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O Lado Esquerdo da Notícia

Você escolhe presidente. Mas sabe quem manda no Congresso?

Por Léo Duarte

Vídeo de Julia Cox usa humor para fazer uma provocação importante em ano eleitoral: enquanto a disputa pelo Planalto domina as atenções, Câmara e Senado têm poder para fazer direitos avançarem — ou impedir que avancem.

A eleição para presidente costuma virar o grande acontecimento político do país. Tem debate, pesquisa, discussão nas redes, conversa no trabalho e briga no grupo da família. Mas, quando chega a hora de escolher quem vai ocupar a Câmara dos Deputados e o Senado, muita gente dedica bem menos atenção a uma decisão que também pode determinar os rumos do país pelos próximos anos.

A humorista e criadora de conteúdo Julia Cox colocou o dedo nessa ferida em uma “aulinha de política” publicada nas redes sociais. Com humor, ela provoca quem acompanha atentamente a disputa presidencial, mas chega à urna sem conhecer direito as candidaturas ao Congresso. “O presidente não manda no Brasil”, diz Julia, antes de comparar o cargo ao de um síndico de um condomínio gigante.

A frase é uma provocação bem-humorada, não uma descrição literal da Constituição. Presidente tem muito poder: dirige a administração federal, nomeia ministras e ministros, pode iniciar projetos nos casos previstos pela Constituição, editar medidas provisórias, sancionar e vetar leis e enviar ao Congresso as propostas de orçamento. Mas Julia chega a uma questão essencial para quem quer entender onde o poder está: presidente nenhum transforma sozinho seu programa político em realidade.

E, para a classe trabalhadora, isso está longe de ser uma discussão abstrata. Jornada de trabalho, direitos sociais, impostos, orçamento e políticas nacionais passam, de diferentes maneiras, pelo Congresso. A Constituição entrega a deputadas, deputados, senadoras e senadores poder sobre matérias que vão do sistema tributário ao orçamento da União e aos programas nacionais de desenvolvimento.

Não adianta olhar só para o Planalto

O Congresso Nacional é formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Na Câmara estão 513 parlamentares; no Senado, 81. Juntas, as duas Casas fazem leis, alteram propostas, fiscalizam o Executivo, participam da definição do orçamento público e exercem poderes capazes de mudar o rumo de um governo.

Isso ajuda a entender uma contradição recorrente da política brasileira. Uma parcela do eleitorado acompanha durante meses cada movimento das candidaturas à Presidência, mas conhece muito menos as pessoas que está ajudando a colocar no Legislativo. Depois da eleição, porém, aquele Congresso que recebeu menos atenção passa a decidir sobre propostas que mexem diretamente com a vida do povo.

É justamente aí que a provocação de Julia Cox ganha força. Se uma pessoa defende determinada mudança social, não basta saber o que a candidata ou o candidato à Presidência pensa sobre ela. É preciso entender que, quando essa mudança depender de lei ou de alteração constitucional, haverá deputadas, deputados, senadoras e senadores com poder para aprová-la, modificá-la ou barrá-la.

Quer um exemplo? Olhe para o fim da escala 6x1

Poucas pautas mostram isso de maneira tão clara quanto a luta contra a escala 6x1. O movimento ganhou força fora do Congresso, impulsionado por trabalhadoras, trabalhadores e mobilizações que transformaram a jornada exaustiva em assunto nacional. Mas transformar essa reivindicação em mudança constitucional exige votos dentro do Legislativo.

Em maio deste ano, uma comissão especial da Câmara aprovou por 34 votos a 4 uma proposta que acaba com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso e reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas. O texto ainda precisa passar pelo Plenário da Câmara e, depois, pelo Senado.

É exatamente o tipo de situação que desmonta a ideia de que basta eleger um presidente favorável a uma pauta para vê-la virar realidade. Uma mudança constitucional precisa atravessar o Congresso e alcançar maiorias qualificadas. Quem ocupa aquelas cadeiras deixa, então, de ser personagem secundário e passa a ter voto sobre quantas horas milhões de pessoas poderão passar trabalhando.

Para quem enfrenta seis dias de trabalho para ter apenas um de descanso, isso significa tempo de vida. É tempo com as filhas e os filhos, tempo para estudar, cuidar da saúde, encontrar amigas e amigos, descansar ou simplesmente não estar trabalhando. A disputa parlamentar pode parecer distante até chegar àquilo que existe de mais concreto: quantas horas da própria vida pertencem ao trabalho e quantas sobram para viver.

O orçamento também é uma disputa por direitos

O poder do Congresso aparece também quando a discussão chega ao dinheiro público. A Constituição determina que parlamentares participem da decisão sobre plano plurianual, diretrizes orçamentárias e orçamento anual da União. A proposta orçamentária parte do Executivo, mas passa pelo Legislativo.

E orçamento não é apenas uma planilha gigantesca produzida em Brasília. Quando se decide quanto dinheiro público irá para determinadas políticas, decide-se também quais prioridades terão condições materiais de sair do papel.

SUS precisa de recursos. Educação pública precisa de recursos. Universidades e institutos federais precisam de recursos. Políticas de moradia, assistência social, cultura e proteção de direitos também dependem de financiamento público. Uma política pode estar escrita numa lei e continuar distante da população se não houver estrutura e dinheiro suficientes para executá-la.

Por isso, acompanhar quem controla o orçamento também é acompanhar uma disputa sobre direitos e prioridades. A pergunta não é somente quanto o Estado arrecada, mas quem terá força política para disputar onde esse dinheiro será colocado.

Deputadas e deputados não são figurantes da eleição

A Câmara representa a população e atualmente possui 513 cadeiras. Deputadas e deputados têm mandato de quatro anos e participam da produção das leis, das mudanças constitucionais, da fiscalização do Executivo e das decisões orçamentárias.

Isso significa que uma candidatura a deputada ou deputado não deveria ser avaliada apenas por uma fotografia bonita, um número fácil de decorar ou uma promessa genérica de “trazer recursos”. O mandato envolve decisões políticas sobre o modelo de sociedade que será construído.

Quando uma proposta sobre direitos trabalhistas chega ao Congresso, alguém vota. Quando uma mudança tributária é discutida, alguém vota. Quando o orçamento é analisado, parlamentares participam. Quando uma alteração na Constituição avança ou é derrotada, existem votos e forças políticas por trás daquele resultado.

É nesse momento que uma pergunta simples ganha importância: quando os interesses de quem vive do próprio trabalho estiverem em disputa, quais interesses aquela parlamentar ou aquele parlamentar defenderá?

E senador tem ainda oito anos de mandato

O Senado merece atenção especial nas eleições de 2026. Cada estado e o Distrito Federal têm três senadores, totalizando 81 integrantes, mas o mandato é de oito anos. Neste ano, serão renovados dois terços da Casa: 54 cadeiras estarão em disputa. Cada pessoa poderá escolher dois nomes para o Senado.

Além de participar da elaboração das leis, o Senado possui poderes exclusivos enormes. É responsável, por exemplo, por analisar indicações para o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República e a direção do Banco Central. Também exerce funções relacionadas às finanças públicas e julga determinadas autoridades em processos por crimes de responsabilidade.

Pense no tamanho disso: as pessoas escolhidas para essas 54 vagas permanecerão no Senado durante dois mandatos presidenciais inteiros. Decisões tomadas nas urnas em 2026 continuarão produzindo efeitos políticos até 2035.

E existe outra diferença importante. Enquanto todas as 513 cadeiras da Câmara estarão em disputa, o Senado será renovado parcialmente. O próximo Congresso, portanto, será formado tanto por parlamentares escolhidos agora quanto, no Senado, por integrantes eleitos em 2022.

Nem o veto presidencial encerra necessariamente uma disputa

Julia também lembra no vídeo que o presidente pode vetar uma lei. Pode mesmo. A Constituição permite ao chefe do Executivo vetar total ou parcialmente projetos aprovados pelo Legislativo.

Mas a história não necessariamente termina no veto. O Congresso tem competência constitucional para apreciar vetos presidenciais. Essa relação mostra por que a política brasileira não funciona como uma pirâmide na qual existe uma pessoa no topo dando ordens para todas as demais. Executivo e Legislativo possuem poderes próprios e disputam permanentemente os rumos das políticas nacionais.

Por isso, a metáfora do “síndico” usada por Julia é engraçada justamente porque exagera para chamar atenção. Presidente não é síndico e Congresso não é assembleia de condomínio. Mas a mensagem política que está por trás da piada é poderosa: quem olha apenas para a Presidência não está olhando para todo o poder que será distribuído numa eleição.

Para a esquerda, essa história é conhecida

A esquerda brasileira conhece bem o peso de um Congresso que não acompanha as mudanças defendidas nas urnas ou nas ruas. Direitos sociais não avançam apenas porque existe apoio popular ou porque o Executivo apresenta uma proposta. Há disputa de interesses, pressão econômica, bancadas organizadas, negociações e votações que podem alterar profundamente aquilo que chegou ao Parlamento.

Também é por isso que conquistas populares raramente nasceram apenas da vontade de quem ocupava um gabinete. Jornada de trabalho, previdência, saúde pública, educação, direitos das mulheres, igualdade racial, direitos da população LGBTQIA+ e tantas outras pautas avançaram porque houve organização social capaz de pressionar as instituições.

O Congresso é um desses territórios de disputa. E não existe motivo para deixar justamente esse espaço fora da conversa política enquanto se discute o futuro do país.

A democracia não deveria significar entregar um voto a cada quatro anos e desaparecer. Significa também acompanhar quem recebeu mandato, saber o que está sendo votado e cobrar posicionamento quando direitos entram em disputa.

Em 2026, a urna começa pelo Legislativo

Há até uma ironia na própria ordem de votação das eleições deste ano. No primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a primeira escolha na urna será para deputados e deputadas federais. Depois vêm deputadas e deputados estaduais ou distrital, primeiro voto para senadora ou senador, segundo voto para senador ou senadora, governador ou governadora e, somente no final, presidente da República.

Serão seis escolhas. Estarão em disputa as 513 cadeiras da Câmara e 54 das 81 vagas do Senado, além das assembleias legislativas, governos estaduais e Presidência.

A urna, portanto, obriga cada pessoa a passar pelo Legislativo antes de chegar à fotografia presidencial. A política cotidiana, porém, muitas vezes faz exatamente o contrário: concentra quase toda a atenção no último cargo que aparece na votação.

O alerta feito com humor por Julia Cox é para não chegar despreparado ou despreparada justamente nessa parte.

Política não termina no “confirma”

Mas existe um passo além do vídeo. Conhecer as atribuições de deputadas, deputados e senadores e senadoras antes da eleição é importante; acompanhar o que fazem depois dela é tão importante quanto.

Quem ocupa um mandato parlamentar deixa rastros públicos de sua atuação: projetos apresentados, votações, participação em comissões, discursos, emendas e outras atividades legislativas. É possível confrontar promessa com prática e descobrir se o discurso feito durante a campanha sobrevive quando chega a hora de decidir.

Para quem defende direitos sociais, essa fiscalização tem um sentido muito concreto. Não basta uma parlamentar dizer que está “ao lado do povo” se, nas decisões que atingem trabalhadoras e trabalhadores, sua atuação aponta para outra direção.

A política institucional precisa ser observada pelo que produz na vida real.

O presidente importa. O Congresso também decide o país

Julia Cox termina sua aula brincando com o quanto entendia de política alguns anos atrás. Talvez seja justamente isso que torne o vídeo tão fácil de reconhecer: o sistema político brasileiro não é simples, e muita gente passa pela escola sem aprender de maneira prática quem decide o quê.

Mas existe uma coisa que não deveria ser complicada.

Se uma proposta importante para sua vida precisa virar lei, alguém vai votar nela. Se envolve orçamento, haverá disputa pelo dinheiro. Se exige mudança na Constituição, será necessário conquistar votos no Congresso. Se passar por uma Casa, muitas vezes ainda terá de enfrentar a outra.

Por isso, prestar atenção em Câmara e Senado não diminui a importância da Presidência. Significa compreender que o poder não termina no Palácio do Planalto.

Em outubro, o Brasil não escolherá apenas quem vai ocupar a cadeira de presidente.

Vai escolher também uma parte enorme das pessoas que poderão ajudar direitos a avançar — ou trabalhar para impedir que avancem.

E talvez essa seja a principal lição da “aulinha” de Julia Cox: na hora de pensar política, o Congresso não pode continuar sendo lembrado só depois da eleição.

Crédito do vídeo

Esta matéria foi inspirada no vídeo “Aulinha de Política”, da humorista e criadora de conteúdo Julia Cox. O conteúdo original deve ser acessado no perfil/publicação original da autora clicando aqui.

Fontes

A reportagem consultou a Constituição Federal, especialmente as atribuições do Congresso Nacional e da Presidência da República, no Portal da Legislação da Presidência da República; informações oficiais do Senado Federal sobre as 54 cadeiras em disputa em 2026; orientações do TSE sobre a ordem de votação nas Eleições 2026; e a tramitação da proposta sobre o fim da escala 6x1 na Câmara dos Deputados.

COLABORE CONOSCO