Mobilizações na Vila São Pedro, Santa Terezinha e Grande Alvarenga denunciam esvaziamento das turmas para estudantes trabalhadores e expõem quatro anos de conflitos na educação paulista sob Tarcísio.
Em três bairros populares de São Bernardo do Campo, estudantes, professoras, professores e famílias estão mobilizados para impedir que a escola pública feche as portas justamente no horário em que uma parcela da população trabalhadora consegue estudar. Na Vila São Pedro, no Santa Terezinha e no Grande Alvarenga, comunidades denunciam um processo de redução das turmas noturnas que ameaça retirar de jovens e adultos a possibilidade de conciliar emprego, sustento familiar e conclusão do Ensino Médio.
Na EE Maurício de Castro, a denúncia é de que deixarão de ser abertas primeiras e segundas séries à noite, permanecendo apenas os terceiros anos. Na EE Professor Nelson Monteiro Palma, estudantes já foram às ruas depois da retirada das séries iniciais do noturno. Na EE Professor Domingos Peixoto da Silva, a comunidade convocou manifestação para esta quinta-feira, 27 de agosto, exigindo que o período seja mantido com turmas do 1º ao 3º ano.
As mobilizações apontam para o mesmo mecanismo de esvaziamento. Quando o Estado deixa de abrir uma primeira série, não haverá aquela segunda série no ano seguinte; quando as turmas que já estão no fim do Ensino Médio se formarem, não existirão estudantes ingressantes para dar continuidade ao período. É por isso que as comunidades tratam a retirada das séries iniciais não como uma simples reorganização, mas como fechamento progressivo do ensino noturno.
O conflito chega ao quarto ano do governo Tarcísio de Freitas em meio a uma sucessão de denúncias, embates sindicais, decisões contestadas e problemas registrados por órgãos de fiscalização na maior rede estadual de ensino do país. Fechamento de salas, dezenas de milhares de docentes sem aulas, maioria do magistério sob contratos temporários, plataformização compulsória, erros em materiais digitais, privatização de serviços escolares, militarização, precariedade de acessibilidade e retirada de uma proteção constitucional histórica do financiamento fazem parte do cenário em que as escolas de São Bernardo agora lutam para manter suas turmas abertas.
Na Vila São Pedro, comunidade denuncia contagem regressiva para 2028
Na EE Maurício de Castro, na Vila São Pedro, a mobilização começou depois que professoras e professores receberam a informação sobre a organização prevista para o próximo ano. Em publicação feita em 22 de agosto, o professor Sergio Linhares Hora denunciou que o governo estadual pretende deixar de oferecer o 1º e o 2º anos do Ensino Médio à noite, mantendo apenas os terceiros anos.
Segundo Sergio, a consequência desse processo será o encerramento completo do Ensino Médio noturno na unidade em 2028. “Estudar à noite é um direito. Educação pública é um direito”, escreveu o professor no chamado dirigido a estudantes, famílias, ex-alunos, trabalhadores e moradores do bairro.
Em texto publicado pelo ABC da Luta, Sergio detalhou a projeção apresentada à comunidade: para 2027 seriam previstas 19 salas pela manhã, 19 no período da tarde e apenas seis à noite, todas destinadas aos terceiros anos do Ensino Médio. O professor alertou ainda que a escola possui atualmente uma turma de primeiro ano noturno, formada por estudantes que precisarão do segundo ano no mesmo período em 2027.
A comunidade reagiu com abaixo-assinado e convocação de mobilizações diante da escola e da Unidade Regional de Ensino. A reivindicação não é apenas impedir o encerramento imediato de algumas classes, mas garantir a continuidade do 1º, 2º e 3º anos, porque manter somente as últimas séries significa impedir a entrada de novos estudantes e colocar o turno numa contagem regressiva.
A escola noturna é parte do direito de quem trabalha
O chamado da Vila São Pedro expõe uma dimensão de classe que números administrativos não conseguem apagar. Sergio descreve uma comunidade em que muitos jovens trabalham durante o dia, fazem cursos, ajudam suas famílias e encontram no período noturno a possibilidade de continuar estudando.
Para essas pessoas, a noite não é uma preferência de horário. É a condição concreta para permanecer na escola, e uma vaga oferecida durante a jornada de trabalho não substitui o direito de frequentar o Ensino Médio depois do expediente.
Essa realidade atravessa bairros periféricos de todo o estado. Quando uma turma noturna é retirada, o impacto recai justamente sobre quem dispõe de menos alternativas: jovens que já estão no mercado de trabalho, trabalhadoras e trabalhadores informais, pessoas que contribuem com a renda familiar e estudantes que não podem ocupar uma vaga integral ou diurna.
Na Nelson Monteiro Palma, estudantes levaram a denúncia para a rua
A alguns quilômetros da Vila São Pedro, estudantes da EE Professor Nelson Monteiro Palma, no bairro Santa Terezinha, já transformaram a defesa do noturno em protesto de rua. Em 19 de agosto, alunos, docentes e integrantes da comunidade escolar realizaram um ato diante da unidade contra o fechamento de salas e a redução do atendimento no período da noite.
Em vídeo divulgado pelo Viva ABC, estudantes explicam que muitos trabalham durante o dia e precisam das aulas noturnas para concluir o Ensino Médio. Um estudante ligado à mobilização afirma que integrantes do grêmio souberam naquele mês do fechamento do período e relaciona a luta à realidade de quem vive na periferia, estuda, trabalha e ajuda a levar sustento para casa.
Os alunos relatam também que organizaram um abaixo-assinado e o encaminharam à Secretaria Estadual da Educação. Segundo a manifestação registrada pelo Viva ABC, a justificativa apresentada foi a falta de demanda e a possibilidade de remanejamento para outras unidades, o que provocou uma pergunta que sintetiza a revolta estudantil: se as turmas deixam a Nelson Monteiro Palma, para onde irão as/os estudantes que precisam estudar a noite?
De acordo com os jovens ouvidos pelo Viva ABC, os polos de Ensino Médio noturno existentes naquela região não teriam vagas para receber todo o contingente afetado. O problema apontado pelos estudantes, portanto, não é apenas a existência de outra escola no mapa, mas a garantia concreta de vaga e permanência para quem precisa conciliar estudo e trabalho.
A própria resposta da Seduc confirma a retirada das séries iniciais
No caso da Nelson Monteiro Palma, a redução das turmas aparece também na posição oficial do governo. Conforme nota da Secretaria Estadual da Educação reproduzida pelo Repórter Diário e encaminhada à apuração, a Unidade Regional de Ensino de São Bernardo avaliou em 2025 que a primeira e a segunda séries do Ensino Médio noturno não apresentavam aquilo que a pasta considerou “demanda suficiente” para continuidade em 2026.
A terceira série foi mantida naquele ano, enquanto a Secretaria informou que, a partir de 2027, o atendimento noturno deverá ser concentrado na EE Maria Cristina Schmidt de Miranda, localizada, segundo a Seduc, a cerca de 600 metros da Nelson Monteiro Palma. A justificativa administrativa não elimina o núcleo do protesto: as duas séries de entrada deixaram de ser oferecidas à noite na escola onde os estudantes estavam organizados.
A retirada das primeiras séries é exatamente o modelo de esvaziamento denunciado também nas outras unidades. Quando não há ingresso de novas turmas, o número de estudantes necessariamente cai nos anos seguintes, até restarem somente as classes mais próximas da conclusão do Ensino Médio.
A luta na Nelson Monteiro Palma vem de antes
A mobilização de agosto de 2026 não nasceu neste mês. Em novembro de 2025, o Viva ABC já havia publicado uma reportagem sobre protesto de professores, familiares, estudantes e representantes da Apeoesp em defesa do período noturno da Nelson Monteiro Palma.
O histórico revela uma comunidade que vem enfrentando sucessivas tentativas de redução do atendimento, e não uma reação episódica. A permanência do tema durante diferentes anos letivos mostra como o fechamento de classes pode acontecer por etapas, transformando uma escola que oferecia o Ensino Médio completo à noite numa unidade onde os estudantes que trabalham deixam progressivamente de encontrar sua série.
Aldo Santos denuncia fechamento de salas e professores sem trabalho
O dirigente da Apeoesp Aldo Santos participou do ato na Nelson Monteiro Palma e relacionou a redução do período noturno a uma política mais ampla de precarização da educação estadual. Em sua intervenção, ele denunciou o fechamento de salas, a situação das professoras e professores temporários sem atribuição e o impacto dessas medidas sobre a juventude da periferia.
“Se vocês não lutarem, amanhã também eles vão fechar a sala, a escola para vocês que aqui estão”, afirmou Aldo durante a manifestação. O dirigente elogiou a mobilização estudantil e defendeu que a resistência seja ampliada para impedir novos fechamentos em São Bernardo e no restante do estado.
Durante a fala, Aldo citou cerca de 40 mil docentes da categoria O sem aulas no começo de 2026. A dimensão do problema também foi registrada pela Assembleia Legislativa: em março, a Alesp informou que aproximadamente 40 mil docentes, identificados como categoria O, ficaram sem turmas durante a atribuição de aulas de 2026, situação que motivou uma audiência pública na Casa.
Para Aldo, fechar salas aprofunda simultaneamente dois processos: exclui estudantes da escola e elimina trabalho docente. Na publicação que acompanhou o ato, o dirigente afirmou que “cada sala ou turno que fecha significa alunos abandonados e profissionais da educação desempregados” e anunciou apoio da Apeoesp a novas manifestações, inclusive diante da Unidade Regional de Ensino e da Secretaria Estadual da Educação.
Aldo aponta exclusão de estudantes e chama situação de “expurgo”
Na mesma intervenção, Aldo afirmou que aproximadamente 265 mil estudantes foram retirados da rede e relacionou o número ao processo que chamou de “expurgo”. Na publicação escrita sobre o protesto, ele utilizou a referência a cerca de 250 mil alunos fora da escola e alertou que o fechamento do ensino noturno pode ampliar a exclusão educacional.
A denúncia integra a leitura política apresentada pela Apeoesp nas mobilizações de 2026: salas fechadas significam menos lugares para estudantes e menos aulas para professoras e professores. O dirigente conduziu sua fala especialmente à juventude presente no ato e sustentou que a reação organizada das próprias comunidades é necessária para impedir que a retirada de turmas avance para outras escolas.
Aldo também denunciou perseguição a docentes e criticou os processos de avaliação de desempenho. Durante o discurso, citou o caso de Sergio Linhares, afirmando que o professor teria recebido avaliação mesmo estando afastado por motivo de saúde, e classificou a política de avaliação como desrespeitosa à categoria.
As acusações feitas por Aldo se inserem num conflito mais amplo entre o governo e o magistério estadual em torno das regras de avaliação, contratação e atribuição. Para o dirigente, fechamento de salas, professores sem aulas e mecanismos de controle sobre o trabalho docente não são acontecimentos separados, mas partes de uma mesma política educacional de precarização do ensino público.
Municipalização também entra no alerta sindical
Aldo Santos chamou atenção ainda para a municipalização do ensino. Na avaliação expressa pelo dirigente durante a mobilização, a transferência de atendimento da rede estadual para municípios ameaça empregos e pode piorar as condições oferecidas aos estudantes, razão pela qual a categoria acompanha o tema com preocupação.
O processo de municipalização existe formalmente na estrutura educacional paulista e não é apenas uma hipótese sindical. O Decreto estadual nº 69.665, de junho de 2025, que reorganizou a Secretaria da Educação, atribuiu às Unidades Regionais de Ensino a função de “apoiar e acompanhar o processo de municipalização do ensino”.
Ao colocar o tema no ato da Nelson Monteiro Palma, Aldo vinculou a defesa do noturno a uma discussão maior sobre a própria permanência de escolas e matrículas sob responsabilidade estadual. A preocupação sindical é que redução de classes, reorganizações e transferências de atendimento diminuam a presença da rede justamente nos territórios em que a população depende mais intensamente da escola pública.
No Grande Alvarenga, a denúncia chega à Domingos Peixoto
A terceira frente de mobilização está na EE Professor Domingos Peixoto da Silva, no Grande Alvarenga. Em manifesto divulgado em 24 de agosto por Marcos Marques dos Santos Júnior, uma comissão de professoras, professores, estudantes e integrantes da comunidade escolar convocou ato para esta quinta-feira, 27 de agosto, das 18h às 19h, diante da unidade.
O manifesto denuncia a ameaça de fechamento das turmas noturnas e afirma que a escola atende estudantes provenientes de mais de 20 bairros do entorno, muitos deles trabalhadores informais que dependem daquele horário. O documento tem apoio da Subsede da Apeoesp de São Bernardo e reivindica a manutenção do Ensino Médio noturno completo, com turmas de 1º, 2º e 3º anos.
A comunidade chama atenção também para o avanço do Programa de Ensino Integral na região. Segundo o manifesto, o predomínio de escolas com jornadas incompatíveis com quem trabalha durante o dia reduz as alternativas dos estudantes trabalhadores e torna a preservação do período noturno ainda mais necessária.
Ensino integral não substitui o noturno para o estudante trabalhador
A contradição apontada pela comunidade do Grande Alvarenga aparece em todo o debate sobre oferta de vagas. Uma escola integral pode atender determinado perfil de estudante, mas não substitui o turno noturno para alguém que precisa permanecer no emprego durante o dia.
Quando o Estado amplia modalidades incompatíveis com a rotina de pessoas trabalhadoras e reduz simultaneamente classes noturnas, contar apenas a quantidade total de vagas esconde uma desigualdade fundamental. A vaga existe no sistema, mas não necessariamente na vida de quem precisa dela.
É por isso que a Domingos Peixoto exige a abertura de todas as séries. O manifesto afirma que manter apenas terceiros anos “não viabiliza a permanência do período noturno a médio e longo prazo”, porque impede a entrada de novos alunos e condena o turno ao esvaziamento.
Três bairros denunciam a mesma engrenagem
Vila São Pedro, Santa Terezinha e Grande Alvarenga estão separados territorialmente, mas as comunidades descrevem a mesma engrenagem. Primeiro diminuem-se as salas; depois deixa de ser aberta a série de entrada; os estudantes que já estavam na escola avançam de ano; por fim, restam apenas as turmas próximas de concluir o Ensino Médio.
Essa sequência torna a expressão “falta de demanda” especialmente controversa. Se o próprio Estado deixa de oferecer determinada série, o número de estudantes naquele turno necessariamente diminuirá nos anos seguintes, abrindo espaço para que a redução produzida pela oferta seja posteriormente utilizada para justificar novos cortes.
A pergunta colocada pelas mobilizações é, portanto, central para avaliar a política educacional: a demanda desapareceu ou a própria oferta foi sendo retirada até produzir o esvaziamento?
Em 2024, Apeoesp já denunciava fechamento de 96 turmas noturnas
Os três casos de São Bernardo não surgem isolados no mapa paulista. Em novembro de 2024, reportagem da Folha de S.Paulo revelou que o governo Tarcísio planejava fechar no ano seguinte ao menos 96 turmas noturnas de Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos.
A informação partiu de levantamento realizado pela Apeoesp. Segundo o sindicato, pelo menos 38 escolas de 25 municípios haviam sido avisadas sobre fechamento de salas, demonstrando que a redução do noturno já gerava mobilização estadual dois anos antes dos protestos atuais em São Bernardo.
A política atinge de maneira especialmente dura estudantes trabalhadores, justamente o público que possui menos capacidade de adaptar sua vida à reorganização administrativa da rede. Para quem sai do emprego no fim da tarde, uma vaga de manhã, uma escola integral ou uma unidade distante não representam a mesma garantia de acesso.
Quatro anos de conflitos na educação de Tarcísio
O fechamento do ensino noturno é uma das faces de uma política educacional marcada por conflitos desde o início da gestão Tarcísio-Feder. Nos últimos quatro anos, denúncias de comunidades e sindicatos passaram a conviver com achados de tribunais de contas, pesquisas acadêmicas e questionamentos sobre contratação de pessoal, infraestrutura, plataformas digitais, recursos públicos, privatização e militarização.
A dimensão dos problemas desmonta a ideia de que as manifestações atuais se resumem a uma disputa local sobre algumas classes. O que está em jogo é o modelo de escola pública que vem sendo construído em São Paulo e quem consegue permanecer dentro dele.
Mais da metade dos professores da rede era temporária
O quadro de precarização docente está documentado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Segundo o relatório de auditoria das contas de 2024, 52,6% dos docentes da educação básica estadual estavam sob contratos temporários, contra 50,7% em 2023 e 48,1% em 2022.
No movimento inverso, professoras e professores concursados, efetivos ou estáveis passaram de 46,3% do total em 2022 para 42,9% em 2023 e 41,1% em 2024. O próprio TCE alertou para o risco de as contratações temporárias gerarem instabilidade e prejudicarem a qualidade do ensino.
O Ministério Público de Contas também destacou o problema ao examinar a política educacional paulista. Em manifestação sobre as contas estaduais, o órgão classificou o percentual de 52,6% de vínculos temporários como incompatível com a necessidade de fortalecimento da carreira e apontou a importância de concursos públicos regulares.
O cenário ajuda a compreender por que o fechamento de salas gera consequências imediatas para o magistério. Uma rede apoiada em grande número de contratos instáveis deixa milhares de profissionais particularmente expostos às decisões anuais de atribuição e reorganização.
Em 2026, cerca de 40 mil professores ficaram sem turmas
A crise se materializou de forma dramática no início deste ano. Conforme registro publicado pela Assembleia Legislativa em março de 2026, cerca de 40 mil docentes da categoria O ficaram sem turmas durante a atribuição de aulas, situação que levou professoras e professores a uma audiência pública na Alesp.
É esse dado que Aldo Santos levou para a frente da Nelson Monteiro Palma ao falar diretamente aos estudantes. A denúncia sindical estabelece uma relação clara entre fechamento de salas e trabalho docente: quando a rede reduz classes, diminui também a quantidade de aulas disponíveis para quem depende da atribuição para trabalhar.
A precarização, portanto, não fica restrita à relação contratual. Ela afeta a continuidade das equipes escolares, os vínculos construídos com estudantes e comunidades e a capacidade de docentes planejarem a própria vida profissional.
Ministério Público de Contas fala em fragilidade crônica
Em parecer técnico publicado em maio de 2026, o Ministério Público de Contas apontou que as contas da Secretaria Estadual da Educação referentes a 2024 revelavam permanência e, em alguns casos, agravamento de problemas já conhecidos na rede. O órgão mencionou precariedade de infraestrutura, contratação massiva de temporários, deficiência de aprendizagem, evasão, problemas na alimentação escolar, falta de acessibilidade e insuficiência de investimentos estruturais.
O MPC ressaltou que vários desses problemas atravessam governos e já eram apontados havia mais de uma década. A permanência das deficiências, porém, não reduz a responsabilidade da gestão atual: mostra que Tarcísio recebeu problemas conhecidos, documentados e cobrados por órgãos de fiscalização e chegou ao quarto ano de governo ainda enfrentando parte importante deles.
Na avaliação do Ministério Público de Contas, não se tratava de falhas episódicas, mas de problemas estruturais da política educacional. O parecer pediu novas diligências e esclarecimentos antes de uma apreciação conclusiva das contas.
R$ 324 milhões ficaram inscritos em restos a pagar no PDDE Paulista
A execução dos recursos destinados diretamente às escolas também entrou na mira dos órgãos de controle. Conforme o parecer das contas estaduais de 2024, os restos a pagar do Programa Dinheiro Direto na Escola Paulista saltaram de R$ 1,87 milhão em 2023 para R$ 324,09 milhões em 2024, sendo R$ 302,49 milhões vinculados ao Fundeb.
O documento registra ainda que apenas 37% das Associações de Pais e Mestres alcançaram o indicador de utilização mínima de 50% dos recursos, muito abaixo da meta de 70%. O próprio parecer recomendou mudanças de planejamento, cronograma e acompanhamento para tornar a aplicação do dinheiro mais efetiva nas unidades.
O dado expõe uma contradição importante para comunidades que convivem diariamente com necessidades dentro das escolas. Enquanto unidades disputam manutenção, estrutura e condições de funcionamento, centenas de milhões de reais destinados ao programa permaneceram inscritos para pagamento posterior.
Menos de um terço das escolas era acessível
As barreiras enfrentadas por estudantes com deficiência apareceram com força em auditoria do Tribunal de Contas. Segundo fiscalização divulgada pelo TCE em julho de 2025, apenas 1.607 escolas estaduais eram consideradas acessíveis em 2024, menos de um terço da rede analisada.
A auditoria apontou que 6.352 estudantes com deficiência motora frequentavam unidades sem acessibilidade adequada, dos quais 893 eram usuários de cadeira de rodas. O levantamento registrou ainda 160 municípios paulistas sem uma única escola estadual considerada acessível.
Nesse caso, a violação do direito à educação é física e cotidiana. Ela aparece na escada que impede a passagem, na falta de adaptação e no prédio público que não oferece autonomia para estudantes que deveriam encontrar na escola um espaço de inclusão.
Plataformas digitais ampliaram controle sobre a sala de aula
Outro eixo central da gestão Renato Feder foi a plataformização acelerada da rede. Aplicativos e sistemas digitais passaram a ocupar espaço cada vez maior nas atividades de estudantes e professores e nos mecanismos utilizados pela administração para monitorar metas e resultados.
A resistência ganhou escala estadual em maio de 2024, quando docentes realizaram a chamada “greve dos aplicativos”, suspendendo o uso de parte das plataformas. Estudo acadêmico publicado posteriormente na revista Pro-Posições, disponível na SciELO, registra que aproximadamente 70 mil professores aderiram ao movimento e reúne relatos de profissionais que viam nas ferramentas mecanismos de vigilância e controle sobre o trabalho docente.
O questionamento não ficou restrito ao sindicato. Em parecer sobre as contas da Educação, o Ministério Público de Contas levantou dúvidas sobre a eficácia pedagógica do uso massivo e obrigatório de aplicativos, tablets e materiais digitais pré-formatados, além de apontar preocupações relacionadas à liberdade de cátedra, proteção de dados pessoais de crianças e adolescentes e economicidade das contratações.
R$ 45 milhões para plataformas de matemática entram na mira do MPC
Em agosto de 2026, poucos dias antes das atuais manifestações de São Bernardo, o Ministério Público de Contas divulgou novo parecer sobre a política de plataformas. O documento analisa um convênio de R$ 45 milhões, celebrado em julho de 2023 entre a Secretaria da Educação e a Fundação para o Desenvolvimento da Educação, destinado à contratação de plataformas digitais para o ensino de matemática.
Segundo o MPC, quase dois anos depois da celebração do ajuste ainda havia informações elementares sobre a execução que não estavam devidamente esclarecidas nos autos, incluindo o preço efetivamente obtido na contratação. O órgão pediu novos esclarecimentos sobre o convênio e seu aditamento.
A política de digitalização, portanto, passou a ser questionada em duas frentes: nas escolas, por profissionais que denunciam controle e perda de autonomia; e nos órgãos de fiscalização, que cobram transparência e explicações sobre contratos milionários.
Material digital ensinou que São Paulo tinha praia
A centralidade atribuída aos materiais digitais produziu uma das primeiras grandes crises da gestão. Em agosto de 2023, o UOL revelou que conteúdos produzidos pela Secretaria da Educação continham erros graves em diferentes disciplinas, informação posteriormente repercutida por outros veículos.
Entre os problemas revelados pelo UOL estava a afirmação de que Dom Pedro II teria assinado a Lei Áurea, sancionada pela princesa Isabel em 1888, e a referência a praias na cidade de São Paulo. A Folha de S.Paulo também registrou os erros e informou que o material era produzido pela equipe da própria Secretaria e distribuído para a rede estadual.
O episódio ocorreu no mesmo período em que o governo tentava aumentar a dependência de conteúdo próprio e digital dentro das escolas. A revelação expôs problemas justamente no material que a gestão apresentava como eixo de sua nova política pedagógica.
Governo tentou abandonar livros do programa federal
Também em 2023, a Secretaria anunciou que São Paulo não utilizaria, em determinadas etapas, os livros do Programa Nacional do Livro e do Material Didático, priorizando conteúdo produzido pelo próprio Estado. A decisão provocou forte reação de educadores, entidades e especialistas e tornou-se objeto de disputa judicial.
O governo posteriormente recuou e voltou ao programa federal. O episódio ficou marcado não apenas pela tentativa de substituir livros físicos por uma política mais centrada em material digital próprio, mas pela forma acelerada como uma mudança de grande impacto foi conduzida em uma rede com milhões de estudantes.
A crise dos slides com erros aumentou ainda mais os questionamentos sobre a opção. Em poucos meses, o modelo que pretendia centralizar a produção de conteúdo no Estado precisou enfrentar recuo político, críticas pedagógicas e erros elementares revelados pela imprensa.
Serviços de escolas públicas passaram para concessões privadas
A privatização avançou também sobre o funcionamento cotidiano das unidades. Segundo a própria Secretaria Estadual da Educação, a PPP Novas Escolas prevê a construção de 33 unidades em 29 municípios, com cerca de 35 mil vagas e investimentos estimados em R$ 2,1 bilhões ao longo de 25 anos de concessão.
Pelo modelo divulgado pelo governo, a concessionária privada fica responsável por alimentação, vigilância e portaria, limpeza, jardinagem, manutenção, apoio escolar, tecnologia da informação, gestão de utilidades e serviços administrativos. Embora a gestão classifique essas tarefas como não pedagógicas, elas constituem funções permanentes e essenciais para o funcionamento diário de uma escola.
Em abril de 2026, a Secretaria anunciou a entrega da primeira unidade inserida no modelo, em Aguaí, enquanto outras 32 permaneciam em construção. O processo consolida contratos privados de longo prazo dentro de uma política pública que historicamente deveria ser administrada pelo Estado.
Tarcísio retirou exclusividade de recursos da educação
A mudança no financiamento foi uma das decisões mais profundas da gestão. A Constituição paulista reservava à educação pelo menos 30% das receitas de impostos, cinco pontos percentuais acima dos 25% estabelecidos pela Constituição Federal.
Em novembro de 2024, a Assembleia Legislativa aprovou a proposta do governo Tarcísio que permite compartilhar com a saúde os cinco pontos adicionais. A própria Secretaria explicou que o Executivo poderá decidir a cada exercício quanto dessa parcela ficará com cada uma das duas áreas.
A alteração não significa que todos os cinco pontos sejam automaticamente retirados da educação todos os anos, mas elimina a exclusividade constitucional que anteriormente protegia essa parcela. Antes da aprovação, a procuradora do Ministério Público de Contas Élida Graziane Pinto alertou, em audiência pública, que a mudança poderia representar uma perda potencial superior a R$ 10 bilhões para a rede educacional.
Para uma rede em que comunidades precisam protestar para garantir que salas continuem abertas, a retirada dessa proteção orçamentária não é uma discussão distante. Ela interfere na disputa política sobre quais áreas permanecem juridicamente protegidas contra mudanças anuais de prioridade do Executivo.
Militarização transforma escola em nova frente de disputa
Outra marca do governo Tarcísio foi a implantação das escolas cívico-militares. A legislação estadual aprovada em 2024 abriu caminho para a adoção do modelo em unidades paulistas e levou a discussão sobre militarização da educação ao Supremo Tribunal Federal.
O conflito envolve princípios de gestão democrática, função da escola pública e presença de agentes vinculados à estrutura militar no cotidiano educacional. A política passou a integrar um conjunto de mudanças que deslocam a rede para um modelo cada vez mais centralizado, submetido a controle administrativo, metas e novas formas de intervenção externa sobre as comunidades escolares.
Ao lado das plataformas, das avaliações de desempenho e da reorganização de unidades, as escolas cívico-militares representam uma disputa sobre quem define o cotidiano da escola: a comunidade que vive o território ou estruturas hierárquicas impostas de cima para baixo.
Avaliação de professores amplia conflito com a categoria
A política de avaliação docente se tornou outra frente de confronto em 2025 e 2026. A Apeoesp denuncia que os critérios implantados pela Secretaria permitem avaliações consideradas subjetivas e podem produzir perseguição, perda de aulas e injustiças contra professoras e professores.
Foi esse conflito que Aldo Santos levou para a manifestação da Nelson Monteiro Palma ao denunciar avaliações aplicadas a docentes e citar o caso de Sergio. A fala do dirigente conecta o fechamento do noturno a um ambiente mais amplo de precariedade trabalhista e controle administrativo sobre o magistério.
Para a categoria, não se trata apenas de discordar de uma ferramenta de avaliação. A denúncia é de que mecanismos que influenciam a permanência e a atribuição de aulas atingem profissionais que já trabalham numa rede em que mais da metade dos docentes estava sob contratos temporários em 2024.
Reorganização volta a ameaçar comunidades escolares
O fechamento de salas também se conecta a uma política histórica de reorganização da rede. Nos últimos anos, a Apeoesp voltou a denunciar mudanças de atendimento, divisão de escolas e redução de classes em diferentes municípios, afirmando que comunidades escolares são pressionadas a aceitar alterações sem participação efetiva nas decisões.
As manifestações de São Bernardo mostram como esse processo aparece na ponta. Para uma secretaria, retirar uma série pode ser registrado como reorganização; para uma comunidade, significa descobrir que o filho, a filha ou o trabalhador que estudava naquele bairro terá de procurar outra escola.
Quando isso acontece à noite, o impacto social se amplia porque o público atingido possui menos liberdade de horário e deslocamento. A reorganização deixa de ser apenas administrativa e passa a determinar quem consegue ou não permanecer na educação básica.
Uma política que pesa mais sobre a periferia
Quando cada episódio é observado separadamente, o governo pode apresentá-lo como uma decisão administrativa específica. Uma sala fechada por “demanda”, um aplicativo incorporado à rotina, um contrato temporário, uma concessão privada, uma mudança orçamentária ou uma escola reorganizada parecem medidas distintas.
Vistas em conjunto, porém, as denúncias e os documentos revelam uma transformação profunda da educação estadual paulista. A oferta diminui em determinados turnos, o trabalho docente permanece amplamente precarizado, plataformas aumentam o controle central sobre a sala de aula, empresas assumem funções permanentes das escolas e garantias públicas de financiamento são flexibilizadas.
É sobre a periferia que essas mudanças produzem seus efeitos mais duros. Quem pode pagar uma escola privada, reorganizar seu horário ou abrir mão do trabalho dispõe de alternativas que não existem para quem depende integralmente da rede pública.
No Ensino Médio noturno, essa desigualdade aparece sem disfarce. A população que ocupa essas salas é formada justamente por jovens e adultos que precisam trabalhar, cuidar da própria sobrevivência e ainda encontrar tempo para estudar.
Fechar o noturno é empurrar trabalhadores e trabalhadoras para fora da escola
A linguagem administrativa pode chamar a retirada de turmas de reorganização, remanejamento ou adequação à demanda. A experiência de quem depende da escola é mais concreta: a turma existia e deixa de existir; o estudante conseguia estudar depois do trabalho e passa a não conseguir; a escola estava aberta no horário necessário e deixa de estar.
É por isso que as comunidades de São Bernardo se recusam a esperar até que a última sala desapareça. Na Vila São Pedro, professoras e professores mobilizam o bairro antes que a Maurício de Castro fique apenas com terceiros anos; no Santa Terezinha, estudantes já enfrentam a redução na Nelson Monteiro Palma; no Grande Alvarenga, a Domingos Peixoto exige todas as séries para impedir que o turno seja condenado ao esvaziamento.
A denúncia que une as três escolas é simples: o fechamento não começa quando a última luz é apagada. Começa quando o Estado deixa de abrir a próxima turma.
“Só reclamar não basta”
Durante o ato na Nelson Monteiro Palma, Aldo Santos chamou os estudantes a continuar mobilizados e afirmou que a resistência precisa alcançar outras escolas e instâncias da Secretaria. Para o dirigente da Apeoesp, cada turma fechada amplia simultaneamente a exclusão educacional e a precarização do trabalho de professoras e professores.
“Só reclamar não basta — é urgente lutar”, afirmou Aldo na publicação sobre a manifestação. A frase sintetiza o caminho que as três comunidades já começaram a construir: abaixo-assinados, atos diante dos portões, pressão sobre a Unidade Regional de Ensino e organização de estudantes, trabalhadores e moradores.
Na Vila São Pedro, no Santa Terezinha e no Grande Alvarenga, a disputa deixou de ser apenas sobre uma grade de horários. Ela se tornou uma luta pelo direito de a população trabalhadora continuar encontrando uma escola pública aberta quando termina o expediente.
O QUE PODE SER FEITO
As comunidades já utilizam abaixo-assinados, manifestações, grêmios estudantis, comissões de professores e articulação sindical para pressionar a Unidade Regional de Ensino e a Secretaria Estadual da Educação. A Apeoesp de São Bernardo anunciou apoio à continuidade dos protestos e defende que a mobilização seja ampliada para impedir novos fechamentos.
A reivindicação central é assegurar não apenas as turmas que ainda existem, mas a abertura continuada de 1ª, 2ª e 3ª séries do Ensino Médio noturno. Sem a série de entrada, o período perde sua continuidade e caminha para o desaparecimento.
A defesa do noturno também pode ser levada aos Conselhos de Escola, Ministério Público, Defensoria Pública, Conselho Estadual de Educação, Conselho Tutelar e Assembleia Legislativa. A mobilização social, porém, permanece central porque são as próprias comunidades que conhecem as consequências concretas de perder uma escola ou um turno em seu território.
O QUE PODE ACONTECER A PARTIR DE AGORA
A organização das classes para 2027 torna os próximos meses decisivos. Na Maurício de Castro, a comunidade denuncia uma projeção que mantém apenas terceiros anos à noite; na Nelson Monteiro Palma, a Seduc já retirou as séries iniciais do noturno e anunciou concentração futura do atendimento em outra unidade; na Domingos Peixoto, a mobilização exige as três séries antes que o esvaziamento avance.
As manifestações podem crescer e alcançar a Unidade Regional de Ensino, a sede da Secretaria da Educação e órgãos de defesa do direito à educação. Aldo Santos já anunciou, na mobilização da Nelson Monteiro, disposição sindical para apoiar novos atos e ampliar a pressão.
O que será decidido agora determina se estudantes trabalhadores encontrarão uma sala aberta no próximo ano. Para as comunidades mobilizadas, esperar até o encerramento definitivo significaria reagir tarde demais.
A batalha, portanto, já começou.
FONTES CONSULTADAS
As informações sobre a EE Maurício de Castro foram obtidas nas publicações do professor Sergio Linhares Hora, no material da mobilização comunitária e no texto publicado pelo ABC da Luta. As informações e declarações sobre a EE Professor Nelson Monteiro Palma foram extraídas do vídeo do Viva ABC, das manifestações fornecidas à reportagem, da publicação e fala do dirigente da Apeoesp Aldo Santos e da resposta da Secretaria Estadual da Educação divulgada pelo Repórter Diário.
O manifesto da EE Professor Domingos Peixoto da Silva foi divulgado por Marcos Marques dos Santos Júnior e assinado por comissão de professores, estudantes e comunidade escolar, com apoio da Subsede da Apeoesp de São Bernardo. Os dados estaduais foram cruzados com documentos do Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público de Contas, Assembleia Legislativa, Secretaria Estadual da Educação e pesquisas acadêmicas, além de reportagens que originaram informações relevantes.
Entre as fontes centrais utilizadas estão o relatório das contas estaduais de 2024 do Tribunal de Contas, que registra 52,6% de docentes temporários; Relatório do TCESP sobre as contas de 2024 o parecer do Ministério Público de Contas sobre as fragilidades estruturais da educação; Parecer do MPC-SP sobre a Educação paulista a auditoria sobre acessibilidade; Auditoria do TCE sobre inclusão e acessibilidade o registro da Alesp sobre cerca de 40 mil docentes sem turmas; Audiência pública sobre professores sem aulas e o levantamento da Apeoesp revelado pela Folha de S.Paulo sobre pelo menos 96 turmas noturnas previstas para fechamento. Reportagem sobre fechamento de turmas noturnas
Também foram utilizados o estudo acadêmico sobre plataformização e a greve dos aplicativos; Estudo sobre plataformização da rede paulista o parecer sobre o convênio de R$ 45 milhões para plataformas de matemática; MPC-SP sobre o convênio de plataformas digitais a documentação oficial da PPP Novas Escolas; Documentação da PPP de 33 escolas e a comunicação oficial sobre a mudança constitucional que flexibilizou os cinco pontos adicionais anteriormente vinculados exclusivamente à educação. Seduc sobre a PEC aprovada em 2024
