Novo processo federal se soma a um histórico que atravessa os oito anos de orlando morando na Prefeitura de São Bernardo, operações da Polícia Federal e do Gaeco, denúncias contra integrantes de seu primeiro escalão, decisões do Tribunal de Contas, oito pedidos de impeachment, denúncias de violações de direitos humanos e sua passagem pela Secretaria de Segurança Urbana de São Paulo. Morando disputa em 2026 uma vaga de deputado federal pelo MDB.
orlando morando voltou ao centro de um processo relacionado às investigações que atingiram sua administração em São Bernardo do Campo. Segundo registros processuais públicos do Tribunal Regional Federal da 3ª Região sistematizados pelo Escavador, o Ministério Público Federal move uma ação de improbidade administrativa contra o ex-prefeito e outras pessoas ligadas ao núcleo investigado nos contratos de alimentação pública. Morando aparece no polo passivo da ação, que tramita na Justiça Federal de São Bernardo e registrou novas movimentações em setembro de 2026.
O novo processo surge justamente quando Morando tenta retornar ao Legislativo. Depois de governar São Bernardo entre 2017 e 2024 e comandar a Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São Paulo entre 2025 e março de 2026, ele se filiou ao MDB e teve sua candidatura a deputado federal deferida pelo TRE-SP em 1º de setembro. O pedido de registro, de número 0600702-54.2026.6.26.0000, chegou a receber impugnação do PSOL, mas foi deferido pela Justiça Eleitoral.
O processo federal de 2026 não aparece isolado na trajetória do ex-prefeito. Documentos da Polícia Federal, Ministério Público Federal, Ministério Público de São Paulo, Tribunal de Contas, Justiça Eleitoral, Conselho Nacional dos Direitos Humanos e decisões judiciais, além de denúncias formalizadas por organizações sociais, registram uma sucessão de episódios que começou ainda no primeiro ano do governo Morando e atravessou diferentes áreas da administração municipal.
A denúncia que antecedeu a Operação Prato Feito
Segundo uma transcrição oficial da Câmara Municipal de São Bernardo e documentos posteriores do Ministério Público, questionamentos sobre contratos emergenciais de alimentação já circulavam em 2017, meses depois da posse de Morando. O munícipe Rogério e Silva levou acusações relativas aos contratos de alimentação ao Ministério Público estadual e ao Ministério Público Federal. No MPSP, o caso recebeu o número 38.0531.0000283/2017-7. A Promotoria determinou o arquivamento daquela notícia de fato estadual. A apuração federal, entretanto, prosseguiu e seria incorporada ao conjunto de investigações que resultou na Operação Prato Feito.
A Polícia Federal deflagrou a Prato Feito em 2018 para investigar suspeitas envolvendo contratos públicos de alimentação em diversos municípios. Em setembro de 2019, segundo a CBN e outros veículos que tiveram acesso ao inquérito, a PF indiciou orlando morando e outras pessoas por suspeitas de corrupção passiva e fraude em licitações relacionadas aos contratos de alimentação de escolas e unidades de saúde de São Bernardo.
Em junho de 2020, o Ministério Público Federal apresentou denúncia contra Morando e outras pessoas. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, que reproduziu elementos da acusação da Procuradoria, o MPF sustentou que Morando teria recebido vantagem indevida em troca de favorecimento em licitações realizadas em 2017 e 2018. A denúncia mencionava anotações de R$ 600 mil vinculadas aos codinomes “peixe” e “peixinho”, que a Polícia Federal relacionou ao então prefeito. Morando negou as acusações.
A dimensão financeira daquele episódio exige precisão. Os valores dos contratos de alimentação investigados não correspondem automaticamente ao valor apontado como vantagem indevida na denúncia contra Morando. Nos documentos e reportagens sobre a acusação criminal, o valor especificamente associado ao então prefeito era de R$ 600 mil, enquanto os contratos examinados pela investigação alcançavam cifras muito superiores.
O processo criminal chegou ao TRF-3. Reportagens do Diário do Grande ABC passaram a registrar Morando como réu na Operação Prato Feito. A ação federal foi identificada em decisões judiciais como 5005038-82.2020.4.03.0000. Posteriormente, a Justiça Federal reconheceu conexão das acusações com matéria eleitoral e determinou o deslocamento de parte do caso para a Justiça Eleitoral.
Saiba mais: Folha de S.Paulo, denúncia do MPF e os R$ 600 mil associados aos codinomes “peixe” e “peixinho”
Gaeco também investigou Morando por corrupção passiva e lavagem de dinheiro
Em outra frente, o Diário do Grande ABC publicou em agosto de 2020 trechos de um Procedimento Investigatório Criminal do Gaeco instaurado em 29 de agosto de 2018. Segundo o jornal, o procedimento investigava orlando morando sob suspeitas de corrupção passiva, ocultação e lavagem de dinheiro e nasceu de informações encontradas na Operação Barbatanas.
De acordo com o PIC reproduzido pelo jornal, interceptações envolvendo o então secretário municipal de Gestão Ambiental mencionavam conversas sobre doações eleitorais, possíveis benefícios decorrentes da vitória de Morando e referências a formas de “esquentar” dinheiro. A investigação também passou a analisar transações imobiliárias relacionadas ao patrimônio do então prefeito. Morando negou irregularidades.
A investigação patrimonial gerou ainda questionamentos públicos sobre operações imobiliárias envolvendo empresas ligadas ao prefeito e representações encaminhadas a órgãos de controle.
Saiba mais: Diário do Grande ABC, “Gaeco investiga Morando por lavagem de dinheiro”
Barbatanas atingiu o primeiro escalão e terminou em condenação de secretário
A Operação Barbatanas foi deflagrada pelo Gaeco em outubro de 2017 e atingiu diretamente a Secretaria Municipal de Gestão Ambiental do governo Morando. O então secretário Mário de Abreu, nomeado pelo prefeito, foi acusado pelo Ministério Público de participar de esquema envolvendo venda de licenças ambientais, cancelamento de multas, comercialização de cargos e servidores fantasmas.
Segundo o Diário do Grande ABC, Mário de Abreu foi posteriormente condenado a 15 anos de prisão em um dos processos originados pela operação. As investigações da Barbatanas também forneceram elementos para a abertura da investigação patrimonial sobre o próprio Morando. O ex-secretário negou as acusações durante a tramitação dos processos.
Operação Lix chegou ao vice-prefeito e secretário de Serviços Urbanos
Outro integrante central do governo Morando foi atingido pela chamada Operação Lix. Segundo o Ministério Público e reportagens do Diário do Grande ABC, a investigação tratou da ruptura de contrato de resíduos sólidos e da posterior contratação emergencial, sem licitação, de uma nova empresa para executar os serviços.
O principal agente político atingido foi Marcelo Lima, então vice-prefeito de Morando e secretário municipal de Serviços Urbanos. Em outubro de 2021, a Justiça recebeu denúncia do Gaeco e determinou o afastamento de Lima do comando da secretaria. Segundo a acusação, a situação emergencial utilizada para justificar a contratação teria sido produzida artificialmente e o episódio teria causado prejuízo aos cofres públicos. O caso era dirigido contra o vice-prefeito e outros investigados, e não contra orlando morando.
Operação Hefesto atingiu a Secretaria de Habitação
Em setembro de 2020, o Gaeco deflagrou a Operação Hefesto e realizou buscas na Secretaria Municipal de Habitação. Segundo o Ministério Público, conforme noticiado pelo Diário do Grande ABC, a investigação tratava de possíveis fraudes e superfaturamento na execução de contratos de obras de contenção de encostas.
O episódio acrescentou a Habitação à lista de áreas da Prefeitura atingidas por operações durante a gestão Morando. A operação foi dirigida a fatos ocorridos dentro da secretaria e não há, na documentação pública citada, acusação pessoal contra Morando nesse caso específico.
Saiba mais: Diário do Grande ABC, Operação Hefesto
Um governo que o próprio Diário chamou de “o mais investigado do Grande ABC”
Em julho de 2022, o Diário do Grande ABC publicou reportagem intitulada “orlando morando tem o governo mais investigado do Grande ABC”. O jornal reuniu Prato Feito, Barbatanas, Operação Lix e outros procedimentos que atingiram o prefeito, secretários e o vice-prefeito.
A reportagem também citou integrantes da administração que respondiam a processos relacionados a funções públicas anteriores. Esses episódios não significam acusações contra Morando, mas compunham o quadro político-administrativo descrito pelo jornal sobre pessoas escolhidas para cargos de primeiro escalão.
Saiba mais: Diário do Grande ABC, “orlando morando tem o governo mais investigado do Grande ABC”
Fundação do ABC: R$ 178,7 milhões e decisão do Tribunal de Contas
No Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, orlando morando aparece formalmente entre os responsáveis no processo TC-007605/026/18, referente à prestação de contas de recursos repassados pela Prefeitura à Fundação do ABC em 2017.
O valor analisado pelo TCE foi de R$ 178.769.277,99. A Segunda Câmara havia julgado irregular a prestação de contas. O processo chegou ao Pleno em recurso e identifica Morando, o então vice-prefeito, o secretário municipal de Saúde e dirigentes da Fundação entre os responsáveis.
Saiba mais: TCE-SP, processo TC-007605/026/18
Vera Cruz: concessão de R$ 158 milhões considerada irregular
Outro processo oficial do TCE trata do Complexo Cinematográfico Vera Cruz. A concessão tinha valor de R$ 158.324.287 e tinha orlando morando entre os responsáveis.
Segundo o TCE-SP, a Primeira Câmara julgou irregulares a concorrência, o termo de concessão e a execução contratual. Morando e outros responsáveis recorreram. Em 15 de março de 2023, o Tribunal Pleno conheceu o recurso e negou provimento, mantendo a decisão.
Saiba mais: TCE-SP, julgamento do Complexo Vera Cruz
Desapropriações: representação procedente e recurso de Morando rejeitado
No processo TC-010402.989.18-0, o então vereador Júlio Fuzari apresentou ao TCE representação sobre possíveis irregularidades em avaliações e pagamentos de desapropriações relacionadas ao Decreto Municipal nº 19.054/2014.
A Primeira Câmara julgou a representação procedente. Morando recorreu no processo TC-001190.989.23-6. Em 5 de abril de 2023, o Tribunal Pleno analisou o recurso e manteve a decisão desfavorável.
Saiba mais: TCE-SP, TC-001190.989.23-6 e TC-010402.989.18-0
Ponto Bom: empresa ligada a Morando entrou na mira do MPF
Uma das desapropriações mais conhecidas envolveu a Ponto Bom Participações, empresa da qual Morando era sócio. Em 2017, a revista Época informou que a empresa havia recebido da Prefeitura pouco mais de R$ 1 milhão pela desapropriação de parte de um imóvel, pagamento efetuado quatro dias antes da posse de Morando. O ex-prefeito afirmou na ocasião que o acordo havia sido celebrado meses antes, durante a administração anterior, e que o valor era compatível com as demais desapropriações do corredor viário.
O Ministério Público Federal abriu o Procedimento Preparatório 1.34.011.000440/2017-51, originado de representação que questionava possível supervalorização da indenização. O caso passou por análise de documentos e dados relacionados à desapropriação.
No MPSP também aparece o procedimento 14.0167.0003452/2017-6, com orlando morando, Júlio Fuzari e Ponto Bom entre os interessados, classificado na área de improbidade administrativa e violação aos princípios da administração pública.
Publicidade: Max Offices e sucessivas prorrogações
O TCE também julgou irregulares contratos da Prefeitura com a agência de publicidade Max Offices. Segundo o Diário do Grande ABC, o contrato original havia sido celebrado em 2016, ainda na administração anterior, mas recebeu sete prorrogações durante o governo Morando.
De acordo com a reportagem, a empresa recebeu aproximadamente R$ 48 milhões no período analisado. O TCE apontou problemas relacionados aos critérios utilizados na contratação e nos instrumentos subsequentes.
Saiba mais: Diário do Grande ABC, decisões do TCE sobre a Max Offices
Ventiladores: decisão desfavorável foi revertida no próprio TCE
Na pandemia, o TCE julgou inicialmente irregulares a licitação e o contrato para compra de três ventiladores pulmonares por R$ 343,5 mil e aplicou multa de 160 Ufesp a orlando morando.
Os recursos foram registrados como TC-019478.989.22-1 e TC-019575.989.22-3, referentes ao TC-013191.989.20-1. Em 30 de maio de 2023, a Segunda Câmara do TCE deu provimento aos recursos, revertendo a decisão anterior.
Saiba mais: TCE-SP, recursos sobre a compra dos ventiladores
SBC Luz: contrato de R$ 236 milhões também passou pelo TCE
O contrato do Consórcio SBC Luz, de R$ 236.774.364,71, foi julgado irregular pela Primeira Câmara do Tribunal de Contas em 2025, com aplicação de multa de 400 Ufesp aos responsáveis, entre eles orlando morando.
O processo principal é o TC-021102.989.22-5, com recursos posteriores no Pleno. Os recursos foram levados ao Tribunal e a decisão inicial acabou posteriormente revertida, com cancelamento das multas e da remessa do caso ao Ministério Público.
Ecovias: delação falou em R$ 200 mil de caixa dois e investigação foi arquivada
Antes da Prefeitura, Morando também apareceu em delação relacionada à Ecovias. Segundo a Folha de S.Paulo, um delator declarou ter entregue R$ 200 mil não contabilizados à campanha de Morando para deputado estadual em 2014.
O caso foi remetido à Justiça Eleitoral. A investigação de número 0600204-31.2021.6.26.0000 acabou arquivada por ausência de justa causa e de elementos probatórios suficientes, segundo a decisão divulgada posteriormente.
A denúncia de racismo institucional chegou ao Ministério Público e à ONU
O eixo de direitos humanos da gestão Morando ganhou dimensão nacional e internacional. Em 25 de maio de 2022, Uneafro Brasil, Instituto Peregum, Movimento Negro Unificado e Projeto Meninos e Meninas de Rua apresentaram ao Ministério Público paulista uma denúncia de 28 páginas intitulada “Denúncia de possíveis irregularidades cometidas pela Prefeitura de São Bernardo do Campo, motivadas por discriminação racial”.
Logo nas primeiras páginas, as organizações afirmam que procuravam o Ministério Público para apurar atos e omissões da Prefeitura que, segundo elas, estariam marcados por racismo institucional e contribuiriam para ampliar desigualdades e marginalização da população negra de São Bernardo. O documento também relaciona essas acusações ao conceito mais amplo de racismo estrutural.
O texto entregue ao Ministério Público apontou, entre outros temas, ausência de produção adequada de dados municipais com recorte racial, inexistência naquele momento de Fundo Municipal de Combate ao Racismo, Plano Municipal de Combate ao Racismo, Conselho de Promoção da Igualdade Racial, Centro de Referência e secretaria específica para a área. Também questionou a ausência de cotas raciais no serviço público municipal, políticas educacionais, ações culturais, políticas de segurança, moradia, atendimento a mulheres, direitos de crianças e adolescentes e liberdade religiosa.
Em 2023, representantes das organizações levaram as denúncias ao Fórum Permanente sobre Afrodescendentes das Nações Unidas. Em janeiro de 2025, o UOL confirmou que a gestão Morando havia sido denunciada no MPSP em 2022 e no fórum da ONU em 2023 por racismo institucional. Morando negou as acusações.
Projeto Meninos e Meninas de Rua virou símbolo do conflito
O Projeto Meninos e Meninas de Rua aparece como um dos principais elementos das denúncias dos movimentos. A entidade atua há décadas em São Bernardo com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e utiliza desde os anos 1980/1990 imóvel municipal na Rua Jurubatuba.
Em julho de 2020, durante a pandemia, o PMMR recebeu ordem para desocupação da sede. Reportagem da Agência Mural registrou que a organização conseguiu decisão judicial que permitiu sua permanência temporária. Uma mobilização nacional foi iniciada e, segundo a própria campanha do projeto, um abaixo-assinado reuniu milhares de assinaturas em poucos dias.
Em outubro de 2021, o projeto voltou a receber notificação para deixar o imóvel. O Diário do Grande ABC registrou que a ordem decorria de decisão da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo. No mês seguinte, o TJ-SP suspendeu a desocupação após recurso apresentado com participação da Defensoria Pública.
O conflito chegou ao Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Na Recomendação nº 12, de 2 de agosto de 2023, processo SEI 00135.218869/2023-88, o CNDH recomendou expressamente à Prefeitura de São Bernardo e ao Governo de São Paulo a adoção de medidas para garantir o funcionamento do Projeto Meninos e Meninas de Rua.
Saiba mais: Conselho Nacional dos Direitos Humanos, Recomendação nº 12/2023
Fundação Criança: lei de Morando foi declarada inconstitucional
A política municipal para a infância sofreu outro conflito com a extinção da Fundação Criança de São Bernardo do Campo.
A Lei Municipal 6.940/2020, apresentada pela administração Morando, autorizou o encerramento da Fundação e a transferência dos serviços para a estrutura direta da Prefeitura. Em junho de 2022, o Diário do Grande ABC informou que os 22 desembargadores da Câmara Especial do TJ-SP, por unanimidade, consideraram inconstitucional a lei de autoria de Morando.
A decisão judicial foi fundamentada em vícios formais no processo legislativo. O conflito sobre a Fundação Criança passou a aparecer também nas denúncias dos movimentos negros e das organizações de direitos da infância contra a gestão municipal.
Saiba mais: Diário do Grande ABC, decisão do TJ-SP sobre a Fundação Criança
PEAT, Gibiteca e outras políticas para crianças e adolescentes
Entre os pontos levantados por entidades ligadas aos direitos da infância aparece também o encerramento do PEAT, Programa de Educação do Adolescente para o Trabalho, política municipal criada antes da gestão Morando. O programa foi instituído pela Lei Municipal 5.311/2004 e regulamentado posteriormente. Em 2025, indicação apresentada na Câmara de São Bernardo pediu formalmente sua retomada, mencionando o encerramento da política nos anos anteriores.
A denúncia de racismo institucional apresentada ao MPSP também tratou da Gibiteca Municipal, inclusive do atendimento realizado a crianças e adolescentes e das mudanças de espaço, além de questionar quais alternativas foram ofertadas aos adolescentes ligados a serviços socioeducativos.
Os 51 pontos que movimentos passaram a associar ao racismo institucional
As denúncias de 2022 e a mobilização em torno do PMMR deram origem a sistematizações maiores. Em janeiro de 2025, o portal ABC da Luta publicou uma lista de 40 pontos atribuídos aos movimentos. Em setembro do mesmo ano, o mesmo veículo publicou uma versão ampliada intitulada “Os 51 pontos do Racismo Institucional do ex-prefeito de São Bernardo do Campo, orlando morando”. Esses 51 itens são acusações e avaliações dos movimentos e da publicação, e não decisões judiciais.
Na área cultural, a lista cita a retirada da Casa do Hip Hop do imóvel que ocupava e a instalação de estrutura da GCM no local; o fim do Carnaval municipal; dificuldades atribuídas ao governo para a realização do Bloco EURECA, ligado ao PMMR; eventos oficiais realizados em 20 de novembro de 2021 e 2022 que, segundo os autores, não priorizaram a agenda da Consciência Negra; demolição ou retirada de estruturas de teatros de CEUs periféricos; alegada subutilização do teatro do CEU Vila São Pedro; fechamento da Escola Livre de Artes Cênicas e Dança; conflitos envolvendo a Batalha da Matrix; multas aplicadas a organizador do evento; mudanças no programa CAPS/Pinacoteca; declarações de Morando após a tragédia de Paraisópolis; alterações em salas multiuso de equipamentos culturais e questionamentos sobre utilização de recursos da Lei Paulo Gustavo.
Na educação e na política de memória, a lista dos movimentos aponta mudanças na Biblioteca Infantil, fechamento ou mudança das bibliotecas de Rudge Ramos e Baeta Neves, período de fechamento da Biblioteca Central, redução de horários, fim da abertura dominical, transformação de sala multiuso da Biblioteca de Arte em espaço administrativo, incentivo ao ensino de língua italiana, retirada das oficinas de capoeira e percussão e questionamentos sobre a aplicação das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tratam da história e cultura afro-brasileira e indígena.
No campo dos direitos sociais, os 51 pontos citam a Fundação Criança, a disputa envolvendo o terreiro de matriz africana, as diferentes tentativas de retirada do PMMR de sua sede, um grupo de Alcoólicos Anônimos, a Gibiteca, políticas para a população em situação de rua, a Casa Abrigo Regional para mulheres vítimas de violência e a situação de comunidade indígena existente no município.
Na segurança pública e na política racial, a sistematização dos movimentos lembra a situação do feriado de 20 de novembro em 2017, a demora para preenchimento da estrutura municipal de igualdade racial, denúncia envolvendo servidor da GCM acusado de postagens neonazistas e supremacistas e um caso de discriminação contra uma guarda municipal negra relatado por ativistas. Na moradia e no território, a lista menciona demolições de casas nas periferias durante a pandemia, retirada de gratuidade e redução de itinerário de linha de ônibus, mudanças de prédios de secretarias, utilização administrativa de espaços culturais e notificações de remoção de famílias que movimentos afirmavam não morar em áreas de risco.
Batalha da Matrix já registrava denúncias desde 2017
O conflito entre a Prefeitura e a Batalha da Matrix, encontro de hip hop e batalhas de rima no Centro de São Bernardo, antecede a denúncia apresentada à ONU.
Pesquisa acadêmica da Universidade de São Paulo sobre a Batalha reproduziu comunicado de 2017 da organização do movimento. Segundo o registro, Morando compareceu ao evento em abril daquele ano e afirmou que respeitaria a atividade. Semanas depois, os organizadores passaram a denunciar abordagens da Guarda Civil Municipal e repressão ao evento.
A Batalha da Matrix foi posteriormente mencionada na denúncia de racismo institucional apresentada ao Ministério Público e nas listas produzidas pelos movimentos.
Casa Neon Cunha levou falta de políticas LGBT+ ao Ministério Público
Em 7 de junho de 2021, a Casa Neon Cunha protocolou denúncia no Ministério Público contra a administração Morando. Segundo o Diário do Grande ABC, a organização acusava a Prefeitura de falta de políticas públicas para a população LGBT+ e ausência de diálogo institucional, inclusive diante das necessidades ampliadas pela pandemia.
Segundo a entidade, um levantamento de demandas havia sido encaminhado à administração municipal com propostas de medidas direcionadas à população LGBT+, sem a resposta que a organização considerava necessária.
Saiba mais: Diário do Grande ABC, denúncia da Casa Neon Cunha
Hospital da Mulher levou Tribunal de Contas a cobrar explicações
Em 2024, denúncias envolvendo atendimento no Hospital da Mulher de São Bernardo chegaram ao Tribunal de Contas.
Em 22 de abril daquele ano, o TCE-SP anunciou oficialmente que havia notificado a Prefeitura e a Fundação do ABC para explicarem três episódios envolvendo possíveis falhas em procedimentos médicos. Entre os casos citados pelo Tribunal estavam o de uma paciente que permaneceu com gaze no corpo após o parto, a morte de uma mulher depois de uma cesárea de emergência e a morte de um bebê após outro procedimento obstétrico. O processo relacionado ao contrato de gestão do hospital é o TC-006816.989.23-0.
As denúncias também chegaram à Câmara Municipal. Em julho de 2024, foram incorporadas a um novo pedido de impeachment contra Morando, ao lado das acusações da Operação Prato Feito.
Saiba mais: TCE-SP, apuração envolvendo o Hospital da Mulher
Oito pedidos de impeachment durante os oito anos de governo
O histórico político da administração também inclui oito pedidos de impeachment.
Em 2019, a Câmara analisou pedidos relacionados às suspeitas da Operação Prato Feito, contratos de alimentação e problemas envolvendo integrantes da administração. Em 25 de setembro, dois pedidos foram rejeitados por 18 votos contra a admissibilidade, seis votos favoráveis e uma abstenção. Um deles havia sido apresentado por Leandro Altrão; outro por Ricardo Garcia, Wilson Machado e Silmara Pompollo. Um terceiro grupo protocolou outra denúncia na sequência.
Em 2020, outro pedido chegou à Câmara em meio às discussões sobre o Hospital de Urgência.
Em julho de 2024, um novo pedido de iniciativa popular reuniu a Operação Prato Feito e as denúncias do Hospital da Mulher. A autora alegava infrações político-administrativas e pedia a perda do mandato. Morando afirmou ao Diário que confiava na Justiça e que os temas já haviam sido tratados pela administração.
O sétimo pedido, protocolado em setembro de 2024, questionou a venda de imóveis públicos, incluindo a área onde estavam estruturas municipais e o instituto de Previdência dos servidores. O imóvel foi estimado em aproximadamente R$ 159,9 milhões. A Câmara rejeitou a abertura da investigação por 21 votos a 3.
O oitavo pedido acusou Morando de misoginia por uma fala de 2021 em que chamou de “vaca” uma jovem que participara de uma festa clandestina durante a pandemia. A Câmara rejeitou a abertura do processo por 21 votos a 2 em outubro de 2024.
Judicialização da imprensa colocou Morando em ranking nacional da Abraji
A relação do ex-prefeito com jornalistas também se transformou em objeto de monitoramento nacional.
Em outubro de 2020, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, Abraji, informou que havia identificado 30 ações judiciais movidas por Morando relacionadas à retirada de conteúdo ou a crimes contra a honra, a maior parte contra adversários políticos. Naquele momento, a entidade contabilizava ações contra o Diário do Grande ABC, jornalistas do veículo e o portal ABCD Maior. Morando declarou por meio de sua assessoria que as medidas não tinham intenção de censura e que buscavam proteger sua honra diante de acusações que considerava infundadas.
No Monitor de Assédio Judicial Contra Jornalistas, lançado posteriormente pela Abraji, orlando morando aparece com oito processos classificados pela entidade como assédio judicial, número que o colocou entre os autores mais recorrentes desse tipo de ação no levantamento nacional.
Um dos processos relacionados à denúncia de racismo institucional foi movido por Morando contra dirigentes do PMMR e da Uneafro depois das acusações levadas à ONU. Em 2024, o Diário do Grande ABC informou que Morando perdeu a ação contra os dois ativistas.
Saiba mais: Monitor da Abraji, processos associados a orlando morando
Justiça Eleitoral: acusações, derrotas e decisões favoráveis
Morando também aparece em uma sequência de processos eleitorais.
Nas eleições de 2016, adversários ajuizaram a ação 0000033-62.2016.6.26.0174, acusando Morando e outros de abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação por participação em propaganda partidária. O pedido foi julgado improcedente e a decisão permaneceu favorável a Morando nas instâncias posteriores.
Na eleição de 2020, PT e coligação adversária apresentaram a ação 0600976-88.2020.6.26.0174, alegando abuso de poder político, uso indevido dos meios de comunicação e condutas vedadas relacionadas à publicidade institucional. O TRE-SP rejeitou a cassação por 5 votos a 2. Em 31 de agosto de 2026, o ministro Floriano de Azevedo Marques, do TSE, negou seguimento ao agravo apresentado pelos autores e manteve o resultado favorável a Morando.
Na eleição municipal de 2024, porém, houve decisão desfavorável. No processo 0600339-59.2024.6.26.0284, o TRE-SP aplicou multa de R$ 5.320,50 a orlando morando pela utilização do gabinete da Prefeitura em episódio de campanha do candidato Marcelo Lima. O Tribunal afirmou que a visita ao gabinete e a divulgação das imagens favoreceram a campanha. O TRE afastou a cassação dos eleitos, mas aplicou multa de igual valor a Morando e aos demais responsáveis.
Outra ação referente à eleição de 2024, de número 0600318-25.2024.6.26.0174, passou a tramitar no TRE-SP com orlando morando e Flávia Morando no polo recorrido e assunto “abuso de poder político/autoridade”. O processo constou da pauta de julgamento do Tribunal em 21 de julho de 2026.
Na disputa de 2026, Morando também foi alvo de impugnação ao registro de candidatura pelo PSOL. O processo é 0600702-54.2026.6.26.0000. O TRE-SP deferiu a candidatura em 1º de setembro.
A passagem pela Segurança Urbana abriu outro capítulo
Morando assumiu a Secretaria Municipal de Segurança Urbana de São Paulo no início de 2025. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele próprio afirmou que nunca havia trabalhado anteriormente com forças de segurança.
Logo nas primeiras semanas, uma declaração durante a formatura de 500 guardas civis provocou repercussão nacional. Morando disse aos novos agentes que, em caso de confronto, deveria “chorar a mãe do criminoso”, acrescentando em seguida que os guardas não deveriam agir acima da lei.
Ministério Público cobrou explicações sobre câmeras corporais
Em fevereiro de 2025, o Gaesp, Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público, encaminhou ofício a Morando pedindo explicações sobre declarações em que o secretário rejeitava a adoção de câmeras corporais nos uniformes da Guarda Civil Metropolitana.
Segundo a Folha, o Ministério Público relacionou o questionamento às diretrizes nacionais sobre o uso de câmeras por agentes de segurança. A Secretaria informou que respondeu ao ofício.
Saiba mais: Folha de S.Paulo, cobrança do Ministério Público sobre câmeras corporais
Smart Sampa levou representação ao Ministério Público
O Smart Sampa, sistema de monitoramento e reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo, também entrou na lista de questionamentos durante a gestão de Morando na Segurança Urbana.
Em abril de 2025, mandatos do PSOL protocolaram representação no Ministério Público pedindo investigação sobre possíveis erros de identificação pelo sistema e cobrando publicidade sobre abordagens equivocadas. A Prefeitura defendia o programa e afirmava utilizar diferentes níveis de validação antes da abordagem pela Guarda.
Em relatório oficial divulgado em junho de 2025, a própria Prefeitura informou que 82 pessoas foram abordadas, levadas a distritos policiais e posteriormente liberadas. Segundo o relatório, 53 liberações decorreram de inconsistências em bases da Justiça, seis de inconsistências cadastrais e 23 ocorreram depois da apresentação de documentos. A administração sustentou que o sistema atingira 99,5% de assertividade e que não havia ocorrido prisão indevida por falha do reconhecimento facial.
Imagens da Cracolândia foram apagadas
Em junho de 2025, outro episódio envolvendo o Smart Sampa chegou ao noticiário. Segundo a Folha de S.Paulo, imagens captadas por câmeras municipais durante o período de esvaziamento da região conhecida como Cracolândia não haviam sido preservadas.
Ricardo Nunes e orlando morando afirmaram que as gravações foram apagadas automaticamente após 30 dias, seguindo protocolo do sistema, e que a ordem judicial para preservação chegou depois do prazo automático.
Saiba mais: Folha de S.Paulo, imagens da Cracolândia apagadas pelo sistema
Há ainda procedimento do MPSP envolvendo Morando na Segurança Urbana
Em publicação oficial do Ministério Público paulista de 2026 aparece o procedimento 43.2618.0000527/2025-5, na área de Patrimônio Público e Social. Entre os interessados estão orlando morando, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, a Guarda Civil Metropolitana e integrantes da administração paulistana.
O extrato público identifica as partes e a área de atuação do Ministério Público, mas não descreve o fato específico tratado nos autos. Por essa razão, o procedimento integra o histórico documental pelo número e pelas pessoas formalmente relacionadas, sem atribuição de uma acusação não descrita no próprio extrato.
Nomeações também provocaram questionamentos judiciais
Em janeiro de 2021, a nomeação do ex-prefeito de Ribeirão Pires Adler Kiko Teixeira para a Secretaria de Administração e Inovação de São Bernardo foi suspensa por decisão judicial.
A ação recebeu o número 1000004-29.2021.8.26.0537. O próprio Diário Oficial de São Bernardo publicou a suspensão dos efeitos da portaria de nomeação em cumprimento à liminar. Dias depois, o TJ-SP permitiu que a nomeação produzisse efeitos enquanto o processo prosseguia.
Em 2026, outra pessoa nomeada e reconduzida durante a gestão Morando, o ex-diretor da Faculdade de Direito de São Bernardo, tornou-se alvo da Operação Cátedra, do Gaeco, em investigação sobre possíveis crimes relacionados a contratos da autarquia. As acusações são dirigidas aos alvos da operação, e não ao ex-prefeito.
A candidatura de 2026 coloca todo esse histórico novamente diante dos eleitores
orlando morando encerrou seu segundo mandato em São Bernardo em dezembro de 2024, assumiu a Segurança Urbana da capital em 2025, deixou o cargo em 2026, filiou-se ao MDB e agora disputa uma vaga de deputado federal.
O TRE-SP deferiu oficialmente sua candidatura, registrada sob o processo 0600702-54.2026.6.26.0000.
É nesse contexto eleitoral que aparece a nova ação federal de improbidade administrativa, novamente relacionada a personagens e empresas do núcleo investigado nos contratos de alimentação pública de São Bernardo. Os registros processuais atuais colocam orlando morando no polo passivo.
Ao mesmo tempo, o histórico dos oito anos de Prefeitura permanece espalhado por inquéritos, denúncias do Ministério Público, decisões do Tribunal de Contas, operações que atingiram secretários e o vice-prefeito, oito pedidos de impeachment, denúncias de movimentos sociais, decisões judiciais sobre políticas de infância, denúncias relacionadas à população negra e LGBT+, questionamentos sobre moradia e cultura, processos eleitorais e episódios de sua passagem pelo comando da segurança paulistana.
Não se trata, portanto, apenas de uma nova ação judicial em 2026. Os documentos públicos permitem reconstruir uma sequência que acompanha orlando morando desde o início de seu governo em São Bernardo e que agora retorna ao debate público no momento em que ele pede novamente o voto dos eleitores para ocupar um cargo no Congresso Nacional.
