma autoridade identificada como “KN” durante o Carnaval de 2025. O imóvel foi avaliado em cerca de R$ 250 milhões e a locação por uma semana foi tratada nas mensagens em aproximadamente R$ 1,45 milhão.
As conversas envolvem ainda carros, motoristas, camarotes, pulseiras, helicóptero, bebidas e organização de eventos. Investigadores da PF citados pelo UOL interpretaram “KN” como referência a Kassio Nunes Marques. A identidade atribuída pelos investigadores precisa permanecer assim — como interpretação investigativa das iniciais — até eventual confirmação documental adicional.
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Iter recebeu R$ 5,2 milhões de empresa de antigo parceiro de negócios de Vorcaro
Outra revelação atingiu diretamente a estrutura criada por Mendonça. A Cedro Participações, de Lucas Kallas, colocou R$ 5,2 milhões no Instituto Iter por meio de contrato de mútuo conversível. O contrato total era de R$ 5,9 milhões e havia sido firmado em abril de 2024, quando Mendonça ainda integrava a instituição. Kallas havia mantido negócios com Daniel Vorcaro.
Os recursos começaram a ser devolvidos em janeiro de 2026, antes de Mendonça ser sorteado relator do Master. A operação, portanto, não demonstra transferência de Vorcaro para Mendonça, mas revela uma conexão financeira entre a entidade privada criada pelo ministro e uma empresa de empresário que havia mantido negócios com o banqueiro.
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Rodrigo Fux é advogado justamente do empresário que colocou milhões no instituto de Mendonça
No dia 18 apareceu uma conexão direta entre os círculos de Fux e Mendonça que até então não estava no centro da história: Rodrigo Fux é advogado de Lucas Kallas, justamente o fundador da Cedro Participações, empresa que colocou cerca de R$ 5 milhões no Instituto Iter. Rodrigo foi contratado para defender o empresário num caso de suposto crime ambiental envolvendo mineração na Serra do Curral.
A conexão objetiva une os dois círculos: Lucas Kallas → Cedro → milhões no Iter de Mendonça; Lucas Kallas → cliente de Rodrigo Fux → filho de Luiz Fux. Não há nesse elo, até agora, prova pública de negociação entre os dois ministros, mas existe uma ponte profissional e financeira verificável entre seus entornos.
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Gilmar formaliza a acusação de “ajuste prévio” entre Fux e Mendonça
Em 17 de setembro, aquilo que até então era uma suspeita sobre a rapidez da votação ganhou uma acusação institucional expressa. Gilmar Mendes enviou ofício a Luiz Fux e reconstruiu minuto a minuto o que ocorrera em 8 de setembro: segundo o documento, a medida de Mendonça foi registrada às 8h43, o processo entrou em pauta às 9h29 e o gabinete de Gilmar só foi avisado às 9h38 de uma sessão extraordinária marcada para as 10h.
Às 10h, Gilmar pediu vista. Fux registrou o voto às 10h04 e Kassio votou às 10h06. Gilmar afirmou que a sequência mostrava um “ajuste prévio” entre Fux e Mendonça. A Agência Brasil registrou que o decano acusou Fux de “condução indevida dos trabalhos” e disse que o presidente da Turma havia transformado sua posição em mecanismo de aceleração de uma tese.
Essa é, até 18 de setembro, a acusação documental mais direta sobre uma coordenação prévia na operação que afastou a direção da Polícia Federal. Não é uma decisão judicial reconhecendo um conluio ilícito, mas uma acusação formal feita pelo decano do próprio Supremo contra o presidente da Segunda Turma.
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A PF recebe nova ordem para investigar operações ligadas ao caso dos cemitérios
Enquanto a disputa interna prosseguia, Flávio Dino abriu uma nova frente e mandou PF e CVM investigarem as relações financeiras entre o Banco Master e concessionárias de cemitérios de São Paulo. O movimento recolocou em evidência a sequência de março de 2025: Vorcaro se encontra com Mendonça → no dia seguinte Mendonça interrompe julgamento → posteriormente aparecem interesses financeiros do universo Master no setor → PF e CVM recebem ordem para investigar.
A nova apuração não é uma investigação criminal formal de Mendonça, mas coloca novamente a Polícia Federal diante de uma frente que toca diretamente a cronologia de atos do ministro.
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A Polícia Federal que os três afastaram é a mesma que revelou as conexões
Quando os fatos são reorganizados cronologicamente, o episódio de 8 de setembro deixa de parecer um acontecimento isolado. Andrei comandava a PF que prendeu Vorcaro, e a corporação apreendeu o celular que continha mensagens sobre filhos de Fux e Kassio e intermediários próximos de Mendonça. Mendonça havia recebido Vorcaro antes de se tornar relator do Master. Kassio havia retirado seu impedimento e dado o voto decisivo num processo com impacto sobre negócios do banco; depois, mensagens internas do Master relacionaram o resultado ao contato de seu filho. Rodrigo Fux mantinha relação de mais de um ano com Vorcaro e chegou a direcionar comunicação para uma secretária do próprio Luiz Fux.
Fux havia solicitado voluntariamente a transferência para a Segunda Turma, e a Folha havia previsto que a nova configuração poderia produzir uma maioria Fux–Kassio–Mendonça. Fux depois assumiu a Presidência da Turma responsável pelos processos do Master. Kassio passou a controlar uma ação que tenta obrigar o Senado a instalar a CPI do Master — processo no qual, segundo a piauí, não havia assinado decisão alguma até 18 de setembro.
Em 3 de setembro, relatórios da PF foram utilizados num pedido para investigar a atuação de Mendonça. Em 8 de setembro, Mendonça afastou Andrei e o diretor de Inteligência. Fux abriu uma sessão extraordinária, Gilmar pediu vista e Fux e Kassio anteciparam os votos. Dino acusou Mendonça de agir em causa própria. Depois, Gilmar acusou Fux e Mendonça de “ajuste prévio”. Nos dias seguintes, a abertura mais ampla do celular de Vorcaro expôs ainda mais relações nos três círculos.
Essa sequência não é a prova judicial de que os três organizaram um pacto criminoso para esconder os próprios problemas, mas já constitui uma base documental muito diferente de uma suspeita vaga: há mudança voluntária de colegiado, formação antecipadamente identificada de uma maioria, concentração de posições processuais, relações familiares e profissionais com pessoas do universo investigado, divergências sobre quais informações seriam expostas, uma decisão para retirar a direção da instituição investigadora e uma acusação formal, dentro do próprio STF, de ajuste prévio entre dois dos três integrantes daquela maioria.
É esse conjunto — e não um único episódio — que colocou a atuação de Mendonça, Fux e Kassio sob suspeição pública.
Os próprios ministros agora querem o material integral apreendido pela PF
A história chegou a outro ponto nesta semana. Fux e Mendonça receberam da Polícia Federal a íntegra dos dados extraídos do telefone de Daniel Vorcaro, enquanto Kassio também pediu acesso. O aparelho contém justamente mensagens que passaram a expor Rodrigo Fux, Kevin Marques e pessoas do círculo de Mendonça.
Ou seja: os três integrantes da maioria que tentou manter a cúpula da Polícia Federal afastada agora buscam ou já possuem acesso ao material integral guardado pela própria corporação.
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As respostas dos citados e os limites dos documentos
Os principais envolvidos contestam diferentes partes das acusações. Kassio e Kevin sustentam que o filho não recebeu dinheiro de Vorcaro ou do Master e que os valores documentados se referem a serviços prestados à Consult. Kassio também nega benefícios atribuídos a ele nas mensagens sobre viagem e outros episódios. No diálogo sobre a mulher, o material reproduzido identifica apenas “Kassio”; nas mensagens sobre a mansão, a identificação de “KN” como Nunes Marques é atribuída a investigadores.
Rodrigo Fux afirma que nunca prestou serviços a Vorcaro ou ao Master e que uma possível aproximação profissional não prosperou. As mensagens, contudo, documentam contato prolongado, reuniões, pedidos de ajuda, tratamento pessoal e encaminhamento de comunicação para a secretaria de Luiz Fux. Mendonça afirma que seu encontro com Vorcaro teve finalidade legítima relacionada a precatórios e contesta acusações de irregularidade na condução do Master. O encontro, a atuação dos intermediários, os negócios do Iter e os atos posteriores permanecem documentados e no centro da disputa.
Essas contestações não eliminam a cronologia. Delimitam aquilo que cada documento consegue demonstrar.
E agora?
A crise está longe de terminar. A PF continua com investigações relacionadas ao Banco Master; PF e CVM receberam nova determinação para examinar operações entre o banco e concessionárias de cemitérios de São Paulo; o conteúdo do celular de Vorcaro continua produzindo novas reportagens e novos vínculos; o processo que tenta obrigar a instalação da CPI do Master permanece sob relatoria de Kassio; e o pedido de investigação sobre a atuação de Mendonça continua no Supremo, embora seu julgamento tenha sido adiado.
Fachin assumiu maior controle sobre procedimentos que antes estavam nas mãos de Mendonça, Gilmar formalizou sua acusação de “ajuste prévio” e Fux, Kassio e Mendonça permanecem na Segunda Turma. O que se sabe até 18 de setembro é que a direção da Polícia Federal não foi afastada por três ministros que estavam distantes das investigações conduzidas pela corporação.
Foi afastada por um relator que havia se encontrado com Daniel Vorcaro e estava sob questionamento baseado em relatórios da própria PF; por um ministro cujo filho aparece em mensagens e relações profissionais com o banqueiro e que havia voluntariamente mudado para a Turma; e por outro ministro cujo filho aparece em fluxos financeiros e mensagens de executivos do Master, enquanto ele próprio mantinha sob sua relatoria havia quase seis meses uma ação para instalar a CPI do banco.
Foi essa maioria que, em poucos minutos, tentou manter Andrei Rodrigues e Leandro Almada fora do comando da Polícia Federal. E foi sobre a maneira como essa maioria se formou que um ministro da própria Corte passou a falar em “ajuste prévio”.
