Filho de trabalhadores rurais, Aparecido Alexandre da Silva atravessou a escola interrompida, a fábrica, os movimentos populares e quase três décadas de magistério antes de transformar a memória de sua família negra em livro. Aos 74 anos, continua ligado à literatura e à vida cultural no interior paulista.
Antes do professor: uma família negra e a memória do pós-abolição
Para entender a trajetória de Aparecido Alexandre da Silva, o Professor Cido, não basta começar pelo menino nascido em Cardoso, em 1951. O próprio Cido escolheu outro caminho em Os Filhos de Dona Francisca: memórias de um boia-fria a professor, publicado em 2025: voltou às gerações anteriores, procurou parentes, reuniu lembranças e tentou compreender de onde vinha uma família negra que atravessou o fim da escravidão, migrações entre Minas Gerais e São Paulo e décadas de trabalho em terras que não lhe pertenciam.
Essa escolha muda o sentido da biografia. Se a história começasse apenas no professor aposentado, seria fácil transformá-la na velha narrativa do menino pobre que estudou e “venceu”. Quando Cido começa pelo avô, pela mãe, pelo pai e pelos irmãos, aparece uma trajetória produzida dentro de relações de raça, classe, família, trabalho e acesso desigual à educação.
O nome Alexandre que Cido carrega está ligado ao avô paterno, Alexandre de Melo, homem negro que, segundo as memórias familiares reunidas pelo neto, nasceu no período da Lei do Ventre Livre, de 1871, ainda sob a escravidão. A família conta que Alexandre continuou vivendo e trabalhando próximo à família de antigos proprietários depois da abolição. Era conhecido como Alexandre de Melo, mas “Melo” não teria permanecido oficialmente em seus documentos.
Na família, atravessou gerações a interpretação de que a ausência do sobrenome teria servido para impedir que Alexandre fosse reconhecido como herdeiro dos Melo. Cido preserva essa versão como parte da memória familiar e, já adulto, passou a interrogar também as relações que sobreviveram à escravidão: até onde havia proximidade e amizade e onde continuavam dependência e formas de servidão?
Parte do que soube sobre o avô veio da irmã Maria de Lurdes, da tia Mônica e do Sr. Félix, amigo antigo da família. A investigação das próprias origens foi amadurecendo junto com a formação histórica e política de Cido, que passou a enxergar o passado familiar dentro de um país em que a abolição não foi acompanhada de distribuição de terra, renda, escolarização ou igualdade para a população negra.
A história prosseguiu na geração seguinte. João Alexandre da Silva, pai de Cido, nasceu em Douradinho, Minas Gerais, em 1909, e veio ainda criança para o interior paulista. Cido conta que os avós chegaram a receber um pequeno pedaço de terra no fundo de uma fazenda. Dona Francisca brincaria mais tarde que o terreno era tão pequeno que, se uma vaca se deitasse nele, o rabo ficaria para fora.
A piada guardada pela família carregava uma verdade maior. A liberdade jurídica conquistada em 1888 não significou autonomia econômica. Para aquela família negra, a terra continuaria sendo durante décadas um lugar de trabalho, sustento e dependência.
A carta que ninguém conseguia ler
Pelo lado materno, a história também começa em Minas Gerais. Francisca Coelho Duarte nasceu em Machado, em 1910, segundo a reconstrução familiar. Ainda menina, participou da migração para São Paulo, numa viagem que incluiu trechos a pé, trem e deslocamentos até a região de São José do Rio Preto.
Uma carta enviada em 1º de julho de 1922 ajuda a mostrar o mundo de onde Francisca saiu. Um tio que estava em São Paulo escreveu à família em Minas avisando que voltaria para buscá-la. A correspondência demorou a chegar e havia um problema ainda maior: dentro de casa, ninguém conseguia ler.
A avó Antônia trabalhava na colheita de café e planejava procurar um conhecido chamado Alemão para que ele lesse a carta. Antes disso, em 5 de setembro, o próprio filho apareceu. A família acabaria deixando Minas Gerais e seguindo para o interior paulista.
Francisca permaneceria sem escolarização formal, mas se tornaria justamente uma das pessoas que mais insistiriam para que as filhas e os filhos estudassem. A mulher que não teve acesso à escola passou a lutar para que a geração seguinte pudesse chegar até ela.
João e Francisca se casaram em 1935. Continuaram trabalhando em propriedades alheias e mudando de lugar conforme apareciam oportunidades. Cardoso, Vila Alves, Parisi, Fátima Paulista, Conde Prata e Valentim Gentil compõem essa geografia de trabalho e deslocamento.
Da união nasceram Maria de Lurdes, Jovelino, Osvaldo, Aparecida, José, Antônio e Aparecido. Cido não os apresenta como uma massa indistinta de sete crianças pobres; cada irmão aparece em suas lembranças com características e trajetórias próprias.
Maria de Lurdes, a mais velha, tornou-se uma das guardiãs da memória familiar. Jovelino aparece ligado a lembranças de sofrimento físico e afeto; Osvaldo, ao futebol e ao cuidado com a aparência. Aparecida, a Pia, ocupa lugar especial porque sua vontade de estudar enfrentou também limitações impostas às meninas, mostrando como pobreza e desigualdade de gênero se combinavam.
José, o Zé, atravessa grande parte da vida do caçula: aparece no transporte de estudantes, no cuidado com os pais e, décadas depois, na compra conjunta da propriedade que receberia o nome de Dona Francisca. Antônio é lembrado, entre outras coisas, pelo interesse em dirigir. José, Antônio e Cido carregaram “Alexandre” no nome em homenagem ao avô e ficaram conhecidos na família como “os três Alexandre”.
Dona Francisca educava sem ter ido à escola
No centro dessa família estava Dona Francisca. Seria um erro confundir sua falta de escolarização com falta de conhecimento. Cido recorda uma mulher que ensinava pela convivência, pelo trabalho e pelas decisões tomadas numa casa com poucos recursos.
Por ser o caçula, ele permaneceu por mais tempo perto da mãe antes de entrar regularmente na lavoura. Cuidava de animais, buscava água, levava comida para quem estava trabalhando e fazia tarefas domésticas. Aprendeu a cozinhar, preparar bolo, cortar couve e cuidar da casa.
Dona Francisca também cantava enquanto torrava café, lavava roupa e fazia outros serviços domésticos. Cido guardou na memória canções populares, sertanejas e religiosas. Ela morreria em 1996, aos 86 anos.
Foi a insistência na educação, porém, que atravessou gerações. Francisca defendia que a família precisava se aproximar da cidade para facilitar a ida das crianças à escola. Para comprar uniformes e materiais, chegou a vender galinhas.
Ela não apenas dizia que estudar era importante. Tentava criar condições concretas para que os filhos tivessem aquilo que lhe havia sido negado.
O nascimento do caçula
Na manhã de 9 de setembro de 1951, por volta das nove horas, Dona Francisca deu à luz o último dos sete filhos num rancho de sapé na Rua Sergipe, em Cardoso, na região de Votuporanga. João estava trabalhando numa empreitada de algodão.
Próximo dali havia um campo de pouso particular, e os irmãos mais velhos saíram para ver um avião que supostamente chegaria naquela manhã. Cido preserva a incerteza da história familiar: não sabe se o avião pousou. Sabe que ele nasceu.
O nome inicialmente pensado era Geraldo. Dona Francisca decidiu chamá-lo Aparecido Alexandre da Silva por ter nascido um dia depois da data em que a família recordava a celebração de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Em casa, virou Cido.
A infância foi marcada pela instabilidade do trabalho rural. A família se deslocava conforme apareciam lavouras e oportunidades. Não possuir terra significava que emprego, moradia e parte do destino familiar dependiam das condições das safras e das decisões de proprietários.
Ser o caçula retardou, mas não impediu, a entrada no trabalho. Cido situa por volta dos 15 anos o começo regular na lavoura. Antes disso, já ajudava em casa, cuidava dos animais e levava refeições para familiares que trabalhavam no campo.
O trabalho de crianças e adolescentes era naturalizado em muitas famílias rurais porque a sobrevivência dependia da participação de todos. Para Cido, porém, aquela realidade significou também menos tempo e menos condições para estudar.
A escola interrompida e o racismo ainda sem nome
Cido não completou o antigo primário quando criança. Em suas memórias, conta que o pai retirou ele e Antônio da escola antes da conclusão. A decisão mostra uma tensão dentro da própria família: Dona Francisca insistia nos estudos, enquanto o trabalho e as necessidades econômicas empurravam os filhos na direção contrária.
A infância também foi atravessada pelo racismo. Cido relembra situações de preconceito na escola, na cidade e nas relações sociais, mas não atribui ao menino de então a consciência que desenvolveria como adulto. Muitas violências eram naturalizadas, inclusive por quem as sofria.
Essa consciência seria construída depois, com a formação histórica, o contato com militantes, a investigação sobre a própria família e a aproximação com o movimento negro. Ao aprender a nomear o racismo, Cido também voltou às próprias lembranças e passou a enxergar nelas aquilo que, quando criança, não tinha instrumentos para compreender.
Entre 1967 e 1969, a família viveu em Conde Prata, numa fazenda do Dr. Alberto, e depois seguiu para Valentim Gentil. Foi ali que Cido começou a reconstruir a escolarização interrompida.
Em 1972, voltou a estudar pelo Mobral. Ainda viriam curso profissional, supletivo, ensino médio, universidade e muitos anos de estudo conciliado com trabalho.
Do interior para a fábrica
Antes da migração definitiva, Cido conseguiu, em 23 de julho de 1973, seu primeiro emprego registrado no Tanino, em Fernandópolis, onde o irmão já trabalhava. A empresa processava madeira de aroeira para a produção de material utilizado no curtimento de couro.
No primeiro dia, uma tora caiu sobre um de seus dedos perto do fim do expediente. Cido recorda que hesitou em procurar atendimento porque tinha medo de perder a vaga. A lembrança revela a insegurança de quem não podia tratar o salário como algo secundário.
Depois veio a Semenge Construção de Rodovia e Asfaltamento, que atuava em Valentim Gentil. Cido fazia diferentes serviços ligados à usina de asfalto, inclusive carregando areia e pedra. Ficou quase um ano, até que o primo Jair, já em São Paulo, prometeu ajudá-lo a conseguir trabalho na Vulcania.
Em 6 de janeiro de 1975, Cido deixou Valentim Gentil e foi para São Paulo.
A migração não foi um empreendimento solitário. Primos e irmãos que haviam chegado antes ofereceram teto, orientação e acesso ao mercado de trabalho. Primeiro Cido ficou na casa do primo Joãozinho; depois, com a chegada de José, os irmãos passaram a dividir um quarto.
Na Vulcania, fábrica de baterias na Vila Liviero, Cido foi registrado como prensista e trabalhou também com cilindro. Ficaria cerca de sete anos na empresa. O trabalho consumia boa parte do dia, mas havia uma vantagem decisiva: o turno fixo permitia organizar a volta à escola.
Estudar depois do expediente
Em 1977, Cido começou um curso de tornearia na Escola Modelo, em Santo André. A formação deveria durar cerca de um ano e meio, mas ele permaneceu aproximadamente dois anos porque tinha dificuldades com a técnica.
Foi ali que o mestre Cícero, dono da escola, depois de vê-lo responsável por uma turma, comentou que ele parecia ter jeito para professor. A observação não provocou uma mudança imediata. Cido ainda nem havia concluído o ensino médio.
Terminada a tornearia, Canhoto, encarregado da Vulcania, apresentou-lhe o COPI, em São Caetano do Sul. Entre 1978 e 1979, Cido fez ali o supletivo da quinta à oitava série. Saía da fábrica e seguia para a escola, muitas vezes caminhando e, quando conseguia, pegando carona.
Depois avançou para o ensino médio. Como a Vila Liviero não tinha escola que atendesse aquela necessidade, estudou fora do bairro. José comprou uma perua que utilizava para entregas durante o dia e, à noite, passou a transportar estudantes.
A família resolvia com os próprios recursos um problema coletivo: chegar à escola. Anos depois, Cido participaria da luta para que a Vila Liviero tivesse seu próprio ensino médio.
Igreja, Pastoral Operária e organização sindical
A retomada dos estudos coincidiu com outra formação. O irmão Zé Carlos insistia que ser sindicalizado não bastava; era necessário participar da vida da categoria. Em 1978, durante as mobilizações operárias, Rubinho da Sudeste começou a frequentar o grupo de jovens do qual Cido participava e falar sobre greve e organização sindical.
Cido acabou chegando a uma reunião no Centro Pastoral Vergueiro, onde se discutia a Oposição Sindical. O envolvimento político não aconteceu de uma vez. Ele próprio conta que, no começo, participava de reuniões sem compreender completamente todos os assuntos.
A igreja teve papel importante nesse processo. O seminarista Celso, depois ordenado padre, Didi, Raimundo Perillat, Ricardo e Anísio Batista aparecem entre as pessoas que o aproximaram da Pastoral Operária e do trabalho de base. No Centro Pastoral Vergueiro, Cido também encontrou debates sobre movimentos populares, sindicalismo e moradia.
Em 1978, a convite de Terezinha Zerbini, participou de um encontro no Mosteiro de São Bento ligado à luta pela anistia. Sueli Amaral e Cora, por sua vez, levaram discussões feministas para uma reunião realizada na casa de Cido. Nas eleições sindicais, ele passou a apoiar chapas da Oposição Metalúrgica.
A formação acontecia em muitos lugares ao mesmo tempo: escola, fábrica, igreja, associação de bairro, sindicato e movimentos populares. Mais tarde, como professor, Cido levaria para a sala de aula essa mesma percepção de que conhecimento não nasce apenas dentro da escola.
Da demissão a uma pequena lanchonete
Em 1981, a Vulcania entrou em crise e Cido foi demitido. Ricardo, da Pastoral Operária, tentou ajudá-lo oferecendo exemplares do jornal Movimento para venda. Cido conta que a experiência não funcionou: a timidez o impedia de abordar as pessoas.
Desempregado, associou-se a Renê e Marcos, conhecidos do grupo Jovens Amigos de Cristo, e os três compraram uma pequena lanchonete no Alto do Ipiranga. Cido ficou responsável pela cozinha e recorda com orgulho a feijoada que preparava, habilidade que relacionava ao que aprendera com Dona Francisca.
A experiência durou pouco. Com dificuldades financeiras, o estabelecimento ainda sofreu um assalto à mão armada numa madrugada de 1982. Os sócios acabaram vendendo o negócio.
Cido também relaciona àquele período uma experiência de racismo. Numa negociação envolvendo a lanchonete, conta que sua condição de sócio foi escondida inicialmente para que fosse apresentado ao comprador apenas como cozinheiro. Anos depois, ao reconstruir a própria história, passou a enxergar o episódio também pela condição de homem negro.
Alfredo Boulos e a consciência das próprias raízes
Depois da lanchonete, Cido voltou à indústria. Em 1982, conseguiu emprego na Shelmar, empresa de embalagens em São Bernardo do Campo. Trabalhava em turnos diferentes e precisou adaptar novamente os horários de estudo à fábrica.
Naquele período frequentou o Colégio Técnico Magno, no Rudge Ramos. Ali encontrou o professor de História Alfredo Boulos, a quem atribui papel decisivo no aprofundamento de sua consciência racial.
Durante uma aula sobre a questão negra, Boulos abriu espaço para que Cido participasse da discussão e depois o incentivou a pesquisar as próprias raízes. Cido o considera um divisor de águas em sua trajetória como homem negro.
A consciência racial não nasceu naquele encontro. Já havia lembranças de racismo, perguntas sobre a família e participação política. Boulos ajudou a reunir essas experiências numa reflexão histórica.
Antes mesmo de assumir regularmente uma sala de aula, Cido começou a participar de palestras em escolas e grupos de jovens sobre relações raciais. O futuro professor já transformava memória familiar em pergunta sobre a história do país.
1983: panfletagem, detenção e greve geral
Na preparação da greve geral de 21 de julho de 1983, Cido saiu para distribuir panfletos na região da Vila Liviero com outros militantes. Em sua autobiografia, conta que a polícia foi chamada e o grupo acabou detido.
Cido recorda que havia orientação para não carregar documentos pessoais e que acabou liberado sem fichamento. No dia da paralisação, trabalhadores de outras empresas passaram pela Shelmar convocando a adesão.
Os colegas de Cido não pararam. Ele se viu diante de uma contradição: havia sido detido distribuindo material da greve, mas sua própria fábrica seguia funcionando.
Decidiu sair sozinho. Juntou-se a trabalhadores de empresas vizinhas e caminhou de São Bernardo do Campo até a Vila Liviero, chegando em casa de madrugada. No dia seguinte, soube que o irmão José, Zé Carlos e outras pessoas haviam sido presas durante piquetes em garagens de ônibus. Segundo sua memória, foram libertadas depois da atuação do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh.
Cinco anos antes, Cido ainda dizia compreender pouco das reuniões sindicais. Agora tomava decisões políticas mesmo quando os colegas mais próximos escolhiam permanecer na fábrica.
Macisa: fábrica e universidade no mesmo dia
Em janeiro de 1984, Cido foi demitido da Shelmar. Um mês depois começou a trabalhar na Macisa.
A data ficou marcada: 20 de fevereiro de 1984 foi também o dia em que iniciou a graduação em História na FAI — Faculdades Associadas do Ipiranga. Durante os anos seguintes, fábrica e universidade correriam juntas.
Cido recebeu inicialmente bolsa integral obtida por meio de sua relação com a igreja e Dom Celso. Depois decidiu abrir mão do benefício e utilizar o auxílio educacional oferecido pela Macisa, pagando a diferença. Em suas memórias, explica que considerava contraditório manter a bolsa integral enquanto militava pelos direitos das e dos estudantes.
O curso previsto para três anos levou quatro por causa de uma disciplina pendente. A universidade foi feita em meio ao trabalho, ao transporte, à militância e às dificuldades acadêmicas.
Na Macisa, Cido integrou a comissão de fábrica. Participou das mobilizações dos trabalhadores químicos e recorda que, em 1985, a empresa chegou a um acordo pela jornada semanal de 40 horas, experiência que ele considera pioneira no setor.
Seu nome chegou a ser cogitado para a direção sindical, mas outro trabalhador ficou com a vaga. Cido já pensava em deixar a categoria e seguir outra carreira.
Em 1987, pediu para sair da Macisa.
Queria ser professor.
Vila Liviero: quando estudar virou luta do bairro
Enquanto trabalhava e estudava, Cido também disputava os rumos da Vila Liviero, onde viveu de 1975 a 1987. A SAVIL — Sociedade Amigos do Bairro da Vila Liviero tornou-se um dos principais espaços dessa atuação.
Em 1983, Zé Carlos assumiu a presidência da entidade. Cido tornou-se presidente em 1985. Segundo suas memórias, a associação era antes muito ligada a bailes e atividades recreativas; as novas gestões abriram mais espaço para reivindicações comunitárias, movimentos populares e debates políticos.
Em 1986, no período anterior à Assembleia Nacional Constituinte, a SAVIL promoveu um mês de debates. Cido recorda participações de nomes como Lula, Marta Suplicy, Luiz Eduardo Greenhalgh e Dom Paulo Evaristo Arns.
Uma reivindicação tinha significado particular para ele: uma escola de ensino médio no bairro. Cido sabia o que a ausência significava porque precisara estudar fora e vira o irmão transportar estudantes à noite.
A disputa pelo espaço da escola envolveu conflitos locais, inclusive em torno de uma área também utilizada para futebol. A mobilização atravessou diferentes diretorias da associação e, em 1989, a comunidade conquistou a EE Henrique de Sousa Filho, a Henfil.
Anos depois, Cido voltaria à escola. Desta vez, para dar aula.
Educabras: o primeiro dia de professor
A carreira docente começou em 1987, ainda no último ano da graduação. Marluce, conhecida de Cido ligada à igreja, avisou que havia aulas no Educabras, escola particular próxima ao Museu do Ipiranga.
Cido assumiu turmas de jovens e pessoas adultas da suplência, no ensino fundamental e médio. Ficou ali durante dois semestres e depois indicou Isabel, a Bel, companheira da universidade e ligada à Pastoral Operária.
Na autobiografia, recorda o “frio na barriga” do primeiro dia. Já fazia palestras sobre relações raciais, mas assumir uma turma regularmente era outra responsabilidade.
A Educação de Jovens e Adultos não era uma realidade distante. Cido conhecia por dentro a experiência de interromper os estudos, voltar adulto, trabalhar durante o dia e organizar a vida para chegar à escola.
Naquele período, saiu da Vila Liviero, viveu em Heliópolis e depois no centro de São Paulo, onde, segundo suas memórias, morou com a companheira Malú até 1999.
1988: a escola pública e a APEOESP
A entrada de Cido na rede estadual ocorreu em fevereiro de 1988. Uma biografia pública divulgada em 2026 situa em 9 de fevereiro seu ingresso no serviço público e sua filiação à APEOESP. No livro, Cido recorda o primeiro dia na EE Arco-Íris, em Diadema, em 10 de fevereiro, quando a professora Deise o aproximou da militância sindical num momento em que a categoria iniciava uma greve.
Naquele começo, também lecionou na EE Professor Gomes Cardim. A mudança de profissão não trouxe estabilidade imediata. Nos primeiros anos, Cido circulou por diferentes escolas e precisou disputar aulas.
O trabalhador industrial havia saído da fábrica, mas sua compreensão sobre salário, jornada, organização coletiva e direitos entrou na escola com ele.
Voltar como professor à escola conquistada pelo bairro
Em 1991, Cido começou a trabalhar na Henfil, a escola pela qual participara da mobilização comunitária anos antes. Ele recorda ter hesitado porque não queria que sua presença fosse vista como benefício pessoal decorrente da luta do bairro. Outros professores insistiram para que assumisse as aulas.
Aquela volta reunia dois momentos da mesma história. Estava ali o morador que precisara sair da Vila Liviero para estudar e ajudara a reivindicar uma escola. E estava o professor que agora entrava naquele prédio para trabalhar.
No fim de 1992, a permanência no magistério ficou ameaçada pela falta de aulas. O professor Ari ajudou Cido a procurar escolas onde pudesse manter o vínculo. Ele trabalhou por um período na região da Água Funda, em São Paulo, e conseguiu continuar também em São Bernardo do Campo.
Tornar-se professor não significou conquistar imediatamente segurança profissional. Mesmo formado e com experiência, Cido dependia da atribuição de aulas e da existência de vagas.
1993: a Assembleia Legislativa ocupada
Em 1993, durante uma greve do magistério estadual no governo Luiz Antônio Fleury Filho, Cido participou da ocupação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
Conta que, no primeiro dia, teve uma forte dor de cabeça e saiu. Quando retornou, os acessos estavam bloqueados. Conseguiu entrar por uma abertura utilizada para levar água às professoras e aos professores que permaneciam no prédio.
Dessa vez ficou até o final. Recorda atividades culturais, a presença do dramaturgo Plínio Marcos e a retirada das educadoras e dos educadores durante a noite.
A greve conectava duas etapas da mesma trajetória. Cido havia conhecido a organização coletiva na indústria e agora encontrava conflitos semelhantes no magistério: salário, jornada, condições de trabalho e decisões governamentais continuavam fazendo do professor também um trabalhador.
Cursinho popular e formação de professoras
Em 1994, professoras e professores ligados à Henfil organizaram um cursinho popular aos sábados, e Cido participou da iniciativa. A comunidade que lutara para conquistar uma escola de ensino médio agora criava caminhos para aproximar jovens da universidade.
Cido guardou a lembrança de estudantes daquele cursinho que posteriormente chegaram ao ensino superior e, em alguns casos, ao magistério.
Naquele mesmo ano, a professora Regina, diretora da Henfil, avisou Cido sobre vagas no CEFAM — Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério. A seleção envolvia prova e defesa de projeto.
Cido propôs trabalhar assuntos que considerava pouco discutidos na escola: política, religião, futebol e gênero. Foi aprovado e assumiu em 10 de setembro de 1994, lecionando Sociologia.
CEFAM: ensinar quem estava se preparando para ensinar
No CEFAM, Cido trabalhava com jovens que poderiam em pouco tempo estar diante das próprias turmas. A experiência começou sem idealização. Ele recorda uma turma de quarto ano formada por estudantes cansadas depois de permanecer grande parte do dia na instituição.
No primeiro contato, uma aluna se despediu com um “vai com Deus”, frase que Cido interpretou inicialmente como desejo de que ele não voltasse. A convivência mudaria sua leitura.
Durante uma excursão a Paranapiacaba, conversou mais longamente com as estudantes e compreendeu uma preocupação concreta: a conclusão do curso significaria também o fim da bolsa recebida no CEFAM. Para jovens de famílias trabalhadoras, terminar a formação podia significar perder uma renda importante.
Cido conhecia aquela lógica. Passara anos estudando condicionado pelo salário, pelo transporte e pelos horários de fábrica. A experiência reforçou uma ideia que atravessaria sua prática: não se pode interpretar o comportamento de estudantes ignorando o mundo que existe fora da escola.
Ele também continuava aprendendo com colegas. Geraldo Malta, professor de Português, é lembrado por aproximar literatura, História e Sociologia e por apresentar obras como Menino de Engenho, de José Lins do Rego, e Os Bruzundangas, de Lima Barreto.
Mulheres do Terceiro Milênio
Em 1996, Cido desenvolveu no CEFAM o projeto Mulheres do Terceiro Milênio, inspirado na obra de Rose Marie Muraro. O trabalho foi realizado em parceria com a professora de Artes Rosalina e teve participação do grêmio estudantil.
Em Sociologia, as estudantes discutiam questões de gênero; em Artes, trabalhavam imagens de mulheres para a capa do projeto. Cido recorda especialmente uma composição que colocava lado a lado uma estilista jovem e uma mulher indígena idosa, abrindo espaço para discutir idade, aparência e representações femininas.
O encerramento contou com a participação da então deputada federal Marta Suplicy. A experiência retomava um tema que havia entrado na formação de Cido ainda nos anos 1970, quando Sueli Amaral e Cora levaram discussões feministas para sua casa.
Anos depois, uma ex-aluna contou que ainda guardava o livro utilizado no projeto e pretendia mostrá-lo à filha.
A presença de um professor negro
A experiência racial no CEFAM ocupa lugar particular nas memórias de Cido. Ele conta ter sido o único professor negro daquele espaço naquele período.
Anos depois, uma antiga estudante negra, Taís, entrou em contato pelas redes sociais. Segundo Cido, ela contou que sua presença como professor negro havia sido significativa durante a adolescência. Posteriormente, cursou Serviço Social e enviou ao antigo professor seu trabalho de conclusão.
O episódio não transforma representatividade em solução para o racismo. Uma professora ou um professor negro não elimina uma estrutura escolar desigual. Mas a presença de pessoas negras em posições de autoridade intelectual comunica quem pode ensinar, falar e produzir conhecimento.
Para Cido, essa percepção dialogava com a própria trajetória. Ele havia levado anos para reconhecer como racismo experiências vividas na infância. Agora percebia também como presença e ausência negras dentro das instituições tinham significado para estudantes.
A escola para além do portão
A prática pedagógica de Cido passou a incluir cinema, teatro, passeios e diferentes espaços da cidade. Numa atividade do CEFAM, levou estudantes a São Paulo para assistir a Central do Brasil. Na Avenida Paulista, uma jovem que morava numa região distante de São Bernardo contou que nunca havia estado ali.
A observação ficou em sua memória porque revelava outra dimensão da desigualdade: pessoas podiam morar na mesma região metropolitana e ter acessos muito diferentes à própria cidade.
Para estudantes de famílias de baixa renda, chegar a cinemas, teatros e áreas centrais não era necessariamente parte do cotidiano. A escola podia ajudar a produzir esse acesso.
Cido conhecia o problema pelo caminho inverso. Durante anos, precisara calcular como sair da fábrica e chegar ao supletivo, caminhar, pegar carona ou depender do transporte do irmão. Como professor, o deslocamento deixava de ser apenas obstáculo e passava também a funcionar como experiência pedagógica.
“Eu sou a Macabéa”
Uma das experiências que melhor sintetizam sua forma de ensinar aconteceu depois de estudantes entrarem em contato com A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. A turma disse ter compreendido pouco da obra.
Cido escreveu na lousa: “Eu sou a Macabéa.”
Não estava dizendo que sua vida era idêntica à da personagem. Começou contando a primeira vez em que tomou ki-suco e aproximou aquela experiência da descoberta da Coca-Cola por Macabéa.
A conversa abriu caminho para as histórias das próprias e dos próprios estudantes: migrações, famílias vindas de Minas Gerais e do Nordeste, pobreza, relações afetivas e deslocamentos. A literatura deixou de aparecer como objeto pertencente a outro mundo e passou a ser lida também a partir das experiências existentes na sala.
Cido relaciona essa prática a referências como Paulo Freire e Jean Piaget. O princípio era que estudantes não chegam vazios à escola. Levam consigo trabalho, família, território, memória e formas de compreender o mundo.
Sua própria vida dava materialidade a essa ideia. Quando voltou à escola adulto, Cido carregava anos de experiência rural e industrial. Não dominar um conteúdo escolar nunca significou não possuir conhecimento.
EJA: uma história conhecida por dentro
Essa compreensão ganhava peso especial na Educação de Jovens e Adultos. Cido havia sido exatamente o estudante que precisou retornar depois de interromper a escolarização e que estudava após o expediente.
Para ele, pessoas deixavam a escola por motivos concretos: trabalho, pobreza, migração, responsabilidades familiares, distância e falta de condições materiais para permanecer.
Valorizar essas experiências não significava substituir ensino por conversa informal. O episódio de Macabéa mostra justamente o contrário: Cido usava aquilo que estudantes conheciam para construir uma entrada na literatura, na História, na Sociologia e na Filosofia.
Greve, reposição e compromisso com a escola pública
O período no CEFAM chegou ao fim em 2000, ano de outra greve da rede estadual. Cido recorda que aderiu à paralisação e ficou isolado entre colegas daquela unidade.
Depois da greve, houve reposição aos sábados. Cido utilizou parte daqueles encontros para trabalhar filmes, documentários e debates históricos.
Para ele, defender o direito de greve e cumprir a reposição não eram atitudes incompatíveis. Ambas faziam parte de sua relação com a escola pública e com os direitos de trabalhadoras, trabalhadores e estudantes.
Rappin' Hood entra na escola
Nos primeiros anos da década de 2000, Cido passou por escolas como Jorge Rahme, Ayrton Senna, 20 de Agosto, Clóvis de Lucca e Santa Dalmolin, além de outras unidades de São Bernardo do Campo. Racismo, desigualdade, cultura, trabalho e participação política continuaram atravessando suas atividades.
Em 2002, na EE Ayrton Senna, convidou o rapper Rappin' Hood para conversar com estudantes. Cido já o conhecia de uma experiência anterior relacionada à educação popular em Heliópolis.
Segundo sua memória, uma atividade inicialmente pensada para um grupo despertou interesse muito maior e mobilizou grande parte da escola. A presença do rapper permitia discutir música, periferia, identidade negra, desigualdade e racismo a partir de uma produção cultural próxima do universo de muitas e muitos estudantes.
No ano seguinte, na Santa Dalmolin, duas estudantes defenderam que uma atividade semelhante fosse aberta para toda a escola. Cido soube posteriormente que uma delas seguiu estudos em Sociologia e outra se tornou professora de Geografia, reencontrada por ele durante uma greve.
Para Cido, esses reencontros mostravam que discussões realizadas na escola podiam continuar circulando muito tempo depois.
Relações raciais dentro da escola
A questão racial ganhou espaço cada vez mais sistemático em seu trabalho. Cido desenvolveu atividades relacionadas ao 20 de Novembro, discutiu a história da população negra e convidou militantes para conversar com estudantes.
Na escola Iolanda Noronha, uma dessas atividades contou com a participação de Aldo Santos. Cido recorda que, depois do encontro, uma coordenadora falou sobre assumir mais explicitamente sua identidade negra e baiana; posteriormente, lembra a filha dela chegando à escola com tranças rastafári.
Na memória de Cido, o episódio mostrou que a escola podia abrir espaço para conversas sobre negritude e pertencimento racial que muitas vezes ficavam abafadas.
Sua educação antirracista não se resumia a novembro nem à presença de um professor negro. Ligava conteúdo, ancestralidade, representação, história brasileira e experiências concretas de racismo.
Da oposição metalúrgica à APEOESP
A militância na APEOESP se aprofundou especialmente em São Bernardo do Campo. Registros sindicais posteriores incluem Aparecido Alexandre da Silva entre conselheiros estaduais e regionais.
Sua militância docente não começou do zero. Era continuidade da formação adquirida na Oposição Metalúrgica, na Pastoral Operária, na comissão de fábrica e nos movimentos comunitários. Mudou o local de trabalho; permaneceram questões de salário, direitos, organização coletiva e poder.
Em 9 de dezembro de 2004, a Câmara Municipal de São Bernardo do Campo concedeu ao Professor Aparecido Alexandre da Silva o título de Cidadão Emérito, por meio do Decreto Legislativo nº 861, de autoria do então vereador Aldo Josias dos Santos.
Em 2007, Cido tornou-se efetivo na EE Mizuho Abundância, onde permaneceu até a aposentadoria, em 2014. Em suas memórias, contabiliza 28 anos de atuação no Estado de São Paulo, lecionando História, Filosofia e Sociologia.
Movimento negro e participação partidária
A atuação no movimento negro atravessa toda a trajetória adulta de Cido. A consciência racial conecta o avô Alexandre de Melo, as experiências de racismo da infância, o incentivo de Alfredo Boulos, as palestras que antecederam a carreira docente, a presença como professor negro e o trabalho pedagógico desenvolvido ao longo das décadas.
A participação partidária também aparece em diferentes momentos. Em 2011, Aparecido Alexandre da Silva, identificado com Valentim Gentil, esteve entre os signatários de uma tese apresentada ao debate interno do PSOL paulista. Em documento partidário de 2021, aparece como presidente do PSOL de Valentim Gentil. Em 2022, uma apresentação biográfica o identificava como professor de História aposentado, militante do movimento negro, ligado à APEOESP de São Bernardo e filiado e militante do partido.
O PSOL entrou, assim, numa trajetória política que já vinha de muito antes: Oposição Metalúrgica, Pastoral Operária, luta pela anistia, associação de moradores, comissão de fábrica, APEOESP e movimento negro.
Voltar à terra
Antes mesmo da aposentadoria, outro movimento havia começado. Em 2012, Cido e o irmão José compraram uma chácara de aproximadamente 20 mil metros quadrados em Valentim Gentil.
José havia retornado ao interior muito antes para ajudar a cuidar dos pais. A compra conjunta retomava uma relação entre os irmãos construída ao longo de décadas.
A propriedade tinha um significado particular para filhos de uma família que passara a vida trabalhando em terras de outras pessoas. Agora os irmãos podiam decidir o que fazer naquele espaço.
Boa parte da área era pasto. Aos poucos começaram a plantar frutas, alguns pés de café e arroz. Cido voltava à terra numa condição profundamente diferente daquela do adolescente incorporado ao trabalho rural.
O retorno não significava idealizar a roça pobre da infância. A própria trajetória de Cido mostrava quanto aquela realidade havia restringido seu direito à escola. Agora, a relação com a terra podia ser construída com outro grau de autonomia.
Estância Dona Francisca
Cido relaciona parte do projeto da propriedade a debates que conheceu por meio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, sobre terra, produção de alimentos e qualidade de vida no campo.
A propriedade recebeu o nome de Estância Dona Francisca.
A homenagem tem uma força histórica particular. Francisca viveu grande parte da vida trabalhando em terras alheias e insistiu para que os filhos estudassem. Décadas depois, dois deles colocavam seu nome numa pequena propriedade da família.
A Estância passou também a receber visitas de crianças e jovens para conhecer aspectos da cultura rural, observar plantações e experimentar produtos como caldo de cana. Cido acompanhava estudantes e apresentava o espaço.
O menino que havia levado comida para familiares na lavoura e perdido parte da escolarização em meio às exigências do trabalho voltava ao campo como educador.
Dona Francisca quis aproximar os filhos da cidade para que pudessem chegar à escola. Décadas depois, a terra que recebeu seu nome passou também a receber estudantes.
Escrever para que a família não desapareça
Em 2025, Cido publicou Os Filhos de Dona Francisca: memórias de um boia-fria a professor, pela Coopacesso, em Santo André. A primeira edição tem 120 páginas e ISBN 978-65-5210-024-5. A coordenação e edição são de Ana Valim; o projeto gráfico, diagramação e elementos visuais são creditados a Léo Duarte; as fotografias pertencem ao arquivo pessoal do autor.
A capa traz Dona Francisca.
O título revela uma escolha importante. Embora Cido escreva e sua trajetória organize boa parte da narrativa, o livro não apresenta a transformação de boia-fria em professor como façanha exclusivamente individual. Ele colocou os filhos e Dona Francisca no centro.
A escrita retorna ao avô Alexandre, às histórias preservadas pela irmã Maria de Lurdes, às migrações, aos irmãos, à roça, à fábrica, aos movimentos populares, às escolas e às pessoas encontradas pelo caminho.
Mais de um século separa dois acontecimentos da mesma família.
Em 1922, uma carta chegou, mas ninguém dentro da casa conseguia lê-la.
Em 2025, um descendente daquela família publicou um livro sobre os seus.
Entre os dois acontecimentos houve trabalho rural, exclusão escolar, migração, racismo, Mobral, supletivo, fábrica, universidade, sindicato, escola pública, movimentos sociais e solidariedade familiar.
Ao publicar, Cido também deslocou Dona Francisca da memória doméstica para o espaço público. A mulher negra, trabalhadora rural e sem escolarização formal passou a ocupar a capa e o título de um livro escrito pelo filho professor.
Da educação para a política cultural
A aposentadoria não encerrou a vida pública de Cido. Em 12 de maio de 2025, a Portaria nº 6.000 de Valentim Gentil o nomeou representante titular da Literatura no Conselho Municipal de Políticas Culturais, com Bianca Ribeiro como suplente.
A literatura passou a ocupar também um espaço institucional numa trajetória antes concentrada principalmente em educação, movimentos populares e sindicalismo. No caso de Cido, escrever tornou-se outra forma de trabalhar memória, educação e pertencimento.
Em 16 de maio de 2026, seu nome apareceu entre autoras e autores convidados para um Café Literário na subsede da APEOESP de São Bernardo do Campo, durante o lançamento do livro Herança Mal Dita, de Lúcia Peixoto.
A subsede havia sido um dos espaços centrais de sua militância docente. Já aposentado, Cido voltava a circular ali também como autor.
Poucas semanas depois, o Diário Oficial de Votuporanga de 3 de junho de 2026 registrou Aparecido Alexandre da Silva, de Valentim Gentil, entre os mediadores da atividade “O menino que aprendeu a ler”.
O menino que não concluíra o primário na infância, voltara a estudar pelo Mobral e passara anos conciliando fábrica e escola aparecia, aos 74 anos, participando de uma atividade pública ligada à leitura.
Uma história maior do que “superação”
Ao olhar para a trajetória inteira, existe uma tentação de organizar tudo como uma sequência de vitórias: boia-fria, operário, universitário, professor, escritor. Essa leitura diminuiria justamente aquilo que dá densidade à história.
Cido não saiu da roça simplesmente porque decidiu estudar. A escola havia sido interrompida e precisou ser retomada pelo Mobral. Depois vieram curso profissional, supletivo, ensino médio e universidade, quase sempre conciliados com trabalho. Em diferentes momentos, colegas, irmãos, professores, igreja, movimentos sociais, sindicato e políticas públicas ajudaram a manter caminhos abertos.
Também não deixou a fábrica e imediatamente encontrou uma carreira estável. Houve desemprego, lanchonete, assalto, novos empregos industriais, turnos difíceis, detenção durante panfletagem, comissão de fábrica, universidade e instabilidade nos primeiros anos do magistério.
A escola da Vila Liviero precisou ser conquistada pela comunidade. Tornar-se professor não encerrou as greves. A formação universitária não eliminou o racismo. A aposentadoria não encerrou a educação.
Chamar tudo isso apenas de superação individual deslocaria para uma pessoa a explicação de uma trajetória construída dentro de desigualdades e lutas coletivas.
Cido fez escolhas, estudou, trabalhou, militou e ensinou. Mas fez tudo isso dentro de condições históricas que algumas vezes fecharam portas e, em outras, foram transformadas pela ação de muitas pessoas.
No centro dessa história continua uma mulher que não frequentou a escola.
Dona Francisca queria que as filhas e os filhos estudassem e defendia mudanças na vida da família para tornar isso possível. Nem todas e todos tiveram as mesmas oportunidades. O trabalho interrompeu estudos, a pobreza impôs limites e as meninas enfrentaram restrições próprias.
Mas aquela insistência teve consequências.
O caçula tornou-se professor. Trabalhou com jovens que também enfrentavam dificuldades para permanecer na escola, participou de cursinho popular, levou estudantes ao cinema, discutiu racismo, gênero, política e cultura, fez greve e defendeu a escola pública. Depois voltou à terra e ajudou a dar o nome da mãe a um espaço que também recebeu estudantes.
Por fim, escreveu.
A trajetória de Cido liga, assim, dois acontecimentos separados por mais de um século: uma família diante de uma carta que ninguém em casa conseguia ler e um descendente dessa mesma família escrevendo um livro sobre os seus.
Entre uma coisa e outra estão a roça, a fábrica, o racismo, a migração, o sindicato, os movimentos populares, a escola e muitas pessoas que impedem que essa história possa ser contada como obra de um homem sozinho.
No começo estava uma família.
No centro dela, Dona Francisca.
