Ocupação Palestina Livre cobra solução habitacional antes da retirada e denuncia que famílias seguem sem garantia de moradia definitiva.
Cerca de 200 famílias da Ocupação Palestina Livre vivem sob ameaça de despejo em Diadema sem que exista uma solução habitacional definitiva garantida para todas elas. Organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), elas ocupam desde setembro de 2025 o prédio do antigo Hospital de Diadema e cobram da Prefeitura uma resposta que deveria vir antes de qualquer retirada: onde essas pessoas vão morar?
No dia 27 de agosto, moradoras, moradores e militantes foram ao Paço Municipal pressionar o governo por negociação diante da ordem de desocupação. Segundo o MLB, a mobilização buscava uma reunião com a Prefeitura para discutir o futuro das famílias, que continuam sem uma alternativa habitacional capaz de atender todas as pessoas que vivem na ocupação.
Essa é a questão central da história. Não se trata apenas de retirar famílias de um imóvel, mas de saber se o poder público vai garantir que elas continuem tendo onde viver quando a desocupação acontecer.
A ocupação existe porque falta moradia
A Ocupação Palestina Livre começou em 7 de setembro de 2025 e se tornou espaço de moradia e organização de famílias que enfrentam uma realidade comum a milhões de brasileiras e brasileiros: salários baixos, aluguel caro e dificuldade de acesso à habitação popular. Uma ocupação não nasce porque famílias desejam viver em precariedade; ela nasce quando morar se torna um direito cada vez mais difícil de exercer para quem vive do próprio trabalho.
Para quem recebe pouco, o aluguel pode consumir uma parcela tão grande da renda que pagar pela casa significa escolher o que ficará faltando naquele mês. Alimentação, transporte, remédio, conta de luz e material escolar passam a disputar o mesmo orçamento, e a falta de moradia deixa de ser apresentada como problema individual para mostrar aquilo que realmente é: uma expressão da desigualdade.
A crise da moradia tem classe social
Os números da Fundação João Pinheiro mostram que a realidade enfrentada pelas famílias da Ocupação Palestina Livre está longe de ser isolada. O déficit habitacional brasileiro foi estimado em 5,97 milhões de domicílios em 2023, e, na atualização referente a 2024, o percentual caiu de 7,6% para 7,4% dos domicílios, mas o ônus excessivo com aluguel urbano continuou sendo o principal componente do déficit habitacional brasileiro.
Isso significa que milhões de famílias até conseguem permanecer em uma casa, mas pagam por ela um preço incompatível com a própria renda. É o aluguel disputando dinheiro com alimentação, transporte, medicamentos e outras necessidades básicas, num cenário em que a desigualdade aparece ainda mais claramente quando se observa quem está no déficit.
Em 2022, 74,5% do déficit habitacional brasileiro estava concentrado em domicílios com renda de até dois salários mínimos, segundo a Fundação João Pinheiro. No estado de São Paulo, o déficit chegava a aproximadamente 1,2 milhão de domicílios, o maior número absoluto do país naquele levantamento, e cerca de 927 mil estavam nessa situação por causa do peso excessivo do aluguel urbano.
A crise habitacional tem classe social e pesa principalmente sobre a população trabalhadora de baixa renda. É nesse terreno que movimentos de moradia se organizam e transformam a dificuldade individual de pagar um teto em uma luta coletiva por direito à cidade.
A luta por moradia faz parte da história de Diadema
Diadema conhece essa disputa há décadas. A cidade foi marcada pela atuação de movimentos populares na luta por urbanização de favelas, regularização fundiária, loteamentos de interesse social e construção de habitação popular.
Em documento encaminhado à Câmara Municipal em 2024, a própria Prefeitura reconheceu a participação histórica das entidades e movimentos de moradia nos processos de urbanização de favelas, construção de loteamentos de interesse social e execução de empreendimentos habitacionais. O poder público municipal também reconheceu que a redução do déficit habitacional depende da atuação conjunta das esferas municipal, estadual e federal com entidades e movimentos populares.
A história de Diadema ajuda a entender por quê. Direitos urbanos não foram simplesmente concedidos; foram conquistados por comunidades que se organizaram, pressionaram governos e exigiram políticas públicas. Urbanização, regularização e habitação popular também são fruto dessa mobilização, e a Ocupação Palestina Livre faz parte dessa trajetória.
Uma dívida habitacional que atravessa décadas
A falta de moradia adequada em Diadema aparece há muito tempo no próprio planejamento municipal. O Plano Local de Habitação de Interesse Social estimava, em 2008, necessidade de aproximadamente 9,5 mil novas moradias, um levantamento que pertence àquele período, mas mostra que a pressão por habitação no município não nasceu com a ocupação atual.
O diagnóstico também apontava características estruturais importantes de Diadema, como alta densidade populacional e pouca disponibilidade de terras. Por isso, discutir moradia na cidade significa também discutir quem pode ocupar o território, para quem ele é planejado e qual função é dada aos imóveis existentes.
Numa cidade pequena territorialmente e marcada por demanda histórica por habitação, a existência de imóveis sem utilização enquanto famílias procuram onde viver é uma contradição que não pode ser tratada como normal. É justamente nesse ponto que a luta por moradia se conecta à disputa sobre função social da propriedade e direito à cidade.
Movimento cobra negociação desde o início
O conflito envolvendo a Ocupação Palestina Livre começou pouco depois da entrada das famílias no antigo hospital. Ainda em setembro de 2025, o caso chegou à Justiça, a Defensoria Pública passou a atuar no processo e a disputa também chegou à Câmara Municipal.
Naquele período, um requerimento legislativo manifestou apoio à Ocupação Palestina Livre, ao MLB e à Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP. A mobilização por diálogo, portanto, não começou agora: desde os primeiros meses da ocupação, o movimento busca colocar em debate uma questão que continua sem solução definitiva, que é o destino das famílias.
A comunidade permaneceu organizada
A Ocupação Palestina Livre permaneceu ativa durante 2026. Em março, o Instituto Pólis realizou no local uma atividade do projeto Território-Escola Diadema, e o MLB aparece entre as organizações parceiras da iniciativa.
A ocupação se consolidou como território de vida e organização comunitária. Ali vivem famílias, existem relações de vizinhança, pessoas trabalham, estudam, criam crianças e organizam coletivamente a defesa de um direito básico.
Reduzir a ocupação apenas ao prédio significa apagar as pessoas que construíram ali uma comunidade. Para essas famílias, a ameaça de desocupação não significa simplesmente mudar de endereço, mas perder o espaço que encontraram para viver enquanto uma solução permanente de moradia não chega.
Antes do despejo, as famílias querem saber qual é a alternativa
Em agosto, poucos dias antes da mobilização no Paço, integrantes do MLB já cobravam uma resposta. No dia 20, Giovani Henrique, representante do movimento, participou de debate na Câmara Municipal, onde o MLB defendeu negociação e apresentou a possibilidade de um projeto de retrofit para adaptação do antigo hospital.
Durante a discussão, o líder do governo, vereador Juninho do Chicão, afirmou que 88 pessoas haviam comparecido ao cadastramento e mais de 50 estavam aptas a receber Bolsa Aluguel. O MLB afirma, por sua vez, que aproximadamente 200 famílias vivem na ocupação.
Bolsa Aluguel não é moradia definitiva, e cadastro habitacional também não significa receber uma casa. Para quem está ameaçado de despejo, entrar em uma lista não responde à pergunta mais urgente: onde morar amanhã?
Auxílio temporário não substitui política de moradia
Há uma diferença enorme entre retirar uma família de uma ocupação e garantir que ela tenha onde morar. A retirada pode acontecer em um único dia, mas a solução habitacional exige política pública permanente, planejamento, orçamento e compromisso do poder público.
Uma família pode receber auxílio temporário e, depois do fim do benefício, continuar sem renda suficiente para pagar aluguel. Pode entrar em uma fila habitacional e esperar anos, sair de uma ocupação para dividir uma casa já pequena com parentes ou acabar novamente em uma situação precária.
Por isso, o problema não se resolve com o simples deslocamento das famílias. Uma política de moradia precisa garantir estabilidade, segurança e condições para que as pessoas construam a própria vida sem conviver permanentemente com a ameaça de perder o teto.
Famílias foram à Prefeitura para cobrar uma resposta
Foi com essa reivindicação que integrantes da Ocupação Palestina Livre e militantes foram ao Paço Municipal em 27 de agosto. Segundo o MLB, o objetivo era conseguir uma reunião com a Prefeitura e abrir negociação sobre o destino das famílias.
O movimento denuncia que a Guarda Civil Municipal reprimiu a mobilização com cassetetes e spray de pimenta. Dois militantes, Felipe Barbosa dos Santos e Felipe Henrique Silva Martins, foram detidos, e o MLB, a Unidade Popular e apoiadores passaram a cobrar a libertação dos dois.
Vivian Mendes, candidata da Unidade Popular ao governo de São Paulo e participante da mobilização, também relatou ter sido agredida durante a ação. A mobilização colocou novamente diante da Prefeitura a questão que acompanha a ocupação desde o início: qual é a solução habitacional oferecida às famílias?
Protestar por moradia é exercer um direito
Ocupações e manifestações fazem parte da história das lutas populares brasileiras. Muitos direitos que hoje parecem estabelecidos precisaram primeiro ser reivindicados nas ruas, nas periferias, nas fábricas, nos movimentos e nas ocupações.
O direito à cidade não avançou apenas dentro dos gabinetes; foi empurrado pela organização popular. Quando famílias se organizam para cobrar moradia, deixam de enfrentar individualmente problemas que são coletivos, e o aluguel caro, a falta de casa e a insegurança habitacional passam a ser discutidos como questões políticas.
É justamente essa a força da organização popular. Ela transforma situações vividas de forma isolada por milhares de pessoas em reivindicações capazes de pressionar governos e disputar políticas públicas.
A Prefeitura precisa responder pela moradia
O governo municipal tem responsabilidade direta sobre a política habitacional da cidade. É a Prefeitura que administra instrumentos locais de habitação, cadastro, assistência e benefícios, e é dela que as famílias cobram respostas concretas.
Quantas serão atendidas? Qual será a solução para aquelas que não entrarem nos benefícios? Existe perspectiva de moradia permanente? Por quanto tempo qualquer auxílio será pago e o que acontecerá depois?
Essas perguntas não são secundárias. Elas definem se uma eventual retirada terminará em proteção social ou em uma nova etapa de insegurança para famílias que já vivem sob pressão habitacional.
Moradia digna também significa segurança
As condições de uma moradia precisam garantir segurança, saneamento e dignidade. Quando um imóvel apresenta problemas, a resposta pública deveria ser oferecer às famílias uma alternativa melhor, e não transformar a precariedade vivida pela população pobre em justificativa para abandoná-la.
Famílias de baixa renda não escolhem livremente entre dezenas de casas seguras e baratas. Vivem onde conseguem, justamente porque o mercado não garante moradia digna para todas as pessoas e porque as políticas públicas ainda não conseguem atender toda a demanda.
O direito à moradia não é apenas o direito a quatro paredes e um teto. É o direito a uma vida estável, com segurança e condições para permanecer na cidade.
Movimentos de moradia também constroem a cidade
Movimentos populares ajudaram a transformar periferias, conquistar infraestrutura, pressionar pela regularização de bairros e colocar habitação popular no orçamento público. Em Diadema, essa participação está registrada na própria história da cidade.
Muitas conquistas que hoje parecem parte natural da administração pública nasceram de reivindicações que, em determinado momento, incomodaram governos. É essa a função da organização popular: pressionar quando direitos não são garantidos e organizar quem individualmente teria pouca força diante do Estado e do mercado.
A Ocupação Palestina Livre transforma a dificuldade de centenas de famílias em uma reivindicação coletiva. Em vez de aceitar silenciosamente a falta de moradia, essas famílias colocam o problema diante da cidade e exigem resposta.
Despejar não reduz o déficit habitacional
Uma desocupação pode esvaziar um imóvel, mas não constrói uma única casa, não diminui o aluguel, não aumenta o salário, não reduz a fila por habitação e não cria novas unidades habitacionais. Se uma família sai de uma ocupação e continua sem acesso a uma casa adequada, a crise habitacional permanece.
O endereço muda, mas o problema continua. É por isso que o resultado dessa história não pode ser medido apenas por uma eventual retirada, e sim pela situação das famílias depois dela.
Se o despejo acontecer e essas pessoas continuarem sem moradia permanente, a política pública terá apenas transferido a precariedade de um lugar para outro.
E depois: vão morar onde?
Essa é a pergunta que atravessa toda a luta da Ocupação Palestina Livre. Onde vão morar as famílias, quem será atendido, qual será a solução para quem ficar fora dos benefícios, quanto tempo durará qualquer auxílio temporário e qual é a perspectiva de uma moradia permanente?
Também existe uma pergunta sobre o próprio antigo hospital. Em uma cidade com pouco território e demanda histórica por habitação, o destino de um imóvel desse porte é uma questão de interesse público, especialmente quando existem famílias procurando casa e imóveis permanecem sem função social.
A Ocupação Palestina Livre colocou essa contradição diante da cidade. As famílias não estão pedindo favor, mas reivindicando o direito de ter onde viver, permanecer na cidade, não ser empurradas de endereço em endereço e participar das decisões que afetam diretamente suas vidas.
Cerca de 200 famílias podem ser despejadas em Diadema. Antes disso, o poder público precisa responder: vão morar onde?
Enquanto essa resposta não existir, a luta continua.
FONTES
Fundação João Pinheiro — Déficit Habitacional no Brasil.
Prefeitura de Diadema — documentos sobre política habitacional e participação dos movimentos de moradia.
Câmara Municipal de Diadema — registros legislativos sobre política habitacional e a Ocupação Palestina Livre.
Plano Local de Habitação de Interesse Social de Diadema.
Instituto Pólis — Projeto Território-Escola Diadema.
Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas — MLB.
Diário do Grande ABC.
ABC Repórter.
