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O Lado Esquerdo da Notícia

O papel dos homens no combate à violência contra mulheres

Por Léo Duarte

 


Da Barbárie de Queimadas aos casos atuais, a violência de gênero mostra que enfrentar o machismo exige mais do que condenar agressores depois do crime: homens precisam romper pactos de silêncio, confrontar comportamentos misóginos e assumir responsabilidade na transformação dos espaços que ocupam.

Em fevereiro de 2012, uma festa de aniversário em Queimadas, no Agreste paraibano, tornou-se cenário de um dos episódios mais graves de violência sexual coletiva registrados no país. Cinco mulheres foram estupradas. Duas delas, Isabela Pajuçara Frazão Monteiro, de 27 anos, e Michelle Domingues da Silva, de 29, foram assassinadas depois de reconhecerem agressores.

O caso, conhecido como Barbárie de Queimadas, envolveu sete homens adultos e três adolescentes, segundo registros do Tribunal de Justiça da Paraíba. Mais do que a brutalidade dos crimes, a própria dinâmica revelada pela investigação coloca uma questão que continua atual: aquela violência dependeu da participação de várias pessoas, de planejamento e da adesão de integrantes de um mesmo grupo.

Quatorze anos depois, o episódio voltou a circular nas redes sociais a partir de uma publicação da escritora Letícia Campos Vale. O ponto central não era simplesmente repetir que homens violentam mulheres, mas cobrar uma discussão sobre o que outros homens fazem quando o machismo, o assédio, a objetificação e a violência começam a aparecer dentro dos próprios círculos de convivência.

A pergunta é incômoda justamente porque desloca parte do debate do agressor individual para as relações sociais que cercam a violência. Não se trata de afirmar que todos os homens são agressores nem de diluir a responsabilidade penal de quem comete crimes. Trata-se de reconhecer que o enfrentamento à violência contra mulheres também passa pela disposição dos homens de confrontar outros homens antes que misoginia, controle e violência sejam normalizados.

Queimadas expôs uma violência construída coletivamente

Os documentos judiciais mostram que o crime de Queimadas não surgiu de uma ação improvisada. Segundo o Tribunal de Justiça da Paraíba, Eduardo dos Santos Pereira organizou uma festa de aniversário para o irmão, Luciano dos Santos Pereira, e os dois planejaram uma falsa invasão da residência, durante a qual mulheres presentes seriam submetidas à violência sexual.

O Ministério Público da Paraíba apontou que Eduardo pretendia oferecer mulheres como “presente” ao irmão. Outros participantes aderiram ao plano, e a encenação foi preparada para simular um assalto cometido por desconhecidos. Na madrugada de 12 de fevereiro de 2012, pessoas foram rendidas, amarradas e amordaçadas, e cinco mulheres foram estupradas.

Isabela e Michelle reconheceram agressores e foram assassinadas. A dimensão coletiva do caso é decisiva para compreender por que políticas de prevenção não podem olhar apenas para o indivíduo que executa a violência: é preciso observar também os ambientes em que propostas desse tipo encontram aceitação, cumplicidade concreta ou ausência de resistência.

O crime de Queimadas foi extremo, mas a pergunta que ele deixa não deve ser reservada aos casos extremos. Quando uma roda de amigos transforma o assédio em piada, quando imagens íntimas de mulheres circulam em grupos masculinos, quando ameaças são tratadas como “problema de casal” ou quando um amigo procura justificar o comportamento violento de outro, existe uma disputa sobre o que será tolerado.

Essa disputa também é política. O machismo não se sustenta apenas pelo ato explícito de quem agride; ele é reproduzido por normas sociais que atribuem aos homens poder sobre os corpos, a sexualidade e as escolhas das mulheres. Romper com essas normas exige que homens deixem de considerar a solidariedade masculina mais importante que a segurança e a dignidade das mulheres.

A Justiça individualizou responsabilidades

Entre as dez pessoas do sexo masculino envolvidas no crime de Queimadas estavam sete adultos e três adolescentes à época. Em 2014, Eduardo dos Santos Pereira foi submetido a júri popular em João Pessoa e condenado por cinco estupros, dois homicídios, cárcere privado e outros crimes, recebendo penas que ultrapassaram um século de prisão.

Outros seis adultos — Luciano dos Santos Pereira, Fernando de França Silva Júnior, Jacó Sousa, Luan Barbosa Cassimiro, José Jardel Sousa Araújo e Diego Rêgo Domingues — também foram condenados. Os três adolescentes envolvidos receberam medidas socioeducativas.

Em 2017, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Paraíba analisou recursos apresentados por parte dos condenados. Seis foram absolvidos da imputação de associação criminosa, mas tiveram mantidas as condenações por estupro e cárcere privado.

Há ainda uma mudança legislativa posterior ao crime. Em 2012, “estupro coletivo” era uma forma de descrever a violência praticada por mais de uma pessoa; em 2018, a Lei nº 13.718 acrescentou ao Código Penal uma causa de aumento de pena para estupro cometido mediante concurso de duas ou mais pessoas.

A responsabilização individual é indispensável. Nenhum debate sobre cultura, masculinidade ou relações de poder pode servir para apagar quem planejou, executou ou participou de uma violência concreta, muito menos para transformar agressor em mero produto abstrato da sociedade. Uma perspectiva estrutural deve ampliar a compreensão da violência, não reduzir a responsabilidade de quem a pratica.

A violência sexual permanece uma realidade nacional

A Barbárie de Queimadas ocorreu em 2012, mas a violência sexual continua atingindo mulheres e meninas em todo o país. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2026 com dados referentes a 2025, contabilizou 84.388 registros de estupro e estupro de vulnerável, uma média aproximada de 231 ocorrências registradas por dia.

A maior parte dos registros foi classificada como estupro de vulnerável, categoria que inclui, entre outras hipóteses previstas em lei, vítimas com menos de 14 anos. Embora os registros policiais tenham apresentado redução em relação ao ano anterior, especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública alertam que a queda dos boletins não pode ser interpretada automaticamente como redução equivalente da violência, sobretudo diante da subnotificação e das diferenças entre bases policiais e registros de saúde.

Casos envolvendo mais de um agressor também continuaram sendo registrados em 2026. Em Pernambuco, levantamento publicado em agosto a partir do banco de dados da Secretaria de Defesa Social identificou pelo menos seis registros de estupro coletivo naquele ano; todas as vítimas eram mulheres ou meninas, e quatro tinham menos de 17 anos.

Dois desses registros envolveram adolescentes de 14 anos de uma escola municipal do Cabo de Santo Agostinho. Cinco adolescentes suspeitos foram apreendidos.

Os episódios não devem ser tratados como se fossem idênticos ao ocorrido em Queimadas. Ainda assim, o caráter coletivo de determinadas violências obriga a perguntar como práticas criminosas encontram validação entre pares e por que, em determinados grupos, ninguém interrompe o processo antes que ele chegue à agressão.

Não basta não agredir: é preciso romper com o machismo

A afirmação de que “nem todo homem” agride mulheres é factual, mas politicamente insuficiente para enfrentar o problema. A transformação necessária não pode ser reduzida à expectativa de que cada homem apenas evite cometer crimes; ela exige uma postura ativa contra a cultura que normaliza assédio, controle, humilhação, violência sexual e outras formas de dominação.

Estudos sobre masculinidades desenvolvidos pela Equimundo apontam relações entre determinadas normas masculinas, relações de poder e diferentes formas de violência. Essas pesquisas não tratam homens como biologicamente destinados à agressão; ao contrário, mostram que comportamentos e expectativas de gênero são socialmente construídos e, justamente por isso, podem ser transformados.

A ONU Mulheres também identifica desigualdades de poder e normas de gênero entre os fatores centrais da violência contra mulheres e meninas. Entre as estratégias de prevenção está o envolvimento de homens e meninos na transformação dessas relações, não para substituir o protagonismo das mulheres, mas para assumir responsabilidade por estruturas que historicamente lhes concederam maior poder social, econômico e político.

Essa mudança exige mais do que declarações públicas de solidariedade. Exige romper com aquilo que movimentos feministas há décadas denunciam como pactos masculinos de proteção: a tendência de minimizar a violência de um amigo, proteger colegas acusados, desacreditar mulheres, tratar comportamentos abusivos como assunto privado ou exigir provas impossíveis antes mesmo de admitir que uma denúncia merece ser ouvida.

A solidariedade entre homens não pode proteger agressores

Homens exercem influência sobre outros homens em espaços nos quais mulheres muitas vezes nem estão presentes. Grupos de mensagens, rodas de amigos, equipes esportivas, ambientes de trabalho, universidades, organizações políticas, igrejas, festas e famílias também são locais onde se definem limites sobre aquilo que será tratado como aceitável.

Nesses espaços, a omissão não precisa ser confundida com responsabilidade criminal para ser politicamente questionada. Um homem que rejeita uma conversa misógina, se recusa a receber ou compartilhar imagens íntimas, confronta um amigo que ameaça uma companheira ou procura ajuda diante de um risco concreto contribui para estabelecer outros limites de convivência.

Também é necessário abandonar a ideia de que denunciar ou confrontar um homem violento seria uma espécie de traição à amizade. Nenhum vínculo de camaradagem pode valer mais que a integridade de uma mulher. Uma masculinidade comprometida com igualdade precisa romper justamente com a lógica segundo a qual homens devem proteger outros homens independentemente daquilo que tenham feito.

Isso implica aceitar uma mudança profunda nas relações masculinas. O compromisso não pode ser com a preservação da reputação do agressor, mas com a interrupção da violência, a proteção da vítima e a responsabilização de quem praticou a agressão.

Homens não são salvadores das mulheres

Defender uma participação ativa dos homens no enfrentamento à violência não significa conceder a eles o protagonismo de uma luta construída historicamente pelas mulheres. Foram movimentos feministas, organizações de mulheres, sobreviventes, pesquisadoras e militantes que transformaram agressões antes tratadas como assuntos privados em questões de direitos humanos e responsabilidade pública.

O papel dos homens não é “proteger mulheres” como se elas fossem dependentes de tutela masculina. É confrontar estruturas das quais os próprios homens se beneficiam, questionar privilégios e retirar apoio social de comportamentos que reforçam desigualdade e violência.

Essa distinção importa. Uma política verdadeiramente emancipadora não troca o homem agressor pelo homem salvador; ela enfrenta a estrutura que coloca os homens no centro das decisões e reduz mulheres à condição de objetos de controle, proteção ou desejo.

Por isso, transformar masculinidades significa também dividir poder, trabalho doméstico e responsabilidades de cuidado, respeitar autonomia sexual e afetiva, reconhecer mulheres como iguais e compreender que consentimento não é concessão masculina. O combate à violência começa muito antes de uma ocorrência policial.

A prevenção acontece antes da delegacia

Delegacias, Justiça, serviços de saúde, assistência social, casas de acolhimento e políticas públicas especializadas são fundamentais. Sem orçamento, equipes, estruturas de proteção e responsabilização dos agressores, discursos individuais sobre mudança de comportamento não serão suficientes para enfrentar uma violência produzida também por desigualdades estruturais.

Mas a ação do Estado não elimina a responsabilidade social. Homens podem intervir quando percebem um comportamento abusivo, apoiar mulheres que relatam violência, procurar serviços especializados, registrar denúncias quando cabível e recusar ambientes em que agressões sejam naturalizadas.

Essa intervenção deve ser feita com responsabilidade e segurança. Ninguém deve ser orientado a enfrentar fisicamente uma pessoa armada ou colocar uma vítima em risco maior; em situações de emergência, a prioridade é buscar ajuda adequada e acionar os serviços responsáveis.

O fundamental é abandonar a neutralidade confortável que permite condenar crimes extremos enquanto comportamentos cotidianos continuam sendo tolerados. O mesmo homem que se diz horrorizado diante de um feminicídio precisa ser capaz de questionar o amigo que controla o telefone da companheira, humilha uma mulher, espalha imagens íntimas ou insiste numa relação sexual sem consentimento.

Violência de gênero é uma relação de poder

Tratar autores de violência simplesmente como “monstros” pode produzir indignação, mas ajuda pouco a explicar o problema. Crimes contra mulheres não acontecem em uma sociedade paralela; acontecem dentro de famílias, relacionamentos, escolas, festas, igrejas, empresas e outros espaços cotidianos.

Uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão e do Instituto Locomotiva divulgada em 2026 encontrou uma diferença significativa entre experiências relatadas por mulheres e o reconhecimento masculino da própria violência. Entre mulheres que já haviam se relacionado com homens, 54% disseram ter vivido alguma forma de violência; entre homens que já mantiveram relacionamentos com mulheres, 11% reconheceram ter cometido agressões contra parceiras ou ex-parceiras.

Os percentuais não descrevem necessariamente os mesmos relacionamentos e não podem ser comparados como correspondência direta. Ainda assim, apontam para um problema importante: parte das práticas vividas pelas mulheres como violência pode não ser reconhecida da mesma forma pelos homens que reproduzem determinados comportamentos.

Essa distância reforça a necessidade de discutir violência de gênero como relação de poder. O combate não pode começar apenas quando há estupro, espancamento ou feminicídio; precisa atingir também mecanismos de controle, chantagem, perseguição, humilhação, coerção sexual e desqualificação das mulheres que alimentam relações desiguais.

Romper o pacto é também responsabilidade dos homens

A Barbárie de Queimadas exige responsabilização criminal de quem participou dos crimes, memória das mulheres atingidas e reconhecimento da brutalidade sofrida pelas vítimas. Usar o caso para discutir masculinidades não pode jamais transformar a violência em abstração ou reduzir o peso dos estupros e assassinatos.

O que Queimadas permite enxergar, precisamente por sua dimensão coletiva, é que a violência também pode ser organizada dentro das relações entre homens. Quando uma proposta de violência encontra adesão em vez de recusa, quando o corpo de uma mulher é tratado como objeto disponível e quando a camaradagem masculina é usada para sustentar a agressão, existe uma estrutura de poder que precisa ser enfrentada.

A tarefa dos homens, portanto, não se resume a afirmar que pessoalmente não agridem mulheres. É necessário romper com práticas, discursos e lealdades que ajudam a preservar o machismo, apoiar políticas públicas de proteção, respeitar o protagonismo feminista e assumir que transformar as relações de gênero também exige abrir mão de privilégios historicamente naturalizados.

Uma sociedade que pretende enfrentar seriamente a violência contra mulheres precisa responsabilizar agressores sem relativização e proteger as vítimas sem culpabilização. Precisa, ao mesmo tempo, exigir dos homens uma escolha política concreta: não ser apenas alguém que não agride, mas alguém disposto a confrontar a violência e o machismo também quando eles vêm de outro homem.

Como procurar ajuda

A Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 — funciona gratuitamente, 24 horas por dia, todos os dias da semana. O serviço oferece orientações sobre direitos e serviços da rede de atendimento e também recebe denúncias, que podem ser feitas pela própria mulher ou por outras pessoas.

O atendimento também está disponível pelo WhatsApp no número (61) 9610-0180. Quando a violência estiver acontecendo naquele momento ou houver risco imediato à integridade física, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190.

FONTES CONSULTADAS

Tribunal de Justiça da Paraíba; Ministério Público da Paraíba; Presidência da República — Lei nº 13.718/2018; Fórum Brasileiro de Segurança Pública — 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública; ONU Mulheres Brasil; Equimundo; Instituto Promundo; Ministério das Mulheres; Secretaria de Defesa Social de Pernambuco; Instituto Patrícia Galvão; Instituto Locomotiva; Agência Brasil; Jornal do Commercio; UOL; publicação pública de Letícia Campos Vale no Instagram.

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