Mobilização será realizada às 9h, no Parque São Roberto, e chama a população a se somar às comunidades que lutam contra despejos e pelo direito à terra e à moradia digna
Moradia é direito. E é para defender esse direito que famílias, comunidades e movimentos populares vão ocupar as ruas de Cajamar no 7 de Setembro. A partir das 9h, no Parque São Roberto, será realizado o 1º Grito dos Excluídos e Excluídas em Cajamar, com a defesa da terra, da paz e da moradia no centro da mobilização.
O Grito acontece em um momento de luta para famílias que vivem em ocupações no município. Entre elas estão as da Ocupação dos Queixadas, comunidade que completou sete anos e enfrenta uma ordem de despejo mantida em julho pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, segundo a CSP-Conlutas.
É essa realidade que dá urgência ao chamado do dia 7. A mobilização cobra moradia digna, regularização fundiária e desapropriação de áreas abandonadas, além de denunciar a exclusão e a negação de direitos.
“O grito é contra a exclusão, contra a exploração e contra a negação de direitos. O grito é por justiça, por moradia e por vida!”, afirma a convocação da atividade.
O chamado é para que moradoras e moradores cheguem junto: famílias, vizinhas, vizinhos, comunidades, movimentos e todas as pessoas que entendem que ninguém deve viver com medo de perder o teto.
Quase 100 famílias vivem ameaça de despejo nos Queixadas
A situação da Ocupação dos Queixadas ajuda a explicar por que a luta por moradia estará no centro do Grito. Em 16 de julho, a CSP-Conlutas informou que a 37ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP rejeitou recursos do Luta Popular e da Defensoria Pública e manteve a ordem de despejo contra a comunidade. A entidade fala em cerca de 100 famílias atingidas.
A decisão veio justamente quando a ocupação completava sete anos. Construída e organizada pelas próprias famílias, a comunidade possui espaços coletivos como barracão, horta, biblioteca e brinquedoteca, de acordo com a CSP-Conlutas.
A luta, portanto, não começou agora e não nasceu com o Grito. O que acontece no 7 de Setembro é o contrário: uma resistência que já existe dentro do território ganha as ruas da cidade e busca ampliar solidariedade e pressão popular.
Em setembro de 2025, o Núcleo de Habitação e Urbanismo da Defensoria Pública do Estado de São Paulo conseguiu suspender uma ordem de reintegração de posse contra os Queixadas. Na ocasião, a instituição apontou a insuficiência do plano de ação apresentado pela Prefeitura de Cajamar.
Segundo a Defensoria, não havia solução habitacional definitiva nem indicação de um local concreto e efetivo para realocar as famílias. A decisão também registrou que os serviços então oferecidos pelo município não eram compatíveis com a necessidade de reassentamento coletivo e que a dispersão das famílias poderia aprofundar sua vulnerabilidade e afetar direitos.
A questão colocada pelo movimento é direta: tirar uma família de sua casa sem garantir onde ela vai morar não resolve o problema habitacional.
A disputa sobre o território vem de longe. Em sua atuação no caso, a Defensoria já havia levantado pontos como o cumprimento da função social da propriedade e a classificação da área como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), além de defender mediação para buscar uma saída que preservasse os direitos das famílias.
O debate sobre função social da terra e direito à moradia, portanto, não nasceu como palavra de ordem para o ato de setembro. Ele atravessa há anos a disputa em torno dos Queixadas. Agora, essa discussão sai novamente dos processos e ganha as ruas.
Da ameaça de despejo à mobilização popular
A manutenção da ordem de despejo em julho não encerrou a organização dos Queixadas. Em 1º de agosto, a ocupação realizou um Dia de Luta em Defesa da Moradia, reunindo apoiadoras e apoiadores em atividades culturais e numa reunião do Fórum Popular por Moradia, com participação de lideranças de diferentes ocupações de Cajamar.
A ameaça contra uma comunidade, assim, passou a alimentar uma mobilização mais ampla pelo direito à moradia no município. Pouco mais de um mês depois, essa luta chega ao Grito dos Excluídos.
Nas últimas semanas, integrantes da mobilização também foram às ruas com panfletagem para chamar a população a participar do ato no Parque São Roberto. A intenção é ampliar a força das comunidades organizadas e fazer da luta contra os despejos uma questão de toda a cidade.
Não se trata apenas de solidariedade às famílias diretamente ameaçadas. A defesa da moradia também diz respeito a quem paga aluguel alto, vive de favor, mora em área sem regularização ou sabe que perder a renda pode significar perder também o teto.
Ocupar as ruas no Dia da Independência
O ato de Cajamar integra o 32º Grito dos Excluídos e Excluídas, realizado nacionalmente durante a Semana da Pátria e principalmente no 7 de Setembro.
O tema permanente é “Vida em Primeiro Lugar!”. Em 2026, o lema é “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. Terra e moradia estão entre os eixos centrais da mobilização deste ano.
Ocupar as ruas justamente no Dia da Independência tem significado político. O Grito transforma uma data marcada pelas cerimônias oficiais em espaço para perguntar que independência existe para quem não tem terra, para quem não consegue pagar aluguel, para quem vive sem regularização ou para quem acorda sem saber se continuará dentro da própria casa.
Em Cajamar, essa pergunta tem endereço, famílias e uma luta concreta.
Para uma família trabalhadora, a casa não é apenas um pedaço de chão. É o lugar de onde se sai para trabalhar, onde crianças crescem, onde se constroem relações de vizinhança e onde a vida cotidiana se organiza.
Por isso, a luta dos movimentos de moradia não se limita a impedir uma reintegração de posse. Ela cobra soluções que garantam permanência, regularização ou reassentamento digno, sem jogar famílias de um lado para outro e sem transformar um problema habitacional em desabrigo.
No caso dos Queixadas, esse risco já apareceu na discussão judicial de 2025, quando a Defensoria apontou que a dispersão das famílias, sem solução adequada de reassentamento, poderia aprofundar a vulnerabilidade social.
A mobilização do dia 7 leva essa cobrança para o espaço público: terra para cumprir função social, regularização para garantir segurança às comunidades e moradia digna para que nenhuma família seja abandonada depois de uma remoção.
Grito chama Cajamar para chegar junto
A organização convida a população a participar do ato com suas famílias, vizinhas, vizinhos e comunidades. O Parque São Roberto será o ponto de encontro entre quem já vive diretamente a luta por moradia e quem quer fortalecer a resistência das famílias ameaçadas.
Para participantes que sairão da capital paulista, está sendo organizada uma lista de transporte até Cajamar. A saída está prevista para 7h30, da sede da CSP-Conlutas, na Rua Senador Feijó, 191, região da Sé, em São Paulo.
O retorno está previsto inicialmente para 12h30. Quem quiser permanecer para o almoço nos Queixadas poderá retornar às 17h.
O prazo divulgado para informar o nome é 30 de agosto, pelo contato (11) 96084-0043, com Jesus.
Serviço: o 1º Grito dos Excluídos e Excluídas em Cajamar será realizado em 7 de setembro de 2026, às 9h, no Parque São Roberto. A mobilização reúne a defesa da terra, da paz, da moradia digna, da regularização fundiária e a luta contra despejos.
