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O Lado Esquerdo da Notícia

Patrimônio de Nikolas cresceu de R$ 36,8 mil para R$ 3,9 milhões em apenas quatro anos

Por Léo Duarte

 

Bens declarados pelo deputado aumentaram 10.487,75% entre 2022 e 2026. Nos mesmos quatro anos, Nikolas esteve entre as principais figuras da mobilização contra a fiscalização das fintechs que acabou revogada, votou pela chamada PEC da Blindagem e contra a manutenção da prisão de Chiquinho Brazão. Mensagens reveladas em 2026 registram ainda Daniel Vorcaro afirmando ter bancado seus voos e mostram o deputado pedindo ajuda ao ex-banqueiro em uma questão envolvendo seu então assessor Thiago Rodrigues de Faria e uma negociação minerária estimada entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões; no teto projetado, o escritório de Faria poderia receber US$ 2,25 milhões, cerca de R$ 11,5 milhões.

O patrimônio declarado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) à Justiça Eleitoral passou de R$ 36.820,46, em 2022, para R$ 3.898.456,67, em 2026. São R$ 3.861.636,21 a mais em apenas quatro anos, um crescimento nominal de 10.487,75%. O valor informado em 2026 é quase 106 vezes o declarado quatro anos antes.

O salto ocorreu durante o primeiro mandato de Nikolas na Câmara dos Deputados. Ele tomou posse em fevereiro de 2023, quando a remuneração fixa mensal era de R$ 39.293,32. O valor passou a R$ 41.650,92 em abril de 2023, a R$ 44.008,52 em fevereiro de 2024 e a R$ 46.366,19 em fevereiro de 2025.

Somadas apenas as remunerações fixas mensais ordinárias entre fevereiro de 2023 e junho de 2026, o total chega a aproximadamente R$ 1,81 milhão brutos. O patrimônio declarado em 2026 é de R$ 3,89 milhões. A soma desses salários fixos mensais, portanto, é inferior ao valor patrimonial declarado.

A dimensão do crescimento coloca Nikolas no centro da pergunta: quais pagamentos, negócios, operações e relações econômicas envolvendo o deputado acompanharam a passagem de R$ 36,8 mil para quase R$ 3,9 milhões em quatro anos, e há alguma relação entre esses fluxos e a formação do patrimônio declarado em 2026?

Da Cabana do Pai Tomás aos R$ 3,9 milhões declarados

Nikolas apresenta sua trajetória pública a partir de uma origem na periferia de Belo Horizonte e afirma ter nascido e crescido na Cabana do Pai Tomás. Quando disputou a eleição para deputado federal em 2022, declarou R$ 36.820,46. Quatro anos depois, novamente candidato à Câmara, informou à Justiça Eleitoral R$ 3.898.456,67.

Nesse intervalo, sua atuação nacional também passou por episódios ligados à fiscalização financeira e à responsabilização criminal. Nikolas ocupou papel de destaque na reação contra a fiscalização das fintechs, apoiou a PEC que condicionaria o processamento criminal de parlamentares à autorização do próprio Congresso e votou contra a manutenção da prisão de Chiquinho Brazão, posteriormente condenado com o irmão Domingos Brazão no processo pelos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Vídeo de Nikolas alimentou desinformação sobre fiscalização; Receita disse que crime organizado foi beneficiado

Em janeiro de 2025, uma mudança da Receita Federal passou a incluir instituições de pagamento e fintechs nas obrigações da e-Financeira. A norma previa o envio de informações sobre montantes mensais globais a partir de R$ 5 mil para pessoas físicas e R$ 15 mil para pessoas jurídicas. Os bancos tradicionais já prestavam essas informações; a mudança estendia a obrigação às instituições de pagamento.

Nikolas assumiu papel central na reação contra a medida. Em vídeo que ultrapassou 230 milhões de visualizações, associou a nova fiscalização à possibilidade de uma futura tributação do Pix e a consequências tributárias para trabalhadores e pequenos negócios. A Folha apontou imprecisões nos argumentos sobre Imposto de Renda e MEIs, enquanto o Aos Fatos concluiu que o vídeo alimentou a desinformação sobre taxação do Pix, dando enorme alcance a uma narrativa falsa que já circulava nas redes.

A ofensiva ocorreu em meio a uma onda de conteúdos falsos que apresentavam a fiscalização como criação de imposto sobre o Pix. O próprio Nikolas se tornou um dos principais vetores políticos dessa mobilização, e reportagem da Agência Estado o apontou como o principal artífice da campanha contra a instrução normativa.

Sob forte pressão política e social alimentada pela desinformação, em 15 de janeiro o governo revogou a norma. Meses depois, a própria Receita afirmou que uma “avassaladora onda de desinformação”, com participação de parlamentares federais de oposição, havia impedido a fiscalização das fintechs. O órgão disse que as mentiras sobre uma falsa tributação dos meios de pagamento forçaram o recuo.

Sete meses depois, operações federais de grande porte encontraram fintechs inseridas em estruturas de movimentação, ocultação e lavagem de recursos do crime organizado. A Receita afirmou que algumas instituições posteriormente alcançadas pelas operações integravam esquemas criminosos e que a ausência das mesmas obrigações de transparência aplicadas aos bancos deixava uma brecha explorada para movimentar e lavar dinheiro.

O secretário especial da Receita, Robinson Barreirinhas, afirmou que a campanha de fake news contribuiu para lavagem de dinheiro e fraudes no sistema financeiro. Ao comentar os efeitos do recuo, declarou: “Quem ganhou com essas mentiras [...] foi o crime organizado.” Barreirinhas acrescentou que as pessoas que espalharam aquelas informações ajudaram o crime organizado, independentemente de suas intenções.

O vídeo de Nikolas esteve entre os conteúdos de maior alcance da ofensiva contra a medida. Em meio à pressão amplificada por essa mobilização, a norma foi revogada; meses depois, a Receita atribuiu à campanha de desinformação o enfraquecimento da fiscalização e afirmou que o crime organizado foi beneficiado.

Se a Receita afirma que o crime organizado foi beneficiado pela campanha que derrubou a fiscalização, as perguntas sobre Nikolas são inevitáveis: quais relações o deputado mantinha com empresários, fintechs ou outros agentes interessados no recuo? Houve financiamento, pagamento, apoio material ou qualquer vantagem econômica relacionada à atuação política de Nikolas naquele episódio? E existe algum fluxo financeiro desse período que tenha relação com o crescimento do patrimônio declarado pelo deputado?

Na PEC da Blindagem, Nikolas votou pela barreira a processos criminais e pelo voto secreto

Em setembro de 2025, Nikolas votou a favor da PEC 3/2021, conhecida como PEC da Blindagem. No dia 16, votou “sim” ao substitutivo no primeiro turno e “sim” novamente à proposta no segundo turno. Também apoiou o destaque que mantinha a palavra “secreta” na regra de votação sobre a autorização para processos criminais de parlamentares.

O texto aprovado pela Câmara estabelecia que deputados e senadores não poderiam ser processados criminalmente sem licença prévia da própria Casa legislativa. Essa autorização seria decidida por voto secreto da maioria absoluta dos parlamentares, criando uma barreira política capaz de autorizar ou bloquear a abertura de ação penal contra um parlamentar antes que o processo criminal avançasse.

A barreira não se restringia a uma modalidade específica de crime. Como o texto tratava genericamente do processamento criminal de deputados e senadores, a exigência alcançaria, em tese, acusações por homicídio, tráfico de drogas, organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro, estupro e outros crimes comuns graves, além dos crimes de colarinho branco. O voto secreto impediria o eleitor de saber como cada deputado ou senador se posicionou na decisão de autorizar ou bloquear a ação penal contra um colega.

Nikolas votou pela aprovação dessa mudança e apoiou a manutenção do sigilo do voto. No Senado, a Comissão de Constituição e Justiça rejeitou a proposta por unanimidade, com 26 votos favoráveis ao parecer pela rejeição, que considerou a PEC inconstitucional, injurídica e contrária ao mérito. A proposta foi definitivamente arquivada.

Por que Nikolas apoiou duas vezes uma regra que entregaria aos próprios congressistas o poder de autorizar o processamento criminal de seus colegas e ainda votou para esconder do público como essa decisão seria tomada? Que articulações envolveram especificamente Nikolas, com quais parlamentares, empresários ou grupos ele tratou da proposta e havia interesses políticos ou econômicos ligados ao deputado que seriam beneficiados por uma mudança que reduziria a transparência e ampliaria o poder do Congresso sobre ações penais contra seus próprios integrantes?

Nikolas votou contra a manutenção da prisão de Chiquinho Brazão

Em 10 de abril de 2024, a Câmara decidiu se manteria os efeitos da prisão de Chiquinho Brazão, determinada no âmbito das investigações dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O parecer da Comissão de Constituição e Justiça defendia a preservação da decisão judicial. Nikolas votou “não” ao parecer.

A posição de Nikolas foi derrotada no plenário. A Câmara manteve a prisão por 277 votos a 129, com 28 abstenções. A Resolução 9/2024 preservou formalmente os efeitos da prisão determinada contra Brazão.

O processo chegou a julgamento em fevereiro de 2026. Por unanimidade, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Chiquinho Brazão, Domingos Brazão e outros réus pelos crimes relacionados ao planejamento dos assassinatos de Marielle e Anderson e à tentativa de homicídio de Fernanda Chaves. Os irmãos Brazão também foram condenados por integrar organização criminosa armada e receberam penas de 76 anos e três meses de prisão; em junho, o STF rejeitou recursos e manteve as condenações.

O voto de Nikolas em 2024 buscava rejeitar o parecer que mantinha Chiquinho Brazão preso. Dois anos depois, o parlamentar cuja prisão Nikolas votou contra foi condenado por unanimidade pelo STF a mais de 76 anos.

Por que Nikolas votou contra a manutenção da prisão de Chiquinho Brazão? Quem procurou o deputado antes daquela votação, quais articulações envolveram Nikolas e os 128 parlamentares que tomaram a mesma posição e houve pedidos, relações políticas ou interesses específicos que influenciaram seu voto? Como esse episódio se relaciona com o voto posterior de Nikolas pela PEC da Blindagem, que também ampliaria o poder do Congresso para impedir processos criminais contra parlamentares?

Primo de Nikolas foi preso com 30 kg de maconha; pai teve apoio político do deputado

Em maio de 2025, Glaycon Raniere de Oliveira Fernandes, primo de Nikolas, foi preso na BR-452, em Uberlândia, transportando 30,2 quilos de maconha e 3,82 gramas de cocaína no bagageiro de um carro. Segundo os registros do caso, ele seguia em direção a Nova Serrana e a prisão em flagrante foi convertida em preventiva.

Glaycon é filho de Enéas Fernandes, tio de Nikolas e candidato do PL à Prefeitura de Nova Serrana em 2024. Nikolas participou da campanha do tio e anunciou, ao lado dele, R$ 1,5 milhão em emendas parlamentares para o município, sendo R$ 1 milhão para saúde e R$ 500 mil para pavimentação.

Em outubro de 2025, tornou-se público que o Ministério Público havia pedido a revogação da prisão preventiva de Glaycon após uma falha administrativa na realização de audiência, na qual duas testemunhas policiais não foram devidamente intimadas. A medida dizia respeito à custódia cautelar e ao andamento do processo.

Que relações políticas e administrativas Nikolas manteve com o núcleo familiar de Nova Serrana durante a campanha do tio? Como foram definidas as emendas de R$ 1,5 milhão anunciadas ao lado de Enéas Fernandes, quem participou dessas decisões e houve alguma atuação do deputado ou de pessoas ligadas a ele posteriormente no caso envolvendo Glaycon?

Vorcaro disse ter bancado voos de Nikolas, que depois lhe pediu ajuda para assessor

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro abriram outra frente envolvendo diretamente Nikolas. Durante a campanha presidencial de 2022, o deputado utilizou aeronave ligada ao empresário em deslocamentos políticos. Em uma conversa posterior, Vorcaro registrou por escrito: “Esse Nikolas, eu banquei todos os voos dele.”

Os contatos continuaram. Em áudio de 30 de março de 2025, Nikolas procurou Vorcaro para pedir ajuda em favor de Thiago Rodrigues de Faria, que ainda era assessor de seu gabinete naquele momento. O assunto era a liberação de um ativo minerário que, segundo Nikolas, já havia passado por análise técnica e permanecia pendente em uma empresa relacionada ao banqueiro. Depois do pedido, o deputado encaminhou o contato de Faria a Vorcaro.

A negociação associada a Faria era estimada entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões. Segundo informações do inquérito reproduzidas em reportagens, o negócio previa comissão global de 20% para intermediários; o escritório de Faria teria direito a 25% dessa comissão. No teto de US$ 45 milhões, sua parcela poderia chegar a US$ 2,25 milhões, aproximadamente R$ 11,5 milhões na conversão utilizada pela reportagem.

A proximidade passou a ser objeto de pedido de investigação no Congresso. Em setembro de 2026, a deputada Sâmia Bomfim solicitou ao ministro André Mendonça que fossem apurados possíveis vínculos entre Nikolas e Vorcaro, com identificação do ativo minerário, de seus beneficiários e das comunicações entre os envolvidos. O pedido também mencionou a afirmação de Vorcaro sobre os voos e relações de Thiago Faria com pessoas e empresas posteriormente investigadas na Operação Rejeito.

As mensagens ganharam ainda outro desdobramento: depois da divulgação dos áudios, Nikolas compartilhou nas redes uma imagem que atribuía falsamente à Polícia Federal um relatório segundo o qual não teriam sido encontrados indícios ilícitos nas conversas com Vorcaro. O Projeto Comprova verificou que o documento era falso e que a PF confirmou não tê-lo produzido; dias depois, o TRE-MG determinou que Meta e X preservassem os dados das postagens para evitar perda de provas digitais.

Qual foi a extensão financeira da relação entre Nikolas e Daniel Vorcaro? Quais voos Vorcaro pagou para o deputado, quanto custaram, quem solicitou o custeio e por que o empresário assumiu essas despesas? Houve outros pagamentos, serviços, viagens ou vantagens envolvendo Nikolas? Qual era o ativo minerário ligado à negociação estimada entre US$ 30 milhões e US$ 45 milhões sobre o qual o deputado pediu ajuda, quem seria beneficiado por sua liberação e houve alguma contrapartida ou interesse relacionado ao pedido feito por Nikolas a Vorcaro?

Mais de 10 mil% em quatro anos

Entre 2022 e 2026, o patrimônio declarado por Nikolas passou de R$ 36.820,46 para R$ 3.898.456,67, quase 106 vezes o valor inicial, enquanto suas remunerações fixas mensais ordinárias desde a posse até junho de 2026 somaram aproximadamente R$ 1,81 milhão brutos.

Nos mesmos quatro anos, Nikolas protagonizou ou participou de episódios que abriram perguntas específicas sobre suas relações políticas e econômicas: a campanha contra a fiscalização das fintechs posteriormente relacionada pela Receita ao benefício obtido pelo crime organizado, os votos pela PEC da Blindagem e pelo voto secreto, o voto contra a manutenção da prisão de Chiquinho Brazão e os contatos com Daniel Vorcaro, que afirmou ter bancado seus voos e recebeu do deputado um pedido relacionado a uma negociação minerária milionária.

As perguntas finais permanecem centradas em Nikolas: quais pagamentos, negócios, benefícios e relações econômicas envolveram o deputado durante os quatro anos em que seu patrimônio declarado cresceu mais de 10 mil%? Quanto foi pago por terceiros em despesas de Nikolas? Que vínculos financeiros o deputado manteve com empresários, empresas ou grupos alcançados por controvérsias e investigações? E existe alguma conexão financeira verificável entre essas relações e a formação do patrimônio declarado em 2026?

FONTES

Justiça Eleitoral — dados de candidatura reproduzidos pela Folha de S.Paulo: patrimônio declarado por Nikolas Ferreira nas eleições de 2022 e 2026.

Câmara dos Deputados: remuneração oficial de Nikolas Ferreira em 2023, 2024, 2025 e 2026 e registros nominais de suas votações.

Receita Federal e Ministério da Fazenda: regras da e-Financeira, limites de R$ 5 mil e R$ 15 mil e manifestações sobre a campanha de desinformação e fiscalização das fintechs.

Aos Fatos e Folha de S.Paulo: repercussão e conteúdo do vídeo de Nikolas sobre a fiscalização financeira e sua relação com a desinformação sobre o Pix.

Senado Federal e Câmara dos Deputados: conteúdo da PEC 3/2021, votação e rejeição da proposta.

Câmara dos Deputados: votação sobre a manutenção da prisão de Chiquinho Brazão.

UOL e CNN Brasil: prisão de Glaycon Raniere de Oliveira Fernandes, primo de Nikolas.

Intercept Brasil: emendas de Nikolas destinadas a Nova Serrana e apoio político a Enéas Fernandes.

Agência Brasil, Folha de S.Paulo e reportagens baseadas no inquérito da Operação Rejeito: voos, mensagens, pedido de Nikolas a Daniel Vorcaro e valores associados à negociação minerária.

GARTO: publicação no Instagram utilizada como uma das fontes da reportagem.

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