Comunidades defendem a permanência da EJA nas escolas públicas enquanto pesquisa até 11 de setembro tenta localizar quem precisa voltar a estudar. Para quem luta pela modalidade, contar formulários não basta: o poder público tem o dever de procurar quem ficou fora da escola.
A Educação de Jovens e Adultos está no centro de uma mobilização em Cajamar. Educadoras, educadores e comunidades escolares defendem a permanência da EJA nas escolas públicas diante das mudanças discutidas para a organização da modalidade e das incertezas sobre o futuro dos polos que atendem estudantes em Jordanésia e no Polvilho.
A denúncia ganhou força com um manifesto das comunidades da EMEB Antônio Pinto de Campos e da EMEB Dra. Mara Aparecida Alves da Silva Gomes. A diretora da Antônio Pinto, Andréa Bianchi Sanchez, também levou a discussão às redes sociais, defendendo que garantir a EJA significa muito mais do que manter uma turma no papel: é preciso assegurar escola pública perto das pessoas, professoras e professores preparados, transporte, segurança e condições materiais para que trabalhadoras e trabalhadores consigam voltar a estudar e permanecer na escola.
Em meio à mobilização, a Secretaria Municipal de Educação realiza uma pesquisa para descobrir onde vivem as pessoas que desejam começar, retomar ou concluir os estudos pela EJA, em qual região seria mais fácil frequentar as aulas e quais horários atendem melhor às suas necessidades. O formulário fica disponível de 25 de agosto a 11 de setembro de 2026 e também permite que estudantes já matriculados indiquem dificuldades que enfrentam.
Se você mora em Cajamar, não concluiu os estudos ou conhece alguém nessa situação, a participação é importante. A pesquisa não é matrícula, mas pode ajudar a revelar onde estão pessoas que precisam da EJA e quais obstáculos precisam ser enfrentados.
RESPONDA À PESQUISA DA EJA EM CAJAMAR
Comunidades lutam para manter a EJA dentro das escolas públicas
O manifesto divulgado pelas comunidades escolares defende a permanência da modalidade na EMEB Antônio Pinto de Campos, em Jordanésia, e na EMEB Dra. Mara Aparecida Alves da Silva Gomes, no Polvilho.
A preocupação é que mudanças na organização da EJA rompam uma estrutura construída dentro das escolas. Para estudantes e profissionais que defendem os polos, esses espaços não são apenas endereços: são lugares onde pessoas que passaram anos longe da escola criaram vínculos, encontraram profissionais que conhecem suas trajetórias e reconstruíram uma relação com o estudo.
Andréa relata que, no início das discussões, apareceram possibilidades de atendimento em outros espaços, como o Campo Tecnológico ou ambientes ligados a empresas, o que também provocou preocupação com uma possível terceirização. Depois, segundo a diretora, houve indicação de que a EJA continuaria existindo no município e permaneceria em unidades escolares.
A mobilização continua porque a questão não é apenas saber se Cajamar continuará dizendo que possui EJA. O que está em disputa é onde estarão as turmas, quem conseguirá chegar até elas, quem trabalhará com estudantes e quais condições permitirão que as pessoas permaneçam estudando.
Pesquisa ajuda, mas não pode virar régua para fechar turma
A consulta municipal pode mostrar onde vivem pessoas interessadas em voltar à escola, quais horários funcionam melhor e que dificuldades enfrentam. Mas responder a um formulário pela internet não é a mesma coisa que medir toda a necessidade de Educação de Jovens e Adultos existente numa cidade.
Quem não sabe que a pesquisa existe não responde. Quem está fora da escola há décadas pode não acompanhar as redes da Secretaria de Educação. Pessoas com dificuldades de acesso à internet podem não chegar ao formulário. E quem nem sabe onde funciona a EJA pode também desconhecer que existe uma consulta perguntando onde gostaria de estudar.
Por isso, uma quantidade pequena de respostas não prova que existe pouca demanda. Muito menos deveria ser suficiente, sozinha, para justificar o fechamento, a concentração ou a não abertura de turmas.
A lei manda procurar quem ficou fora da escola
A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 — Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) estabelece que o poder público deve recensear anualmente jovens e pessoas adultas que não concluíram a educação básica e fazer chamada pública para alcançá-las. A lei também determina que a EJA considere os interesses e as condições de vida e de trabalho de estudantes e que o Estado estimule o acesso e a permanência de trabalhadoras e trabalhadores na escola.
O Plano Nacional de Educação — Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026 reforça essa obrigação. A Meta 11.e determina que cada ente federativo garanta oferta de EJA capaz de atender, até o quinto ano de vigência do plano, 100% da demanda por vagas, com chamada pública e busca ativa. O plano também manda mapear regularmente a demanda em cada território, realizar chamada contínua por diferentes canais e fazer busca ativa de jovens, pessoas adultas e idosas que não concluíram a educação básica.
A pergunta para Cajamar, portanto, precisa ir além de “quantas pessoas responderam ao formulário?”. É preciso saber quantas não concluíram os estudos, onde vivem, por que estão fora da escola e o que o município fará para chegar até elas.
Mais de 2,5 mil cajamarenses não sabiam ler e escrever
O percentual parece pequeno quando aparece sozinho: 3,5%. Mas o Censo 2022 mostra o tamanho humano desse número.
Cajamar tinha 72.980 pessoas com 15 anos ou mais. Dessas, 2.532 não eram alfabetizadas. Em outras palavras, a cada mil cajamarenses dessa faixa etária, cerca de 35 não sabiam ler e escrever.
São mais de 2,5 mil pessoas. Se fossem reunidas apenas para visualizar a dimensão desse número em grupos de 30 pessoas, seriam 84 grupos completos e ainda sobrariam 12 pessoas.
E esse contingente representa apenas uma parte de quem pode precisar da Educação de Jovens e Adultos. Há pessoas que sabem ler e escrever, mas não concluíram o ensino fundamental; pessoas que deixaram os estudos por causa do trabalho; mulheres que tiveram a trajetória escolar interrompida para cuidar das filhas e dos filhos; e gente que passou décadas afastada da educação formal.
A própria Prefeitura reconhece o problema em seu planejamento ao registrar uma taxa de analfabetismo de 3,5%, com base no Censo 2022, e estabelecer como objetivo reduzir gradativamente esse índice.
Cajamar cresceu quase 45% — e a política pública precisa acompanhar esse crescimento
Cajamar tinha 92.689 habitantes no Censo 2022 e população estimada em 98.365 pessoas em 2025, segundo o IBGE. Entre 2010 e 2022, o município cresceu cerca de 44,6%.
Esse crescimento não significa que o analfabetismo ou a baixa escolaridade tenham aumentado na mesma proporção. Significa, porém, que Cajamar recebeu dezenas de milhares de novas moradoras e moradores e precisa atualizar continuamente quem vive na cidade, qual sua escolaridade e onde estão as pessoas que ainda não concluíram os estudos.
Uma cidade que cresce não pode medir a necessidade da EJA olhando apenas para o tamanho das turmas existentes. Precisa descobrir quem chegou ao município com a escolarização interrompida, quem saiu da escola ao longo do caminho e em quais bairros essas pessoas vivem.
A EJA já atendeu centenas de estudantes em Cajamar
A história da modalidade no próprio município mostra que ela não é uma política pequena. O Plano Municipal de Educação de Cajamar registra que, em 2003, havia 587 matrículas de Educação de Jovens e Adultos na rede municipal. Somadas às 447 matrículas da rede estadual, a EJA reunia 1.034 estudantes no município, segundo dados do Censo Escolar do MEC/Inep.
Esse dado não serve para comparar automaticamente 2003 com 2026, porque a cidade, a população e a organização da educação mudaram. Ele serve para lembrar que a Educação de Jovens e Adultos tem história em Cajamar e já alcançou centenas de pessoas simultaneamente.
Quando uma política desse tipo apresenta pouca procura em determinado momento, é preciso olhar também para o que aconteceu com a oferta, a divulgação, os horários, o transporte e a localização das turmas.
Transporte já foi essencial para boa parte dos estudantes
Essa discussão fica ainda mais concreta quando se olha para o transporte escolar. O Plano Municipal de Educação de Cajamar registra que, em 2019, 308 matrículas da EJA no Ensino Fundamental estavam vinculadas ao transporte escolar público, número apresentado pelo próprio documento como correspondente a 58,2% no indicador analisado.
O próprio Plano Municipal de Educação destaca que o transporte escolar exerce papel importante no acesso desse público à escola. Entre os anos acompanhados pelo documento, a média de utilização do transporte na rede municipal foi de 50,1%.
Anos depois, o transporte continua aparecendo entre as preocupações levantadas por Andréa. Para uma trabalhadora que sai do emprego no fim da tarde, pega ônibus e precisa chegar à escola para estudar à noite, alguns quilômetros podem separar o direito escrito no papel do direito que realmente consegue exercer.
Ponunduva concentra a disputa entre distância e direito à EJA
Toda a discussão sobre busca ativa, transporte, localização das turmas e permanência ganha um endereço concreto em Cajamar: Ponunduva. O bairro ajuda a mostrar por que não basta perguntar quantas pessoas querem estudar sem olhar para onde elas vivem, quanto precisam se deslocar e se conseguem voltar para casa depois de uma noite de aula.
A reivindicação pela volta da EJA ao Ponunduva não é apenas uma questão de preferência de bairro. Ponunduva está numa região mais afastada dos principais núcleos urbanos de Cajamar, em um território de ocupação espalhada, com áreas rurais e locais de difícil acesso. Documento técnico da própria Prefeitura identifica Ponunduva entre as principais áreas urbanizadas do município fora dos núcleos de Cajamar Centro, Jordanésia e Polvilho.
É nesse território que a discussão sobre a volta da Educação de Jovens e Adultos ganhou espaço na Câmara Municipal. Em maio de 2026, o Requerimento nº 161/2026, apresentado pelos vereadores Tarcísio do Mercado e Lele Aprígio, questionou a Prefeitura sobre a existência de estudo técnico ou levantamento de demanda para o retorno da EJA ao Ponunduva e perguntou quando poderia ser realizado planejamento para viabilizar novamente a modalidade no bairro.
A reivindicação, porém, não começou em 2026. Em outubro de 2023, o vereador Adilson Aparecido, por meio da Indicação nº 1046/2023, já solicitava à Prefeitura estudo para implantação da EJA no Ponunduva. Os registros da Câmara mostram, portanto, que a cobrança pública para levar a modalidade ao bairro aparece formalmente desde 2023.
O transporte ajuda a entender por que essa discussão importa. Em 2022, a Prefeitura anunciou uma mudança no sistema para permitir a ligação entre Ponunduva e Jardim Muriano, no Polvilho, sem que passageiras e passageiros precisassem utilizar dois ônibus no percurso. A alteração deu origem à Linha 980 e foi apresentada pelo Município justamente como uma forma de eliminar aquela baldeação.
A mobilidade continuou aparecendo nas discussões públicas. Em 2025, vereadores apresentaram novos pedidos relacionados a horários e itinerários do transporte no Ponunduva. Em resposta oficial a uma dessas reivindicações, o Departamento Municipal de Trânsito informou que as linhas 920, 930 e 980 atendiam conjuntamente a região e realizavam, segundo o Município, 80 viagens ao longo dos dias úteis.
Mas contar linhas e viagens não responde sozinho à pergunta de quem precisa estudar à noite. É preciso saber para onde esses ônibus vão, por onde passam, em que horários circulam e se esses horários conversam de verdade com a rotina de quem trabalha durante o dia e estuda à noite.
A EJA divulgada pela Prefeitura em 2025 funcionava de segunda a sexta-feira, das 19h às 22h40, em dois polos: a EMEB Antônio Pinto de Campos, em Jordanésia, e a EMEB Dra. Mara Aparecida Alves da Silva Gomes, no Polvilho. Para uma pessoa que mora no Ponunduva, portanto, o transporte precisa permitir chegar à escola e, principalmente, voltar para casa depois que a aula termina.
A programação atualmente disponibilizada pelo Cittamobi mostra que essa realidade muda conforme o trajeto. A Linha 930, que faz a ligação entre a região de Jordanésia e o Ponunduva, mantém operação noturna nos dias úteis, com horário publicado até 23h40. Já a Linha 980, ligação direta entre a região do Jardim Muriano, no Polvilho, e o Ponunduva, tem seu último horário publicado no sentido Ponunduva às 21h35, antes do encerramento das aulas da EJA às 22h40.
A Linha 920 também aparece entre as linhas que atendem a região, segundo informação do próprio Departamento Municipal de Trânsito. A programação publicada indica operação noturna, mas a nomenclatura dos sentidos e a relação exata entre o itinerário e os polos da EJA exigem cautela. Por isso, ela não pode ser usada sozinha para afirmar que existe retorno garantido entre a escola e o Ponunduva depois do fim das aulas.
Há ainda uma questão fundamental: ter ônibus na mesma região não significa ter transporte acessível a partir da escola. Em Jordanésia, uma rota a pé consultada no Google Maps entre a EMEB Antônio Pinto de Campos e um dos pontos pesquisados do itinerário da Linha 930 na Avenida Vereador Joaquim Pereira Barbosa indica um deslocamento de mais de meio quilômetro. É uma distância que precisa entrar na conta de quem deixa a sala de aula às 22h40 e ainda precisa alcançar o transporte de volta ao Ponunduva.
No Polvilho, os trajetos pesquisados entre a EMEB Dra. Mara e pontos publicados da Linha 980 na Avenida Tenente Marques mostram deslocamentos ainda maiores. Dependendo do ponto considerado, a caminhada indicada pelo Google Maps varia de menos de um quilômetro a mais de um quilômetro e meio, chegando, em uma das rotas pesquisadas, perto de dois quilômetros a pé.
Mas, para quem permanece na EJA até o fim da aula, há um obstáculo anterior à própria caminhada. As aulas terminam às 22h40, enquanto o último horário publicado da Linha 980 no sentido Ponunduva é 21h35. Ou seja: quando a aula termina, o último 980 já encerrou essa partida há mais de uma hora.
Esse problema não é estranho à história da própria EJA de Cajamar. Em 2023, quando divulgou matrículas para os polos de Jordanésia e Polvilho, a Prefeitura informou que estudantes residentes em outros bairros, inclusive no Ponunduva, teriam transporte gratuito. O próprio poder público já reconheceu, portanto, que o deslocamento até os polos exigia uma solução específica.
Para uma trabalhadora ou um trabalhador que passou o dia no emprego e decide voltar à escola, cada pedaço desse percurso importa. É preciso sair do trabalho, chegar ao polo, permanecer em aula até 22h40, alcançar um ponto de ônibus e ainda encontrar transporte para voltar ao Ponunduva. Quando a escola está longe de casa, a distância também entra na sala de aula.
É nesse contexto que o Requerimento nº 161/2026 ganha importância. Se a pesquisa encontrar jovens, pessoas adultas e idosas que querem retomar os estudos no Ponunduva, a discussão não poderá terminar na constatação de que existem vagas em outro ponto de Cajamar. Será preciso perguntar onde essas pessoas vivem, como trabalham, como chegam à escola e como voltam para casa depois das 22h40.
Em um município onde a própria Secretaria de Educação reconhece partes do Ponunduva como zona rural e locais de difícil acesso, e onde o poder público já precisou oferecer transporte para levar moradores do bairro até polos da EJA em outras regiões, discutir a volta da modalidade ao território significa discutir se o direito à educação está perto o suficiente para que as pessoas consigam, de fato, chegar até ele.
Em 2025, a oferta municipal estava concentrada em dois polos
Em julho de 2025, a Prefeitura divulgava atendimento da EJA em dois polos municipais: a EMEB Antônio Pinto de Campos, em Jordanésia, e a EMEB Dra. Mara Aparecida Alves da Silva Gomes, no Polvilho. As aulas aconteciam de segunda a sexta-feira, no período noturno.
Em 2022, a própria rede municipal divulgava três unidades com EJA: além da Antônio Pinto e da Dra. Mara, havia atendimento na EMEB Fernando Pupo Massagardi, em Cajamar Centro.
A redução territorial entre essas divulgações reforça a importância de perguntar onde está a população que precisa estudar. Para quem mora longe dos polos remanescentes, a dificuldade não desaparece porque uma turma existe em outro bairro.
CadEJA reconhece que nem toda demanda aparece sozinha
Em março de 2026, o Ministério da Educação criou o Cadastro da Educação de Jovens e Adultos (CadEJA) por meio da Portaria MEC nº 275, de 27 de março de 2026. A iniciativa existe justamente para identificar e organizar a demanda pela modalidade.
O sistema não depende apenas de pessoas que espontaneamente procuram uma vaga. A política trabalha com registros públicos, indicadores e instrumentos de busca ativa para ajudar redes de ensino a localizar quem precisa estudar.
Esse princípio é importante para Cajamar. Pesquisa pela internet, dados do IBGE, registros escolares, assistência social, saúde, trabalho e mobilização nos bairros podem ser usados em conjunto para descobrir onde estão as pessoas que ainda precisam concluir a educação básica.
Buscar estudantes funciona: Açailândia aumentou matrículas em 37%
Há cidades brasileiras mostrando que a chamada “falta de demanda” pode mudar quando o poder público decide procurar. E uma dessas experiências aconteceu em um município de tamanho relativamente próximo ao de Cajamar.
Em março de 2026, equipes de Açailândia percorreram áreas urbanas e rurais numa mobilização de Busca Ativa Escolar voltada à Educação de Jovens, Adultos e Idosos. Houve visitas de casa em casa, panfletagem, carros de som e conversas com comerciantes para localizar quem estava fora das salas de aula.
Antes da mobilização, a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI) de Açailândia contabilizava 351 estudantes. Depois da campanha, o número chegou a 422 e, em abril, alcançou 483 matrículas. Foram 132 estudantes a mais, crescimento de aproximadamente 37%.
Essas 132 pessoas não apareceram por mágica. A política pública foi procurá-las.
A comparação com Cajamar chama atenção também pelo tamanho das cidades. No Censo 2022, Açailândia tinha uma população cerca de 15% maior que a de Cajamar. Isso não torna os dois municípios iguais nem permite projetar em Cajamar os mesmos 37%, mas mostra que, numa cidade de porte populacional semelhante, a quantidade de matrículas mudou quando a procura saiu de dentro da escola e foi para as ruas, bairros e comunidades.
Conheça a experiência de Açailândia
Ipojuca abriu e reabriu turmas — e ganhou 460 matrículas
Em Ipojuca, Pernambuco, a rede municipal passou de 984 matrículas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) em 2024 para 1.444 em 2025, crescimento de 46,75%. Foram 460 matrículas a mais em apenas um ano, segundo dados do Sistema Educacional do Ipojuca divulgados pela Prefeitura.
O crescimento veio acompanhado de uma mudança na própria distribuição da oferta. O Município abriu uma turma de EJA em Maracaípe, onde a modalidade ainda não era oferecida, e reabriu turmas em cinco escolas da zona rural. Também houve busca ativa, formação continuada de profissionais e outras ações de fortalecimento.
O que Ipojuca acrescenta ao debate é a dimensão do território. Não se tratou apenas de divulgar vagas existentes: a rede abriu e retomou turmas em lugares onde as pessoas vivem, reduzindo uma das barreiras que podem pesar sobre quem tenta voltar a estudar: a distância entre a população e a sala de aula.
Veja a experiência da EJA em Ipojuca
Goiânia foi às comunidades e conseguiu 60 matrículas em uma semana
Em Goiânia, equipes da Secretaria Municipal de Educação foram às comunidades procurar pessoas que não haviam concluído os estudos. Só na primeira semana de julho de 2025, a busca ativa resultou em 60 novas matrículas na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A estratégia envolve visitas às comunidades, rodas de conversa, mapeamento do público e aproximação com moradores e escolas. A rede também permite matrícula ao longo do ano letivo, em vez de concentrar a entrada de estudantes em um único período.
Em 2026, essa lógica avançou para outra frente. A Prefeitura informou que havia duas novas salas em processo de abertura, com 42 estudantes pré-matriculados, além de uma turma de extensão em um centro comunitário e turmas organizadas em parceria com uma empresa para atender 127 trabalhadores que precisavam ser alfabetizados.
Goiânia traz, portanto, outro elemento para a discussão: a EJA pode sair do formato rígido de uma escola esperando estudantes aparecerem em determinada época do ano. A matrícula pode permanecer aberta e, quando necessário, a oferta pode chegar a espaços comunitários e ao ambiente de trabalho.
Três cidades, três caminhos para encontrar quem ficou fora da escola
Os casos não são iguais e não podem ser transplantados automaticamente para Cajamar. Mas mostram três formas concretas de enfrentar barreiras.
Em Açailândia, o poder público foi procurar pessoas que não estavam chegando espontaneamente às matrículas. Em Ipojuca, novas turmas foram abertas e outras reativadas em territórios onde a oferta não existia ou havia desaparecido. Em Goiânia, a busca continuou ao longo do ano e a modalidade chegou a comunidades e espaços ligados ao trabalho.
Nenhuma dessas experiências prova antecipadamente quantas pessoas Cajamar encontrará. Elas mostram que o número de matrículas existentes não é, sozinho, uma fotografia completa da necessidade educacional de uma cidade.
Alimentação, segurança e renda também decidem quem permanece
Andréa pede que estudantes usem a pesquisa para registrar problemas de transporte, segurança e outras condições que dificultam a frequência. Na EMEB Antônio Pinto de Campos, ela relata ainda uma experiência chamada de “mercadinho”, criada para disponibilizar itens de cesta básica a estudantes e apoiar sua permanência.
Uma pessoa pode querer estudar e, ainda assim, precisar escolher entre uma diária que coloca comida em casa e uma noite na escola. Quando isso acontece, não é falta de interesse que está afastando alguém da educação.
O próprio PNE de 2026 reconhece essa realidade ao prever políticas de apoio à permanência de estudantes da EJA em situação de vulnerabilidade socioeconômica e mecanismos para aproximar jornada de trabalho e oferta educacional. Garantir o direito à EJA significa enfrentar também essas barreiras.
Professoras e professores fazem parte da luta
A mobilização envolve ainda as equipes escolares. Andréa relata preocupação com o processo de remoção e atribuição de aulas enquanto ainda se discute como serão organizadas as futuras turmas e os polos.
A diretora defende a participação de professoras e professores efetivos e reconhece a importância de profissionais contratados, mas cobra continuidade, formação e conhecimento sobre uma modalidade que possui características próprias.
Quem volta à escola depois de dez, vinte ou trinta anos chega com experiências de trabalho, família, território e saberes construídos durante a vida. Muitas pessoas carregam também as marcas de uma escolarização interrompida. A EJA precisa de profissionais que conheçam essas trajetórias e de uma organização pedagógica que respeite quem está retornando.
Pesquisa precisa virar busca ativa
Até 11 de setembro, o formulário pode ajudar Cajamar a conhecer pessoas que conseguiram manifestar seu interesse, os bairros onde vivem, horários desejados e problemas que enfrentam. Depois disso, porém, continuará existindo uma pergunta importante: e quem não respondeu?
A LDB manda recensear e fazer chamada pública. O Plano Nacional de Educação manda mapear e buscar ativamente. O CadEJA trabalha com diferentes bases e ferramentas para localizar a demanda.
Isso significa procurar também fora das redes sociais. CRAS, unidades de saúde, serviços de emprego, feiras, associações de bairro, empresas e organizações comunitárias podem ajudar a chegar às pessoas que não acompanham páginas institucionais.
Responda à pesquisa e ajude a mostrar onde a EJA precisa chegar
Quem deseja começar, retomar ou concluir os estudos em Cajamar pode participar do levantamento até 11 de setembro de 2026. Quem já frequenta a modalidade também pode apontar dificuldades relacionadas a transporte, horário, localização, segurança ou outras condições.
O formulário não realiza matrícula. Ele serve para levantar a demanda.
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Depois de 11 de setembro, começa outra cobrança
Quando a pesquisa terminar, a população precisa saber quantas pessoas responderam, quais bairros apareceram, quais horários foram mais pedidos e quais barreiras foram relatadas.
Também será necessário saber o que acontecerá com os polos da Antônio Pinto e da Dra. Mara, se haverá atendimento em outros territórios e quais políticas de transporte, segurança e permanência serão adotadas.
Ponunduva já reivindicou formalmente o retorno da modalidade. E continuará existindo uma pergunta que nenhuma planilha pode responder sozinha: quantas pessoas em Cajamar ainda precisam da EJA, mas não conseguiram chegar nem à escola nem ao formulário?
EJA é direito — não favor
Quem deixou a escola para trabalhar não perdeu o direito à educação. Quem precisou cuidar das filhas e dos filhos não perdeu. Quem foi afastado pela pobreza, pelo racismo, pela distância ou pela falta de transporte também não perdeu.
Em Cajamar, o Censo 2022 encontrou 2.532 pessoas com 15 anos ou mais que não eram alfabetizadas. Elas são apenas uma parte da população que ainda pode precisar da Educação de Jovens e Adultos. A cidade também tem história de centenas de matrículas na modalidade, dependência importante do transporte escolar e reivindicações territoriais por mais oferta.
Tudo isso aponta na mesma direção: a necessidade da EJA não pode ser medida apenas por quem já conseguiu chegar a uma carteira escolar. Mapear a demanda deve servir para fortalecer, aproximar e ampliar a educação pública, nunca para transformar ausência de matrícula em ausência de direito.
Cajamar pode abrir mais caminhos de volta à escola
Busca ativa trouxe estudantes para Açailândia; abertura e reabertura de turmas ampliaram a EJA em Ipojuca; visitas às comunidades produziram novas matrículas em Goiânia. Cajamar não precisa copiar nenhum desses modelos, mas há uma lição comum entre eles: quando as pessoas não conseguem chegar à política pública, a política pública precisa se mover para chegar até elas.
Até 11 de setembro, quem precisa da EJA pode registrar sua necessidade. Depois disso, a responsabilidade será do poder público transformar informação em direito.
A EJA não precisa de portas fechadas. Precisa de mais caminhos para trazer de volta quem foi afastado da escola.
RESPONDER À PESQUISA DA EJA EM CAJAMAR
SERVIÇO
A pesquisa sobre a demanda pela Educação de Jovens e Adultos em Cajamar fica aberta de 25 de agosto a 11 de setembro de 2026. Podem participar pessoas que desejam começar, retomar ou concluir os estudos e estudantes que já frequentam a modalidade e querem registrar dificuldades.
O formulário pergunta sobre localização, região mais adequada para atendimento, horário e outras necessidades.
A pesquisa não corresponde à realização de matrícula.
