Ministro indicado por Jair Bolsonaro recebeu Daniel Vorcaro reservadamente, teve o banqueiro ouvido por seu gabinete sem a presença da PF, afastou o chefe da polícia que prendeu Vorcaro, expôs Alexandre de Moraes enquanto manteve sob sigilo investigação envolvendo Flávio Bolsonaro e enfrenta questionamentos sobre milhões em contratos públicos de empresa que fundou
André Mendonça chegou ao Supremo Tribunal Federal depois de servir ao governo Jair Bolsonaro como advogado-geral da União e ministro da Justiça. Agora, em plena campanha presidencial de 2026, o magistrado está no centro de uma sucessão de fatos que levantam suspeitas sobre imparcialidade, seletividade, conflitos de interesse e uso do poder judicial em decisões com consequências políticas profundas. O que pesa sobre Mendonça não é uma controvérsia isolada, mas o acúmulo de episódios envolvendo personagens diretamente interessados em processos submetidos ao ministro, diferenças de tratamento apontadas pela Polícia Federal, decisões contestadas pela Procuradoria-Geral da República e relações empresariais e familiares que ampliaram os questionamentos sobre sua atuação.
Mendonça recebeu reservadamente Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e personagem central da Operação Compliance Zero. Depois, já no controle de investigações relacionadas ao escândalo, seu gabinete ouviu Vorcaro preso sem a presença da Polícia Federal. O banqueiro tentava construir uma delação e dirigia acusações contra o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Poucos dias depois, Mendonça determinou o afastamento de Andrei, justamente o chefe da instituição que havia prendido Vorcaro e comandava a corporação responsável pela investigação do Master. Essa sequência passou a ocupar o centro da crise porque aproximou o investigado, o ministro responsável por decisões sobre a investigação e o chefe da polícia que conduzia o cerco ao banqueiro.
Ao mesmo tempo, Mendonça retirou o sigilo de informações contra Alexandre de Moraes, principal inimigo do bolsonarismo dentro do Supremo, e as revelações foram imediatamente incorporadas pela direita à campanha presidencial. Enquanto Moraes era exposto, uma investigação sobre dezenas de milhões de reais destinados ao projeto Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que envolve Flávio e Eduardo Bolsonaro, continuou inicialmente sob sigilo. A abertura mais ampla dos documentos ocorreu depois da reação de Moraes, de Cristiano Zanin, da Procuradoria-Geral da República e da intervenção do presidente do STF, Edson Fachin. A sequência alimentou a acusação de que Mendonça utilizou critérios diferentes para tornar públicas informações politicamente explosivas contra Moraes e para preservar, naquele primeiro momento, material capaz de atingir a família Bolsonaro.
A crise vai além do Master. A Polícia Federal registrou que Mendonça levou nove dias para decidir medida contra Jaques Wagner, senador do PT e aliado de Lula, e 75 dias em procedimento envolvendo Cláudio Castro, político do PL. Mensagens revelaram ainda que Castro procurou diretamente Mendonça para tratar do processo de Sérgio Cabral quando o caso estava sob análise do ministro. Em outro núcleo, o irmão de Mendonça ocupava função na SP Regula durante julgamento no Supremo sobre o setor funerário regulado pela agência. E uma empresa fundada pelo próprio ministro conseguiu milhões de reais em contratos com órgãos públicos sem licitação. É a soma dessas situações, e a comparação entre o tratamento dispensado a personagens de campos políticos distintos, que coloca a atuação de André Mendonça sob crescente questionamento.
Vorcaro teve encontro reservado com André Mendonça
André Mendonça recebeu Daniel Vorcaro reservadamente em março de 2025, na sede do Instituto Iter, empresa fundada pelo próprio ministro. A aproximação foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo, segundo mensagens posteriormente reveladas pela imprensa. Mendonça confirmou que recebeu o banqueiro e afirmou que a conversa tratou de precatórios. O encontro, entretanto, ganhou outra dimensão quando Vorcaro se tornou o centro de uma investigação bilionária sobre o Banco Master e Mendonça passou a exercer poderes decisivos sobre processos relacionados ao empresário.
A relação passou a levantar questionamentos sobre a proximidade entre o magistrado e um personagem diretamente alcançado por investigações submetidas à sua jurisdição. O juiz que passou a controlar decisões capazes de interferir no destino de Vorcaro já havia mantido com ele um encontro reservado, realizado numa empresa fundada pelo próprio Mendonça. O episódio se tornou ainda mais sensível quando novas decisões tomadas no âmbito do gabinete começaram a atingir diretamente a Polícia Federal responsável pelas investigações do Master.
Preso, Vorcaro foi ouvido pelo gabinete de Mendonça sem a presença da Polícia Federal
Em agosto de 2026, Daniel Vorcaro, já preso, foi ouvido por um juiz auxiliar do gabinete de André Mendonça sem a presença da Polícia Federal responsável pela investigação. O episódio ocorreu enquanto o banqueiro tentava avançar numa colaboração premiada e apresentava acusações contra integrantes do governo Lula e contra Andrei Rodrigues, diretor-geral da própria PF. Politicamente e juridicamente, formou-se uma situação explosiva: o principal investigado do caso Master conseguiu apresentar sua versão e acusações contra o comando da polícia diretamente ao gabinete responsável por decisões sobre a investigação, enquanto os investigadores que conduziam o caso ficaram fora da oitiva.
A gravidade desse episódio aumenta quando se observa o que aconteceu em seguida. Vorcaro transformava Andrei Rodrigues em alvo de suas acusações e, poucos dias depois, André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal. A sequência colocou lado a lado o banqueiro investigado, o ministro responsável por decisões capazes de afetá-lo e o chefe da instituição que o havia prendido. Alexandre de Moraes incluiu a atuação de Mendonça relacionada às tratativas de colaboração premiada entre os pontos levados à Presidência do STF e sustentou que o colega havia ultrapassado os limites da atuação judicial.
Mendonça afastou o chefe da Polícia Federal que comandava a corporação responsável pela prisão de Vorcaro
Andrei Rodrigues comandava a Polícia Federal quando Daniel Vorcaro foi preso, em novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero. A corporação investigava havia meses suspeitas de fabricação e comercialização de carteiras de crédito sem lastro relacionadas ao Banco Master. A operação cresceu, atingiu novos personagens e aprofundou o cerco policial ao grupo de Vorcaro. Era essa Polícia Federal, sob a direção de Andrei, que havia prendido o banqueiro e avançava sobre as operações financeiras relacionadas ao Master.
Depois de Vorcaro ser ouvido pelo gabinete de Mendonça e dirigir acusações contra Andrei, o ministro determinou o afastamento do diretor-geral e do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada. O partido Novo havia pedido inclusive a prisão preventiva de Andrei; Mendonça não decretou a prisão, mas retirou o chefe da Polícia Federal do cargo. A medida atingiu diretamente a cúpula da instituição que investigava o escândalo bancário e desencadeou uma crise entre o gabinete do ministro, a PF, a Advocacia-Geral da União e outros integrantes do Supremo.
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal contestou o procedimento, a AGU reagiu e Flávio Dino adotou decisão que entrou em choque com a de Mendonça. Edson Fachin acabou intervindo, suspendendo decisões conflitantes e levando a disputa para o plenário. A dimensão política do episódio está na cronologia: o chefe da instituição que prendeu Vorcaro e conduzia as investigações do Master foi afastado por Mendonça depois de o próprio banqueiro preso apresentar acusações contra esse mesmo chefe da polícia ao gabinete do ministro.
O apoio a Mendonça veio de Fux e Kassio, ministros cujas famílias também aparecem nas controvérsias do Master
Na Segunda Turma, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam André Mendonça e formaram maioria para manter o afastamento da cúpula da Polícia Federal, antes de Gilmar Mendes pedir vista e interromper a conclusão do julgamento. O placar, porém, ganhou outro significado quando vieram a público questionamentos envolvendo familiares dos próprios ministros que apoiaram Mendonça. A Folha revelou que integrantes do Supremo passaram a discutir a possível suspeição de Fux e Kassio em julgamentos relacionados ao Banco Master justamente por vínculos de pessoas próximas a eles com personagens e negócios do universo investigado.
No caso de Kassio Nunes Marques, reportagens apontaram relações financeiras envolvendo seu filho e estruturas que receberam recursos do Banco Master. No caso de Luiz Fux, o filho Rodrigo Fux apareceu em relações sociais com Daniel Vorcaro. As revelações levaram ministros aliados de Moraes a cogitar questionar formalmente a participação dos dois em julgamentos relacionados ao escândalo. Assim, a maioria formada na Segunda Turma para sustentar a decisão de Mendonça não era composta por magistrados completamente alheios às controvérsias do Master: dois dos votos favoráveis vieram de ministros cujos familiares passaram também a aparecer em questionamentos relacionados ao mesmo universo investigado.
Esse contexto altera a dimensão política daquele apoio. O afastamento da direção da Polícia Federal, instituição responsável por investigar o Master, recebeu sustentação justamente de ministros que depois passaram a enfrentar discussões internas sobre eventual suspeição em processos relacionados ao banco. A crise, portanto, deixou de alcançar apenas Mendonça e passou a expor uma rede de relações familiares, profissionais e sociais envolvendo diferentes gabinetes da Suprema Corte e personagens conectados ao mesmo escândalo financeiro.
A PGR acusa Mendonça de ultrapassar a função de juiz
A Procuradoria-Geral da República entrou diretamente no conflito ao contestar a forma como André Mendonça determinou o aprofundamento de apurações contra Alexandre de Moraes. Paulo Gonet sustentou que o ministro extrapolou sua competência ao determinar que a Polícia Federal investigasse pessoas específicas sem provocação adequada do Ministério Público ou da própria autoridade policial. A manifestação atinge o centro da discussão sobre os limites do poder de Mendonça porque questiona não apenas o resultado de uma decisão, mas a própria posição assumida pelo magistrado dentro da investigação.
No sistema acusatório, polícia, Ministério Público e Judiciário exercem funções distintas. A crítica da PGR é justamente que Mendonça teria ultrapassado a função de julgador ao assumir iniciativa na definição de pessoas e caminhos investigativos. O alvo desse aprofundamento era Alexandre de Moraes, ministro que se tornou o principal adversário institucional da família Bolsonaro. A acusação de seletividade passou, então, a reunir duas dimensões: de um lado, o tratamento diferenciado dado a informações capazes de atingir diferentes personagens políticos; de outro, o questionamento jurídico da própria PGR sobre a atuação investigativa de Mendonça.
Mendonça expôs Alexandre de Moraes e o bolsonarismo levou o caso para a campanha presidencial
Quando André Mendonça retirou o sigilo das informações envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, o material saiu dos autos e entrou imediatamente no centro da campanha presidencial. A direita bolsonarista transformou as revelações em munição contra Moraes, que há anos ocupa a posição de principal adversário judicial da família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro passou a explorar politicamente o escândalo, enquanto outras lideranças da direita intensificaram os ataques ao ministro e apresentaram Mendonça como contraponto positivo dentro do Supremo.
A divulgação, portanto, produziu consequências muito além do processo judicial. Alexandre de Moraes foi colocado no centro de uma tempestade política e as informações abertas por Mendonça passaram a abastecer uma narrativa eleitoral que interessava diretamente ao campo político responsável por sua indicação ao STF. O episódio tornou-se ainda mais explosivo porque, enquanto o material contra Moraes circulava publicamente e alimentava a ofensiva bolsonarista, uma investigação relacionada a Flávio Bolsonaro continuava inicialmente protegida por sigilo.
Mendonça expôs Moraes enquanto manteve escondida a investigação que atingia Flávio Bolsonaro
Enquanto as suspeitas contra Alexandre de Moraes já circulavam nacionalmente, permanecia sob sigilo a investigação de Dark Horse, projeto de filme sobre Jair Bolsonaro financiado com recursos relacionados a Daniel Vorcaro. O caso alcança diretamente Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, e envolve também Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal investiga movimentações de dezenas de milhões de reais destinadas ao projeto, incluindo recursos remetidos para uma estrutura financeira no exterior.
Quando Mendonça tornou públicos inicialmente 15 procedimentos relacionados ao Master, Dark Horse ficou de fora. Na prática, o país teve acesso primeiro ao material que atingia Moraes, enquanto uma investigação capaz de produzir consequências políticas contra Flávio Bolsonaro e o entorno de Jair Bolsonaro permanecia protegida. Moraes acusou Mendonça de fazer uma escolha seletiva dos documentos divulgados, Cristiano Zanin cobrou acesso ao restante do material e a Procuradoria-Geral da República também defendeu que os ministros pudessem consultar integralmente os procedimentos.
Fachin interveio e a abertura foi ampliada. Mendonça posteriormente retirou o sigilo de dezenas de outros procedimentos, incluindo Dark Horse. A cronologia, porém, já havia se transformado em elemento central da acusação de seletividade: o material contra Moraes foi exposto primeiro e imediatamente apropriado pela direita na campanha eleitoral, enquanto o procedimento politicamente explosivo envolvendo Flávio Bolsonaro permaneceu inicialmente fora da divulgação.
A defesa de Flávio tentou levar investigações de Dark Horse para as mãos de Mendonça
Outro elemento aumentou o peso político do caso. A defesa de Flávio Bolsonaro tentou concentrar procedimentos relacionados a Dark Horse sob a relatoria de André Mendonça. Parte das apurações permaneceu com Flávio Dino por envolver suspeitas relacionadas a emendas parlamentares. A movimentação chama atenção porque Mendonça chegou ao Supremo indicado por Jair Bolsonaro e a investigação envolve justamente um projeto cinematográfico dedicado ao ex-presidente, além de Flávio e Eduardo Bolsonaro.
O caso Dark Horse cresceu à medida que investigadores passaram a acompanhar o caminho do dinheiro relacionado a Daniel Vorcaro. Segundo informações extraídas das investigações, operadores financeiros ligados ao banqueiro participaram de estruturas internacionais usadas para movimentar recursos destinados ao projeto. A tentativa de concentrar procedimentos nas mãos de Mendonça passou, assim, a integrar a discussão mais ampla sobre a relação entre o ministro indicado por Bolsonaro, as investigações do Master e personagens do próprio núcleo político bolsonarista.
Moraes acusa Mendonça de dirigir investigações e favorecer grupos políticos
Alexandre de Moraes pediu formalmente que André Mendonça seja investigado por possíveis atos de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Moraes sustenta que o colega usurpou a direção de investigações, interferiu na produção de provas, conduziu irregularmente tratativas relacionadas a colaboração premiada e direcionou procedimentos de forma politicamente interessada. No centro da acusação está a tese de quebra de imparcialidade e favorecimento de determinados grupos políticos.
O peso institucional da denúncia aumentou porque parte dos questionamentos sobre a forma de atuação de Mendonça coincide com a manifestação da Procuradoria-Geral da República sobre os limites ultrapassados pelo ministro ao assumir iniciativa investigatória. O conflito, portanto, deixou de ser uma disputa pessoal entre Moraes e Mendonça e passou a envolver PGR, Polícia Federal, Advocacia-Geral da União, Presidência do Supremo e outros ministros da Corte. A própria conduta de Mendonça tornou-se objeto de discussão institucional dentro do tribunal.
Nove dias contra Jaques Wagner, 75 dias no caso Cláudio Castro
A Polícia Federal colocou números na discussão sobre seletividade ao comparar o tempo de resposta de André Mendonça em procedimentos envolvendo políticos de campos opostos. Segundo relatório revelado pela imprensa, o ministro levou nove dias para decidir uma medida envolvendo Jaques Wagner, senador do PT e um dos principais aliados de Lula, enquanto uma medida relacionada a Cláudio Castro, político do PL, permaneceu 75 dias aguardando decisão.
A diferença registrada pela própria PF tornou concreta uma acusação que até então poderia parecer apenas política. Diante de um senador petista, Mendonça decidiu em nove dias; no procedimento envolvendo um político do PL, levou 75. A assimetria ganhou ainda mais peso quando surgiram informações sobre o acesso direto de Cláudio Castro ao ministro e sobre outras decisões de Mendonça envolvendo o governador fluminense.
Mendonça barrou nova diligência contra Cláudio Castro apesar do aval da PGR
André Mendonça também negou nova diligência pedida pela Polícia Federal contra Cláudio Castro na investigação dos investimentos do RioPrevidência no Banco Master, apesar de a Procuradoria-Geral da República ter se manifestado favoravelmente à medida. A decisão acrescentou outro elemento à comparação já registrada pelos investigadores: além dos 75 dias de espera em um procedimento envolvendo Castro, uma nova iniciativa policial contra o político do PL acabou barrada pelo ministro mesmo depois de receber parecer favorável da PGR.
Esse histórico ganhou importância porque Castro não era uma autoridade sem acesso a Mendonça. Mensagens posteriormente reveladas mostraram que o governador mantinha um canal direto de comunicação com o ministro e já havia utilizado esse acesso para encaminhar informações relacionadas a outro processo de enorme sensibilidade política e criminal: o caso Sérgio Cabral.
Cláudio Castro procurou diretamente André Mendonça para tratar do processo criminal de Sérgio Cabral
As mensagens reveladas pela Polícia Federal mostram que Cláudio Castro procurou diretamente André Mendonça para tratar da situação de Sérgio Cabral quando um processo relacionado à prisão do ex-governador estava sob análise do ministro. Castro encaminhou arquivos relacionados a habeas corpus e pedidos de soltura enquanto Mendonça havia pedido vista do processo. Posteriormente, o ministro votou pela liberdade de Cabral, fundamentando sua posição no excesso de duração da prisão preventiva.
A gravidade institucional está no canal paralelo estabelecido entre uma autoridade política interessada e o magistrado responsável por uma decisão concreta. O processo judicial possui canais formais para apresentação de documentos, argumentos e pedidos justamente para garantir registro, transparência e contraditório. Quando material relacionado a uma causa em julgamento chega diretamente ao juiz por uma conversa privada de WhatsApp, cria-se um caminho de acesso que não está disponível de maneira igual a todas as pessoas submetidas ao Judiciário.
O episódio assume dimensão ainda maior quando colocado ao lado do encontro reservado com Daniel Vorcaro. Em situações diferentes, personagens com interesses relacionados a casos sensíveis conseguiram acesso direto a André Mendonça fora da arena processual ordinária. No caso de Castro, esse mesmo político posteriormente apareceu em procedimentos nos quais a PF registrou demora de 75 dias e teve nova diligência negada pelo ministro apesar de manifestação favorável da PGR.
Entre Toffoli, Fux, Kassio e Moraes, Mendonça colocou Moraes no centro da investigação
A discussão sobre seletividade também alcança o tratamento dispensado a integrantes do próprio Supremo. Reportagens compararam os casos de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, todos mencionados em diferentes elementos relacionados ao universo Banco Master. Entre eles, Moraes foi quem acabou colocado no centro de um aprofundamento investigativo que resultou em divulgação pública de informações e numa crise institucional de grandes proporções.
No caso de Toffoli, a Polícia Federal havia apresentado relatório contendo informações relacionadas a uma transferência de R$ 35 milhões envolvendo o resort Tayayá e pessoas ligadas a Vorcaro. Kassio e Fux também passaram a enfrentar questionamentos decorrentes de relações de familiares com personagens e estruturas associadas ao universo Master. Moraes, porém, foi quem teve informações expostas publicamente e sua conduta transformada em objeto de uma ofensiva investigativa conduzida a partir do gabinete de Mendonça.
A comparação tem peso político porque Moraes não é um ministro qualquer para o bolsonarismo. Ele se tornou o principal símbolo do enfrentamento judicial a Jair Bolsonaro, à tentativa de golpe e às redes de extrema direita investigadas pelo Supremo. Quando o ministro indicado por Bolsonaro escolhe justamente Moraes para o aprofundamento mais agressivo, enquanto outros nomes mencionados no mesmo universo não recebem tratamento equivalente, a discussão sobre critérios deixa de ser abstrata.
A empresa fundada por Mendonça acumulou milhões em contratos sem licitação
Enquanto o caso Master explodia, outro núcleo de suspeitas atingiu André Mendonça. O Instituto Iter S.A., empresa fundada pelo ministro, acumulou milhões de reais em contratos com órgãos públicos sem licitação. Levantamento da BBC News Brasil identificou 28 contratos que somavam aproximadamente R$ 10,7 milhões, celebrados por mecanismos de dispensa ou inexigibilidade. O Iter havia sido criado em 2023, quando Mendonça já ocupava uma cadeira no Supremo.
A empresa reuniu pessoas diretamente relacionadas ao círculo político e profissional do ministro. Entre os nomes identificados pela imprensa estão Victor Godoy, ex-ministro da Educação de Jair Bolsonaro; Tércio Tokano, antigo auxiliar de Mendonça no Ministério da Justiça; Rodrigo Sorrenti, chefe de gabinete do ministro; e Danilo Dupas, ex-presidente do Inep durante o governo Bolsonaro. A família de Mendonça também participava da estrutura societária, e sua mulher, Janey Mendonça, apareceu como administradora. André Mendonça, por sua vez, era o principal nome público associado ao empreendimento.
O próprio nome de André Mendonça fazia parte dos serviços vendidos ao poder público
Os contratos do Iter não envolviam uma empresa completamente afastada da figura pública do ministro. Em alguns deles, a própria participação de André Mendonça aparecia entre as atividades oferecidas. O Conselho Federal de Contabilidade contratou programas que incluíam cursos e conferências do magistrado. Entre os contratos identificados pela imprensa aparecem valores superiores a R$ 1,6 milhão com o Tribunal de Justiça do Amazonas e aproximadamente R$ 1,63 milhão com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo, vinculada ao governo Tarcísio de Freitas.
Tarcísio e Mendonça integraram juntos o governo Jair Bolsonaro. A Prefeitura de São Paulo também contratou o Iter. O crescimento de uma empresa recém-criada, associada a um ministro da Suprema Corte, integrada por pessoas de seu círculo profissional e abastecida por contratos públicos milionários sem licitação levou parlamentares a acionar órgãos de controle e pedir investigação sobre as relações econômicas construídas em torno da instituição.
PT e PSOL acionaram a PGR para investigar os contratos do Iter
Deputados do PT e do PSOL levaram o caso à Procuradoria-Geral da República e pediram investigação sobre a participação de Mendonça na empresa, a obtenção dos contratos públicos, os fundamentos utilizados para as contratações sem licitação e os beneficiários econômicos dos recursos recebidos. Lindbergh Farias pediu que a PGR obtenha processos administrativos, justificativas das contratações, pesquisas de preços, comprovantes de pagamento e informações capazes de identificar quem efetivamente recebeu o dinheiro.
O questionamento atinge diretamente a relação entre poder político, prestígio institucional e dinheiro público. Os parlamentares querem saber se o nome, a posição e a influência de um ministro do Supremo contribuíram para abrir portas do Estado a uma empresa fundada por ele e integrada por pessoas de seu círculo. Depois que os contratos ganharam repercussão, Mendonça anunciou que ele e a mulher deixariam sua participação societária no Iter, movimento ocorrido em setembro, no auge das revelações sobre a empresa.
O irmão de Mendonça estava na SP Regula durante julgamento sobre setor regulado pela agência
A família do ministro aparece também em outro episódio. Alexandre de Almeida Mendonça, irmão de André, trabalhava na SP Regula, agência da Prefeitura de São Paulo responsável por regular serviços públicos municipais, entre eles o setor funerário e cemiterial. Documentos oficiais mostram Alexandre exercendo funções na agência e participando de estruturas administrativas relacionadas aos contratos do setor funerário.
No Supremo, André Mendonça participou justamente do julgamento da ADPF 1196, que discutia a concessão dos serviços funerários e cemiteriais da capital paulista. Flávio Dino havia determinado medidas envolvendo preços, transparência e fiscalização, Mendonça pediu vista e posteriormente votou para não referendar as cautelares estabelecidas pelo colega. Enquanto o processo tramitava, seu irmão trabalhava no órgão responsável pela regulação do setor atingido pelo julgamento. Posteriormente, Alexandre de Almeida Mendonça chegou à Secretaria Executiva da SP Regula, acrescentando outra camada aos questionamentos sobre conflitos de interesse relacionados ao ministro.
O bolsonarismo passou a celebrar Mendonça enquanto atacava o Supremo
A crise transformou André Mendonça em referência positiva para setores bolsonaristas justamente no momento em que Alexandre de Moraes voltava ao centro dos ataques da direita. Flávio Bolsonaro elogiou decisões do ministro, Silas Malafaia atacou Moraes e defendeu Mendonça, e lideranças e candidatos da direita incorporaram a crise ao discurso eleitoral. O ministro indicado por Bolsonaro passou a ser apresentado como contraponto interno aos magistrados do STF considerados inimigos pelo bolsonarismo.
Esse alinhamento possui uma história anterior que se tornou indispensável para compreender o presente. Mendonça foi advogado-geral da União e ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e chegou ao Supremo depois de o então presidente prometer indicar um ministro “terrivelmente evangélico”. Agora, o magistrado indicado por Bolsonaro aparece no centro de decisões que atingiram Alexandre de Moraes e produziram informações imediatamente exploradas pelo filho do ex-presidente na disputa presidencial, enquanto procedimentos capazes de atingir o próprio núcleo Bolsonaro permaneceram inicialmente sob sigilo.
Fachin retirou das mãos de Mendonça o caso Moraes-Vorcaro
A crise institucional chegou ao ponto em que o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu o procedimento relacionado às possíveis relações entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro e reorganizou a tramitação dos processos ligados ao Master. Fachin também separou a análise das acusações contra Moraes da discussão sobre a própria atuação de Mendonça, transformada em objeto autônomo de exame dentro da Suprema Corte.
A mudança produz uma inversão institucional significativa. Mendonça começou essa etapa da crise utilizando sua posição para aprofundar suspeitas contra Moraes; depois das reações da PGR, da PF e de outros ministros, sua própria conduta passou a ser submetida ao Supremo. O conflito já não envolve apenas o conteúdo das suspeitas inicialmente divulgadas, mas a maneira como Mendonça exerceu seus poderes para investigar, selecionar informações, interferir em procedimentos e atingir autoridades envolvidas no caso.
O que pesa contra André Mendonça é o padrão formado pelo conjunto
A força da suspeita sobre André Mendonça não está em transformar cada episódio numa história independente. Está justamente na possibilidade de colocá-los lado a lado. Mendonça encontrou Vorcaro reservadamente; seu gabinete ouviu o banqueiro preso sem a presença da PF; Vorcaro dirigiu acusações contra o diretor-geral da polícia; pouco depois, Mendonça afastou esse diretor, que comandava a instituição responsável pela prisão do banqueiro e pelas investigações do Banco Master.
Quando a decisão chegou à Segunda Turma, Fux e Kassio apoiaram Mendonça, e posteriormente familiares dos dois passaram a aparecer em controvérsias relacionadas ao universo Master. A PGR questionou Mendonça por ultrapassar a função judicial na investigação de Moraes. O ministro abriu informações que expuseram Moraes e foram imediatamente transformadas em arma eleitoral pelo bolsonarismo, enquanto Dark Horse, investigação capaz de atingir Flávio Bolsonaro e o núcleo familiar de quem indicou Mendonça ao Supremo, permaneceu inicialmente sob sigilo.
A mesma comparação aparece nos procedimentos envolvendo políticos. A Polícia Federal registrou nove dias para uma decisão contra Jaques Wagner, do PT, e 75 dias no caso de Cláudio Castro, do PL. Mendonça posteriormente barrou nova diligência contra Castro apoiada pela PGR, e mensagens revelaram que o próprio Castro já havia procurado diretamente o ministro para encaminhar material relacionado ao processo de Sérgio Cabral. Fora do caso Master, o irmão de Mendonça trabalhava no órgão regulador relacionado a um setor submetido a julgamento do próprio ministro, enquanto a empresa fundada por Mendonça acumulava milhões de reais em contratos públicos sem licitação.
É essa repetição de relações, acessos privilegiados, diferenças de tratamento e decisões politicamente sensíveis que transforma o caso André Mendonça em algo maior do que uma disputa entre ministros do Supremo. A pergunta que atravessa todos esses episódios é se o enorme poder judicial concentrado nas mãos de um integrante da Suprema Corte foi exercido segundo critérios iguais para adversários políticos, aliados, autoridades policiais, colegas do tribunal e personagens que mantiveram relações pessoais ou institucionais com ele.
André Mendonça precisa responder pelo conjunto
O que está em discussão não é simplesmente a ideologia conservadora de um ministro. É a forma como André Mendonça exerce um poder capaz de autorizar prisões, buscas, apreensões, quebras de sigilo e operações policiais; decidir o que permanece secreto e o que chega ao conhecimento público; controlar investigações de enorme repercussão; e, como ocorreu com Andrei Rodrigues, determinar o afastamento do próprio diretor-geral da Polícia Federal.
As perguntas acumuladas são concretas e se conectam. O encontro reservado com Vorcaro precisa ser confrontado com o posterior controle de investigações envolvendo o banqueiro. A oitiva de Vorcaro sem a presença da PF precisa ser observada ao lado das acusações feitas pelo preso contra Andrei e do posterior afastamento do diretor-geral. A exposição de Moraes precisa ser comparada ao sigilo inicialmente mantido sobre Dark Horse. Os nove dias no caso Jaques Wagner precisam ser comparados aos 75 dias registrados no caso Cláudio Castro, assim como a negativa de nova diligência contra Castro precisa ser colocada ao lado das mensagens privadas enviadas pelo governador ao ministro sobre o processo de Sérgio Cabral.
Também precisam ser examinados os vínculos que extrapolam o Banco Master. A participação do irmão de Mendonça na SP Regula durante o julgamento de questão relacionada ao setor regulado pela agência e os milhões de reais em contratos públicos sem licitação obtidos pelo Instituto Iter integram o mesmo problema democrático: os limites entre função pública, relações privadas, poder econômico, proximidade política e exercício da jurisdição.
André Mendonça utilizou a força institucional do Supremo para colocar autoridades, policiais e colegas da própria Corte sob escrutínio. Agora, a acumulação de fatos, documentos, decisões e questionamentos coloca sua própria atuação no centro da crise. O controle republicano não pode parar na porta de um gabinete do STF justamente quando esse gabinete dispõe de poder suficiente para investigar os outros. Diante do que já veio a público, a transparência e a investigação que Mendonça cobra de terceiros precisam alcançar também as decisões, relações e interesses que cercam o próprio ministro.
