Grito questiona que independência é essa
Todo 7 de Setembro o Brasil oficial celebra a Independência. Mas há mais de três décadas movimentos populares fazem uma pergunta que continua incômoda e necessária: independência para quem? É desse questionamento que nasceu o Grito dos Excluídos e Excluídas, uma mobilização que ocupa a Semana da Pátria para colocar no centro quem vive as desigualdades, as violações de direitos e as lutas que raramente aparecem nos palanques oficiais.
Em 2026, o 32º Grito dos Excluídos e Excluídas mantém o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!” e assume o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. Em Rio Grande da Serra, esse chamado nacional encontra um território marcado por conflitos muito concretos: defesa das águas, preservação dos mananciais, direito à cidade, participação popular e enfrentamento a grandes obras que alteram a vida das comunidades.
É por isso que o Grito que chega ao município no dia 7 de setembro não é apenas mais uma atividade de calendário. Ele é resultado de semanas de organização, reuniões, formação política, articulação entre movimentos sociais, pastorais, organizações populares e ambientalistas, além de uma mobilização que cresceu junto com a luta contra a transposição das águas do Rio Pequeno para o Sistema Alto Tietê.
Uma história que começou muito antes de Rio Grande da Serra
O Grito dos Excluídos e Excluídas nasceu no processo da 2ª Semana Social Brasileira, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e ganhou força com a Campanha da Fraternidade de 1995, dedicada à exclusão social. A primeira edição aconteceu naquele mesmo ano, no dia 7 de setembro, e mobilizou cerca de 170 localidades em diferentes regiões do país.
Desde então, “Vida em Primeiro Lugar” tornou-se o eixo permanente da mobilização. O sentido político do Grito sempre foi claro: disputar o significado da Independência e trazer para as ruas as vozes de quem enfrenta fome, falta de moradia, racismo, violência, desemprego, destruição ambiental, desigualdade e ausência de direitos.
No ABC, essa história também não começou agora. O Grito já reuniu movimentos sociais, pastorais, sindicatos, organizações de mulheres, ambientalistas, juventudes e coletivos populares em diferentes cidades da região. Nos últimos anos, atividades passaram por São Bernardo do Campo, Diadema e Mauá. Em 2026, Rio Grande da Serra recebe essa construção regional justamente em um momento em que o município está no centro de uma grande disputa ambiental e política.
O Grito foi sendo construído reunião por reunião
A preparação em Rio Grande da Serra envolveu uma sequência de encontros entre movimentos sociais, pastorais e organizações locais. Na quarta reunião de organização, realizada na Paróquia São Sebastião, o encontro começou com uma atividade de espiritualidade conduzida pelo diácono Aparecido e avançou para uma formação sobre a transposição do Rio Pequeno, apresentada por Amaury Pinheiro, integrante do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente de Rio Grande da Serra.
A reunião não ficou apenas na discussão. Os grupos dividiram tarefas, organizaram responsabilidades e começaram a preparar de forma concreta a atividade do 7 de Setembro. Em 29 de agosto, uma nova reunião aprofundou a programação e colocou novamente a questão das águas no centro da mobilização.
A Frente Ambientalista do ABCDMRR participou diretamente desse processo e defendeu que o movimento socioambiental tivesse espaço real para apresentar à população os impactos, os conflitos e os questionamentos envolvendo a obra de transposição. A discussão sobre o formato da participação revelou algo fundamental: quando há uma disputa concreta no território, não existe neutralidade possível entre quem executa uma obra bilionária e quem luta para que seus impactos sejam debatidos, fiscalizados e enfrentados pela população.
A Frente Ambientalista levou a defesa do território para o centro do debate
A Frente Ambientalista do ABCDMRR surgiu como uma articulação regional para reunir pessoas, coletivos e organizações que já atuavam na defesa do meio ambiente e transformar essas lutas dispersas em força política comum. Seu lançamento público ocorreu em 2025, em Santo André, e desde então a Frente vem ampliando sua presença nas disputas ambientais da região.
Em 2026, a transposição das águas do Rio Pequeno tornou-se uma das principais frentes dessa atuação. A organização passou a mobilizar moradoras e moradores, participar de reuniões, produzir documentos, fazer registros do território, dialogar com órgãos públicos, organizar manifestações e exigir mais transparência e responsabilidade ambiental em torno da obra.
A Frente não surgiu apenas para reagir a um projeto específico. Ela reúne militantes, coletivos e organizações com trajetória na defesa dos mananciais, das áreas verdes, da participação popular e do direito ao território no ABC. Ao longo de 2026, essa articulação ganhou força justamente porque conseguiu aproximar experiências diferentes de luta e transformar questões ambientais locais em uma agenda regional de mobilização e pressão sobre o poder público.
Foi nesse processo que a transposição do Rio Pequeno passou a ocupar um lugar central. A obra concentrou preocupações antigas sobre proteção dos mananciais, decisões tomadas sem participação popular suficiente, impactos sobre comunidades e o modo como grandes intervenções são apresentadas como inevitáveis antes que seus efeitos sejam plenamente debatidos.
A transposição do Rio Pequeno virou símbolo de uma disputa maior
O projeto da Sabesp prevê a transferência de até 4 mil litros de água por segundo do braço Rio Pequeno, na Represa Billings, para o reservatório de Taiaçupeba, no Sistema Alto Tietê. A obra envolve cerca de 38 quilômetros de adutoras e investimento anunciado de aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
Para a Sabesp e o Governo do Estado, o empreendimento é estratégico para ampliar a segurança hídrica da Região Metropolitana de São Paulo. A empresa afirma que o traçado foi escolhido depois da análise de alternativas e que buscou reduzir impactos sociais e ambientais. A Cetesb sustenta que o projeto passou pelo processo de licenciamento e recebeu exigências de prevenção, mitigação e compensação.
Os movimentos socioambientais contestam esse processo porque uma obra desse porte não pode ser tratada apenas como questão técnica de engenharia. Ela atravessa territórios, mexe com cursos d’água, interfere em áreas de mananciais, afeta ruas, moradias, vegetação e a vida cotidiana de comunidades inteiras. É por isso que Frente Ambientalista, Movimento em Defesa da Vida, Instituto CausAmbientalis e outras organizações passaram a questionar o licenciamento e exigir estudos mais aprofundados.
Esse conflito levou a mobilização para as ruas. Em maio, cerca de 70 pessoas participaram de uma manifestação em Rio Grande da Serra cobrando a suspensão das intervenções até que os impactos fossem analisados de forma mais ampla. A luta também chegou ao Ministério Público.
O Ministério Público entrou na disputa
Em maio, a Promotoria de Justiça de Meio Ambiente e Habitação e Urbanismo de Rio Grande da Serra recomendou a suspensão das licenças ambientais e a paralisação das obras. O Ministério Público questionou o uso do Relatório Ambiental Preliminar no processo de licenciamento e defendeu a realização de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, o EIA-Rima.
A recomendação apontou preocupações com riscos geotécnicos, áreas ambientalmente sensíveis, cursos d’água e impactos urbanos e sociais. Entre os pontos levantados estava o Ribeirão da Estiva, fundamental para o abastecimento de Rio Grande da Serra.
A intervenção do Ministério Público não encerrou a disputa, mas mostrou que as denúncias e questionamentos levantados pelos movimentos não podiam simplesmente ser tratados como resistência irracional ao desenvolvimento. Havia questões ambientais, territoriais e sociais que exigiam respostas concretas.
Entre as pessoas que assumiram uma atuação constante nessa mobilização está José Soares da Silva, vice-presidente do Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC, conselheiro do Comdema de Rio Grande da Serra pelo Instituto CausAmbientalis e integrante da Frente Ambientalista do ABCDMRR. Militante ambiental há anos na região, Soares participou do acompanhamento da obra, da produção de registros do território e das ações de pressão sobre os órgãos responsáveis pelo empreendimento.
Foi enquanto realizava justamente esse trabalho que ele sofreu uma das agressões mais graves registradas durante essa mobilização.
José Soares foi espancado enquanto registrava área da obra
Foi nesse ambiente de tensão que ocorreu um dos episódios mais graves dessa luta. Em 8 de junho, José Soares da Silva estava na Estrada Flávio Humberto Rebizzi, em Rio Grande da Serra, fazendo registros fotográficos de uma área relacionada ao traçado da adutora. As imagens seriam encaminhadas ao Ministério Público para contribuir com o acompanhamento da obra.
Durante esse trabalho, Soares foi abordado por dois homens encapuzados em uma motocicleta. Um deles desceu e passou a agredi-lo. O ambientalista levou golpes no rosto e na boca, caiu no chão e teve o celular tomado. Segundo seu relato, durante o ataque os homens perguntaram onde ele morava, falaram em levá-lo para o mato e um deles gritou para que o comparsa atirasse nele.
Soares conseguiu fugir e chegou à Unidade de Pronto Atendimento de Rio Grande da Serra, onde recebeu atendimento pelas lesões sofridas. O caso foi registrado na Polícia Civil e houve requisição de exame de corpo de delito.
A agressão provocou forte reação dos movimentos socioambientais da região. Em nota pública, a Frente Ambientalista do ABCDMRR denunciou o ataque como uma grave ação de intimidação contra José Soares e contra o movimento que vem enfrentando a transposição das águas do Rio Pequeno. Para a organização, o contexto do crime é inseparável da atuação de Soares: ele foi atacado enquanto fotografava justamente um trecho relacionado à obra que vinha acompanhando e denunciando, e os registros seriam encaminhados ao Ministério Público.
A Frente também destacou a violência das ameaças relatadas por Soares durante o espancamento. Segundo o ambientalista, um dos agressores perguntou onde ele morava, falou em levá-lo para o mato e, quando ele conseguiu fugir, gritou para que o comparsa atirasse nele. Para o movimento, a sequência reforça a gravidade do ataque e exige que a investigação vá além da recuperação dos bens roubados e esclareça quem eram os agressores, por que abordaram Soares naquele local e se houve relação entre a violência e sua atuação socioambiental.
A denúncia ganhou ainda mais peso porque Soares não estava em uma atividade privada ou ocasional. Vice-presidente do Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC, conselheiro do Comdema de Rio Grande da Serra pelo Instituto CausAmbientalis e integrante da Frente Ambientalista do ABCDMRR, ele vinha acompanhando de perto os impactos da transposição e produzindo registros para subsidiar a atuação do Ministério Público.
Para a Frente, atacar uma liderança nessas circunstâncias é também uma tentativa de atingir o direito coletivo de fiscalizar grandes obras, denunciar impactos e defender o território. Por isso, o movimento passou a cobrar investigação, responsabilização dos autores e solidariedade pública a Soares, afirmando que a violência não interromperia a mobilização contra a obra.
A violência não interrompeu a mobilização
Depois da agressão, a Frente não abandonou a luta. O movimento ampliou a divulgação do caso, buscou solidariedade de outras organizações e seguiu acompanhando os desdobramentos da transposição.
É justamente aí que o episódio ganha dimensão política maior. Defender o meio ambiente não é uma atividade abstrata. Significa enfrentar interesses econômicos, discutir grandes obras, cobrar governos, acompanhar licenciamentos, fiscalizar empresas e disputar decisões que envolvem bilhões de reais e afetam territórios inteiros.
No Brasil, esse tipo de atuação pode ser perigoso. O país aparece há anos entre os mais letais para defensoras e defensores ambientais e territoriais, segundo levantamentos internacionais. Por isso, qualquer agressão contra quem atua nessas lutas precisa ser tratada com seriedade e investigada até suas últimas consequências.
E depois? A disputa mudou de fase, mas não terminou
A recomendação do Ministério Público de maio não colocou um ponto final na obra. Em agosto, o órgão passou a negociar com Sabesp, Cetesb, Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística e Prefeitura de Rio Grande da Serra um Termo de Ajustamento de Conduta, o TAC.
A negociação inclui estudos ambientais em diferentes períodos do ano, audiências públicas, monitoramento geotécnico, proteção ao Ribeirão da Estiva, comunicação com moradores, laudos cautelares de imóveis, gestão do trânsito e medidas de compensação ambiental e urbana.
Dois subtrechos considerados de menor impacto receberam liberação provisória e restrita. Isso não significa que toda a obra tenha sido liberada. Trechos envolvendo áreas mais sensíveis continuam submetidos às condições discutidas com o Ministério Público.
O órgão também deixou aberta a possibilidade de Ação Civil Pública caso não haja acordo ou as obrigações estabelecidas não sejam cumpridas. A Sabesp mantém a previsão de concluir o empreendimento no segundo semestre de 2027.
Ou seja: a mobilização popular conseguiu interferir no andamento institucional da obra, mas a disputa continua. E acompanhar cada etapa desse processo será tão importante quanto ocupar as ruas.
R$ 800 mil em ISS mostram que a disputa também é econômica
A transposição também movimenta dinheiro para Rio Grande da Serra. Dados da Secretaria Municipal de Finanças divulgados pelo Diário do Grande ABC indicam que cerca de R$ 800 mil em ISS relacionados à obra entraram nos cofres municipais apenas em junho e julho.
A Prefeitura estima que a arrecadação possa chegar a R$ 25 milhões durante a execução do empreendimento. Há ainda obras de pavimentação e outras medidas apresentadas como contrapartidas.
É aqui que a discussão fica ainda mais profunda. Uma obra pode gerar receita e melhorias urbanas e, ao mesmo tempo, produzir impactos ambientais e sociais. Por isso, a pergunta não pode ser simplesmente se o município ganha ou perde dinheiro. É preciso perguntar quem ganha, quem assume os riscos, que impactos permanecem depois da obra e quem decide quais compensações serão aceitas.
O Movimento em Defesa da Vida do Grande ABC defende que impactos ambientais sejam compensados com medidas ambientais efetivas, como proteção de áreas relevantes para os mananciais. A Prefeitura afirma que as contrapartidas previstas são mais amplas e não se limitam ao asfaltamento.
Essa é a disputa real: água, dinheiro público, território, desenvolvimento, preservação e direito da população de participar das decisões que moldam a cidade.
O Grito volta ao Rio Pequeno
Depois da reunião preparatória de 29 de agosto, integrantes da Frente Ambientalista deixaram a Paróquia São Sebastião e foram ao Rio Pequeno fazer novos registros do território. O grupo também organizou uma nova ida à região da cabeceira do rio dentro das atividades relacionadas ao Grito.
Esse movimento resume bem o sentido da mobilização. O debate não termina numa sala de reunião e não se limita às redes sociais. Ele vai para o território, encontra o rio, as ruas, as casas, os mananciais e as pessoas que viverão as consequências das decisões tomadas por governos e empresas.
Nos últimos dias antes do 7 de Setembro, integrantes da Frente organizaram transporte, materiais, ferramentas e outras providências para participar do Grito. A defesa das águas chega à mobilização nacional carregando meses de luta local.
Chega depois de manifestações, documentos, denúncias, intervenção do Ministério Público e da violência sofrida por José Soares. Chega também com uma certeza que os movimentos construíram na prática: grandes obras públicas não podem ser decididas apenas dentro de gabinetes.
O Grito começa antes do 7 de Setembro e continua depois
O Grito dos Excluídos e Excluídas sempre foi mais do que um ato. Ele é um processo de mobilização. Em Rio Grande da Serra, isso ficou evidente em cada reunião preparatória, nas discussões sobre a água, no trabalho das pastorais, na articulação entre organizações e no envolvimento de quem decidiu transformar preocupação em participação.
No dia 7, as lutas locais encontram as bandeiras nacionais do Grito: terra, paz, moradia, mulheres vivas, soberania e democracia. Mas o sentido dessa mobilização está justamente em mostrar que essas palavras têm endereço, corpo e consequência concreta.
Soberania também é decidir sobre a água. Democracia também é permitir que a população participe de decisões sobre grandes obras. Vida em primeiro lugar também significa proteger mulheres da violência, garantir moradia, defender os mananciais e assegurar que quem luta por direitos possa fazê-lo sem ser espancado, ameaçado ou silenciado.
É isso que Rio Grande da Serra tem para levar ao Grito dos Excluídos e Excluídas. E é por isso que o 7 de Setembro não termina no dia 7.
PARTICIPE DO GRITO
O 32º Grito dos Excluídos e Excluídas do ABCDMRR acontece na segunda-feira, 7 de setembro, em Rio Grande da Serra, com atividades a partir das 8h30. A mobilização é aberta à população e reúne movimentos sociais, pastorais, organizações populares, ambientalistas e todas as pessoas que querem fazer do Dia da Independência também um dia de luta por direitos.
A concentração será às 8h30, na Estação Rio Grande da Serra. Às 9h, haverá café de acolhida e apresentações culturais na Praça da Bíblia. Às 10h, a programação segue com a celebração da Santa Missa na Paróquia São Sebastião, presidida pelo bispo diocesano, Dom Pedro Carlos Cipollini. A igreja fica na Rua Francisco Moraes Ramos, 40, Centro, Rio Grande da Serra.
Às 11h, a mobilização volta à Praça da Bíblia para a aula pública e as falas das lideranças, momento em que as lutas sociais e ambientais que atravessam o território ganham espaço no Grito. Às 11h30, será realizado um ato inter-religioso, também na Praça da Bíblia. O encerramento está previsto para 12h.
PROGRAMAÇÃO — 7 DE SETEMBRO
12h — Encerramento
Para acompanhar as mobilizações e informações da Frente Ambientalista do ABCDMRR, o perfil no Instagram é @frenteambientalista.abcdmrr. Informações sobre a participação e a mobilização também podem ser obtidas com Veludo, pelo WhatsApp (11) 95818-2932.
Chegue a partir das 8h30 e participe. O Grito é construído por quem transforma indignação em organização, ocupa os espaços públicos e faz do 7 de Setembro também um dia para perguntar que independência queremos — e para quem ela precisa chegar.
