Deputado bolsonarista fala em “sexo desregrado” e culpa o feminismo, mas deixa de fora meninas estupradas, desigualdade social e casos graves dentro do próprio campo conservador.
Quando Nikolas Ferreira culpa feministas pelo aborto e diz que meninas mantêm “sexo desregrado”, uma parte decisiva da realidade desaparece de seu discurso. Não aparecem as crianças que engravidam depois de estupros, as vítimas que passam anos em silêncio, as mulheres negras e pobres mais atingidas pelas desigualdades reprodutivas nem os casos de violência sexual envolvendo homens do próprio campo político conservador. Também não aparece qualquer evidência apresentada pelo deputado que sustente a relação que ele tenta construir entre feminismo, liberdade sexual e aborto.
O deputado bolsonarista do PL de Minas Gerais fez a declaração em entrevista ao programa Política em Minutos. “É um bando de menina que foi influenciada por feministas para poder ter sexo desregrado. Quando tem um filho, quer abortar”, afirmou. Questionado sobre qual dado sustentava a acusação, respondeu: “Pode olhar aí, ué”, conforme registrou a jornalista Mariliz Pereira Jorge em coluna publicada pela Folha de S.Paulo.
Na mesma discussão, Nikolas se colocou contra o aborto quando a gravidez resulta de estupro e apresentou a continuidade da gestação, seguida da entrega da criança para adoção, como alternativa. A formulação parece simples porque apaga quase tudo o que acontece entre o crime e o nascimento: para uma menina violentada, significa meses de gravidez, exames, transformações físicas, riscos obstétricos e um parto decorrente de uma gestação que ela não escolheu.
A fala também não vem de um personagem periférico. Nikolas é um dos principais nomes da nova geração do bolsonarismo, integra o PL e construiu projeção nacional combinando redes sociais, religião e pautas de costumes. É nesse contexto que a relação entre Nikolas Ferreira e aborto precisa ser entendida: não apenas como opinião pessoal de um parlamentar, mas como parte de uma disputa política que transforma feminismo, sexualidade, educação e direitos reprodutivos em ferramentas permanentes de mobilização.
O problema começa quando essa guerra moral encontra a vida concreta. Se, como disse Nikolas, basta “olhar”, então é exatamente isso que uma reportagem precisa fazer: olhar para as pesquisas, para as vítimas, para os agressores, para as instituições que falharam e também para aquilo que acontece dentro do próprio campo político que reivindica para si a defesa da família e das crianças.
O que Nikolas não diz sobre meninas vítimas de estupro
Em agosto de 2020, uma menina de apenas 10 anos, moradora de São Mateus, no Espírito Santo, engravidou depois de sofrer violência sexual durante anos. Segundo as informações do caso, os abusos haviam começado quando ela tinha cerca de 6 anos e eram atribuídos a um tio. A criança conseguiu realizar a interrupção da gravidez prevista em lei, mas precisou sair de seu estado e viajar até Pernambuco para ter acesso ao procedimento.
A violência não terminou quando o abuso foi descoberto. Informações que deveriam permanecer sob sigilo vazaram, o endereço do hospital em Recife tornou-se público e grupos contrários ao aborto se mobilizaram diante da unidade enquanto a criança era atendida. Depois do procedimento, a família decidiu mudar o nome e o endereço da menina, que passou a integrar programa de proteção diante da exposição e das ameaças.
O Ministério Público do Espírito Santo abriu nove procedimentos preparatórios para investigar a sucessão de violações sofridas pela menina depois que a gravidez veio à tona. Entre os pontos apurados estavam o vazamento de informações sigilosas, falhas da rede de saúde em garantir o aborto legal, possível assédio dentro da rede de proteção para que a criança desistisse do procedimento e eventual descumprimento das regras que disciplinavam a interrupção da gravidez no SUS.
A reação institucional produziu medidas concretas. O MPES conseguiu ordem judicial para retirar das redes sociais um vídeo que expunha a criança, requisitou à Polícia Civil a abertura de investigação sobre os vazamentos e ajuizou ações civis contra pessoas que participaram da exposição da vítima e da pressão sobre sua família. O próprio Ministério Público afirmou que a divulgação dos dados provocou constrangimento e revitimização da menina, inclusive porque grupos contrários ao aborto se mobilizaram diante do hospital onde ela seria atendida.
Entre os alvos dessas medidas estava Sara Fernanda Giromini, conhecida como Sara Winter, militante da extrema direita que teve acesso a informações sigilosas sobre o caso e divulgou dados da criança nas redes sociais. O MPES ajuizou contra ela uma ação civil pública por dano moral coletivo, atribuindo à causa o valor de R$ 1,32 milhão. A atuação de Sara também ajudou a mobilizar grupos contrários à interrupção da gravidez e ampliou a exposição de uma menina que já havia sofrido anos de estupro.
Outro personagem foi Pedro Teodoro dos Santos, que se apresentava como político em São Mateus e participou da mobilização contra o aborto. Segundo o MPES, ele entrou sem autorização na casa da família da menina e exerceu aquilo que o órgão chamou de “terror psicológico” sobre a responsável pela criança para tentar fazê-la desistir da interrupção da gravidez. Depois, divulgou o nome da vítima nas redes sociais e pediu apoio de pessoas contrárias ao procedimento; o Ministério Público ajuizou contra ele uma ação civil pública por dano moral coletivo, atribuindo à causa o valor de R$ 300 mil.
O MPES afirmou ainda que Pedro havia admitido à polícia seguir orientações de Sara Winter. Para o Ministério Público, as ações faziam parte de uma estratégia de exposição pública que atingiu uma criança de 10 anos violentada sexualmente durante aproximadamente quatro anos. A menina, portanto, não precisou enfrentar apenas o agressor e as dificuldades para chegar ao aborto legal: tornou-se alvo de uma mobilização política organizada para interferir na decisão tomada por sua família e protegida pela legislação.
As consequências chegaram à própria vida cotidiana da vítima. O MPES informou que seria necessário encontrar um novo lar para a família porque a residência poderia se tornar alvo de grupos extremistas e fundamentalistas, e manteve em sigilo o local para onde a criança seria levada. O órgão também denunciou o homem acusado do estupro e afirmou estar atuando para preservar a saúde, a segurança e os direitos da menina.
O caso chegou também ao governo Jair Bolsonaro. Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, a então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, foi apontada como participante de articulações para impedir que a menina realizasse o aborto e tentar transferi-la para um hospital onde a gravidez fosse mantida. Segundo a reportagem, pessoas ligadas ao ministério procuraram integrantes da rede responsável pelo atendimento e defenderam alternativas para a continuidade da gestação.
A história ajuda a entender o que desaparece quando Nikolas Ferreira transforma aborto em acusação contra feministas. A menina não enfrentou apenas o homem acusado de violentá-la durante anos e as dificuldades para chegar ao aborto legal: sua identidade foi exposta, militantes da extrema direita mobilizaram oposição ao procedimento, sua família sofreu pressão e a tentativa de impedir a interrupção chegou ao entorno do próprio governo Bolsonaro. Enquanto Nikolas fala em meninas levadas ao “sexo desregrado”, naquele caso concreto uma criança de 10 anos precisou lutar para que o Estado garantisse um direito já previsto em lei.
A dimensão concreta da proposta defendida pelo deputado aparece justamente aí. Para aquela menina, obrigar vítimas de estupro a manter a gravidez significaria permanecer grávida depois de anos de violência sexual, atravessar o restante da gestação e chegar ao parto antes de poder entregar a criança para adoção. A formulação pode soar abstrata em uma entrevista, mas sobre o corpo de uma criança ela se transforma em uma imposição física, psicológica e institucional.
Dois anos depois, outra menina colocou o país diante da mesma pergunta. Em Santa Catarina, uma criança de 11 anos grávida após estupro buscou interromper a gestação, mas encontrou resistência porque já havia ultrapassado 22 semanas, limite que não estava previsto na legislação para o aborto em caso de estupro. Depois de repercussão nacional e de recomendação do Ministério Público Federal, o Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina realizou a interrupção.
O caso escancarou como uma criança pode ser revitimizada justamente pelas instituições que deveriam protegê-la. A menina permaneceu no centro de uma disputa envolvendo família, hospital e Judiciário enquanto pessoas adultas discutiam se ela poderia interromper uma gravidez decorrente de violência sexual. Não havia ali uma militante feminista promovendo “sexo desregrado”, mas uma criança de 11 anos tentando recuperar algum controle sobre um corpo que já havia sido violado.
Esses casos também ajudam a explicar por que meninas podem chegar tardiamente aos serviços de saúde. Uma criança pode não compreender inicialmente aquilo que sofre, pode ser ameaçada pelo agressor, morar com ele, depender economicamente das pessoas adultas ao redor ou sequer possuir linguagem para identificar que determinada conduta é violência. O tempo entre o estupro, a descoberta da gravidez e o pedido de ajuda muitas vezes faz parte da própria vulnerabilidade.
O Brasil real está muito longe da caricatura de “sexo desregrado”
A Pesquisa Nacional de Aborto de 2021, conduzida por Debora Diniz, Marcelo Medeiros e Alberto Madeiro, não oferece sustentação para a caricatura criada pelo deputado. O levantamento encontrou que 10% das mulheres de 18 a 39 anos entrevistadas declararam já ter realizado ao menos um aborto e mostrou que o fenômeno atravessa diferentes grupos sociais, religiosos e regiões do país.
Mais da metade das mulheres que haviam abortado, 52%, tinha 19 anos ou menos quando realizou o primeiro aborto. As maiores taxas apareceram entre entrevistadas com menor escolaridade, mulheres negras e indígenas e residentes nas regiões mais pobres, um retrato que aproxima o debate de desigualdade social, raça, território e acesso à saúde, e o afasta da explicação moral de que feministas estariam produzindo uma geração de meninas sexualmente irresponsáveis.
A pesquisa também mostra que o aborto ocorre entre mulheres religiosas e em diferentes condições familiares, o que desmonta a tentativa de separá-las entre uma sociedade “de família” de um lado e feministas irresponsáveis do outro. O fenômeno atravessa a própria sociedade brasileira, inclusive espaços religiosos, famílias, casamentos e trajetórias que não cabem na personagem construída pela guerra cultural.
A Organização Mundial da Saúde também contradiz a ideia de que endurecer a proibição seja sinônimo de impedir abortos. A OMS afirma que restringir o acesso não reduz necessariamente sua ocorrência e que as principais diferenças aparecem nas condições de segurança em que os procedimentos são realizados. Criminalização, barreiras médicas e medo de procurar atendimento atingem com mais força justamente quem possui menos recursos para encontrar alternativas.
Essa desigualdade importa porque uma mulher com dinheiro pode viajar, pagar atendimento, obter informação ou recorrer rapidamente a profissionais especializados. Uma adolescente pobre, uma mulher periférica ou uma menina do interior depende muito mais da capacidade do Estado de garantir aquilo que já está previsto em lei.
Um vereador do próprio PL e denúncias envolvendo uma menina de 12 anos
A contradição torna-se mais difícil de ignorar quando se olha para o próprio partido de Nikolas. Thiago Bitencourt Ianhes Barbosa, conhecido como Dr. Thiago, foi eleito vereador de Canarana, em Mato Grosso, pelo PL em 2024 e também exercia a medicina, inclusive em unidades da rede pública de saúde. Em maio de 2025, foi preso durante uma investigação da Polícia Civil sobre crimes sexuais contra crianças e adolescentes.
Segundo a Polícia Civil, uma adolescente relatou uma situação de violência que teria começado quando ela tinha 12 anos. A investigação também chegou a suspeitas envolvendo uma criança de apenas 2 anos, e aparelhos eletrônicos apreendidos continham material relacionado a abuso e exploração sexual infantil. O então vereador foi posteriormente indiciado por estupro de vulnerável, produção e armazenamento de material sexual envolvendo crianças e adolescentes e divulgação de cenas de exploração sexual.
O caso ganha peso ainda maior pelas relações de autoridade envolvidas. Thiago não era apenas um homem adulto: ocupava mandato político e exercia a medicina, profissão associada ao cuidado e que, segundo a investigação, teria sido utilizada para facilitar a aproximação com pessoas em situação de vulnerabilidade. A Polícia Civil afirmou ter reunido evidências digitais e outros elementos para fundamentar o indiciamento e encaminhou o inquérito ao Ministério Público.
Thiago precisa ser apresentado no estágio jurídico correto, como indiciado, e não como condenado pelos fatos investigados. Isso, porém, não elimina a contradição política: enquanto Nikolas, também do PL, aponta feministas como ameaça moral às meninas, um homem eleito pelo próprio partido foi alvo de uma investigação policial por crimes sexuais contra menores e delitos relacionados a material de abuso sexual infantil.
A existência desse caso não transforma o PL em responsável pelos atos atribuídos a um integrante. Mas impede que qualquer partido reivindique para si uma espécie de certificado moral de proteção à infância enquanto localiza o perigo exclusivamente em adversários ideológicos.
Dito Motorista: vítimas tinham 10, 13 e 14 anos
Em Bofete, no interior de São Paulo, outro caso chegou a uma condenação definitiva. Benedito Aleixo da Silva, conhecido como Dito Motorista, vereador pelo Republicanos, foi preso em fevereiro de 2026 para cumprir pena de 22 anos, um mês e 15 dias de reclusão por estupro de vulnerável. A condenação já havia transitado em julgado quando o mandado foi cumprido.
Os crimes ocorreram entre 2013 e 2019 e envolveram três vítimas que tinham 10, 13 e 14 anos quando foram abusadas, segundo a apuração da Folha de S.Paulo. A sentença de primeiro grau havia fixado pena de 29 anos, posteriormente reduzida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo; a defesa sustenta que as provas deveriam ser reexaminadas, mas a condenação já estava definitiva.
Uma das vítimas tinha a mesma idade da menina do Espírito Santo que precisou atravessar estados para realizar um aborto legal. Colocar esses casos lado a lado não é explorar sofrimento para produzir impacto, mas mostrar o que desaparece quando a discussão é reduzida ao comportamento sexual das meninas: há crianças de 10 anos sendo violentadas por homens adultos enquanto o debate público é deslocado para feminismo, costumes e punição da vítima grávida.
O Republicanos integra o campo conservador e possui forte presença religiosa na política brasileira. Isso não torna o partido responsável pelo crime de um vereador, mas ajuda a desmontar a fantasia de que discurso conservador sobre família seja garantia automática de proteção às crianças.
Gabriel Monteiro e a imagem de moralidade punitiva
Outro nome que atravessou o campo bolsonarista é Gabriel Monteiro, ex-policial militar, influenciador e ex-vereador do Rio de Janeiro. Sua projeção foi construída nas redes com vídeos de fiscalização, segurança pública, exposição de supostos infratores e uma imagem associada à ordem, ao punitivismo e à direita; posteriormente, ele chegou ao PL.
Em agosto de 2022, a Câmara Municipal do Rio cassou seu mandato. O relatório do Conselho de Ética que sustentou a perda da cadeira incluía episódios como filmagem de uma relação sexual com uma adolescente de 15 anos, exposição vexatória de criança, agressão e ameaça a pessoa em situação de rua e acusações de violência sexual. A cassação foi aprovada por ampla maioria no plenário.
Monteiro também respondeu a processo criminal distinto por acusação de estupro e chegou a ficar preso preventivamente. Esses procedimentos precisam ser separados da cassação política, mas o conjunto importa para esta reportagem porque sua imagem pública havia sido construída justamente sobre autoridade moral, fiscalização e punição de terceiros.
O caso evidencia um ponto que atravessa toda essa discussão: discurso de lei e ordem não é certificado de proteção a mulheres e crianças. Da mesma forma, declarar-se defensor da família não coloca ninguém automaticamente do lado das vítimas.
Um prefeito de 65 anos, uma adolescente de 16 e R$ 14 milhões
Há situações em que a contradição não passa por condenação por violência sexual, mas por relações profundamente assimétricas que recebem tratamento muito diferente da indignação usada contra feministas e direitos reprodutivos. Em 2023, Hissam Hussein Dehaini, então prefeito de Araucária, no Paraná, tinha 65 anos quando se casou com uma adolescente de 16. A diferença de idade era de 49 anos.
De um lado estava uma estudante adolescente; do outro, um empresário no segundo mandato como prefeito, quase cinco décadas mais velho e com grande poder econômico e político. Hissam havia declarado à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 14 milhões na eleição de 2020, incluindo imóveis, uma aeronave avaliada em R$ 3,4 milhões e R$ 2,9 milhões em dinheiro. Ele também havia aparecido em vídeos manifestando apoio à reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.
O casamento ganhou ainda mais repercussão pelo que acontecia dentro da própria prefeitura. Marilene Rode, mãe da adolescente, foi nomeada secretária municipal de Cultura e Turismo na mesma semana do casamento; ela já trabalhava na administração municipal e foi promovida ao primeiro escalão. Elizangela Rode, tia da adolescente, também ocupava cargo de comando e era secretária municipal de Planejamento.
A presença das famílias na estrutura municipal ia além das duas. Reportagens da época registraram outros parentes e pessoas próximas a Hissam em cargos da administração, incluindo filhas e familiares que ocuparam postos de direção e secretarias ao longo de sua gestão. O Ministério Público do Paraná anunciou naquele período investigação sobre suspeitas de nepotismo relacionadas à administração.
A união entre Hissam e a adolescente era permitida pela legislação brasileira, que admite casamento a partir dos 16 anos com autorização dos responsáveis. Mas colocar a legalidade formal como elemento principal seria esconder aquilo que tornou o episódio socialmente tão perturbador: uma adolescente de 16 anos diante de um homem de 65, prefeito, empresário, milionário e chefe de uma administração em que integrantes das famílias ocupavam posições de poder.
O caso importa porque Hissam havia declarado apoio a Bolsonaro e estava politicamente inserido no campo conservador, ainda que não fosse do PL. Enquanto o bolsonarismo transforma feminismo, educação sexual e autonomia reprodutiva em supostas ameaças às meninas, uma relação marcada por 49 anos de diferença, enorme desigualdade econômica e forte assimetria de poder não produziu a mesma cruzada moral contra o adulto envolvido.
Quando a autoridade religiosa aparece no centro do abuso
A mesma discussão precisa alcançar os espaços religiosos. Isso não significa afirmar que igrejas produzam violência sexual, mas reconhecer que a autoridade espiritual pode oferecer a um agressor exatamente aquilo de que ele precisa para silenciar vítimas: confiança, proximidade, prestígio e poder sobre famílias e adolescentes.
Em Santa Catarina, o Ministério Público informou em 2025 a condenação de um pastor a 37 anos e seis meses de prisão por estupro de vulnerável e importunação sexual. Segundo o MPSC, ele utilizava sua posição religiosa para abusar de adolescentes e chegou a ameaçar vítimas dizendo que ninguém acreditaria nelas caso denunciassem o que acontecia. O nome não foi divulgado pela instituição, mas a condenação e a forma como a autoridade religiosa foi utilizada estão documentadas pelo Ministério Público.
Em Minas Gerais, outro pastor evangélico foi condenado a mais de 58 anos de prisão por estupro e atentado violento ao pudor contra duas filhas e outra criança que estava sob sua autoridade. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, uma das filhas sofreu abusos dos 2 aos 13 anos, e a acusação descreveu inclusive o uso de medicamentos para dopar vítimas antes dos crimes.
Casos assim mostram por que falar em “família” e “religião” não basta para proteger criança nenhuma. O agressor pode ocupar justamente o lugar que a vítima aprendeu a respeitar, obedecer e não questionar; quando isso acontece, a autoridade moral pode se transformar em arma para manter o silêncio.
A contradição fica ainda mais evidente porque setores da extrema direita e da direita religiosa estão entre os que mais atacam políticas de educação sexual nas escolas. Uma criança que aprende que nenhum adulto tem direito sobre seu corpo, que determinados toques são violência e que segredos impostos por pessoas mais velhas podem ser denunciados recebe ferramentas para identificar justamente aquilo que um abusador deseja esconder.
A guerra moral procura o inimigo no lugar errado
A violência sexual contra crianças não respeita fronteiras ideológicas. Ela pode ser praticada por alguém de direita, esquerda, religioso, ateu, rico ou pobre. O que os casos apresentados mostram é que o discurso de Nikolas escolhe localizar o problema politicamente onde as evidências não autorizam: nas feministas e na suposta liberdade sexual das próprias meninas.
Quando um deputado afirma que feministas estimulam “sexo desregrado”, mas não apresenta dado algum para sustentar a acusação, ele produz um inimigo ideológico em vez de explicar um problema social. Essa escolha permite deslocar o foco de perguntas muito mais difíceis: por que crianças passam anos sendo abusadas sem conseguir denunciar, por que tantas vítimas conhecem seus agressores, por que meninas negras e pobres aparecem de forma tão intensa nas estatísticas e por que serviços públicos ainda falham quando uma vítima procura atendimento.
Os casos de Thiago Bitencourt, Dito Motorista, Gabriel Monteiro e Hissam Hussein não são equivalentes e possuem situações jurídicas diferentes. Mas todos tornam impossível sustentar a ideia de que a moralidade política acompanha automaticamente a filiação ideológica: o próprio campo conservador contém homens investigados, indiciados, condenados ou envolvidos em relações profundamente desiguais enquanto suas lideranças constroem uma narrativa que coloca feministas no banco dos réus.
Isso também explica por que o discurso funciona como panfleto político. Ele reduz uma realidade complexa a uma história fácil de compartilhar: existe uma juventude supostamente corrompida, feministas seriam as responsáveis e a solução seria controlar a sexualidade feminina e restringir o aborto. Quanto mais simples o inimigo, menos espaço sobra para discutir agressores concretos, desigualdade, serviços públicos e responsabilidade do Estado.
Adoção não apaga uma gravidez resultante de estupro
A defesa da adoção como resposta para uma gravidez resultante de estupro também precisa ser colocada no lugar correto. A entrega voluntária para adoção pode ser uma escolha legítima de quem decide continuar a gravidez sem exercer posteriormente a maternidade, mas ela responde ao que acontecerá depois do nascimento e não elimina aquilo que a vítima terá de enfrentar antes dele.
Entre o estupro e a adoção existem meses de gravidez, alterações físicas, exames, riscos obstétricos, exposição social, parto e possíveis consequências emocionais. Para uma criança de 10 ou 11 anos, há ainda uma realidade elementar: seu corpo continua sendo o corpo de uma criança, mesmo estando grávida.
O Ministério da Saúde orienta que vítimas de violência sexual recebam acolhimento, exames, contracepção de emergência quando necessária, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, atenção à saúde mental e orientação sobre aborto legal nas gestações decorrentes de estupro. O próprio ministério esclarece que não é necessário apresentar boletim de ocorrência para acessar esses serviços.
A adoção, portanto, pode fazer parte das alternativas oferecidas à vítima. Transformá-la em obrigação, entretanto, significa retirar justamente da mulher ou da menina violentada a possibilidade de decidir se continuará uma gravidez provocada pelo crime.
A ofensiva contra o aborto já chegou ao Congresso
A fala de Nikolas não existe separada de uma ofensiva institucional sobre direitos reprodutivos. O PL 1.904/2024, apresentado pelo deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e outros parlamentares, propõe equiparar a homicídio simples o aborto realizado depois de 22 semanas, inclusive quando a gravidez resulta de estupro. A própria Câmara dos Deputados informa que a legislação atual não estabelece esse limite temporal para a hipótese de violência sexual.
Uma barreira baseada em semanas atinge de maneira especialmente dura crianças e adolescentes. Uma menina violentada dentro de casa pode levar meses para compreender ou revelar o abuso, esconder a gravidez por medo ou depender justamente das pessoas ao redor para chegar a um serviço de saúde. O atraso provocado pela própria situação de violência pode então ser usado politicamente para retirar dela um direito.
É nesse ponto que a retórica deixa de ser apenas discurso de internet. Quando parlamentares transformam a gravidez decorrente de estupro em campo de disputa eleitoral e apresentam a continuidade obrigatória como solução moral, as consequências podem chegar diretamente ao corpo de uma criança.
Por que o discurso de Nikolas é panfletário
O caráter panfletário da fala aparece na diferença entre a força da acusação e a fragilidade da evidência apresentada. Nikolas oferece uma narrativa completa — feministas influenciam meninas, meninas mantêm “sexo desregrado” e depois querem abortar —, mas, quando confrontado com a pergunta mais básica de qualquer debate factual, não apresenta os dados que sustentariam essa relação.
Quando os dados são efetivamente consultados, o quadro muda. Aparecem mulheres negras, indígenas e pobres com maior prevalência de aborto; meninas que sofrem violência sexual antes mesmo de entrar na adolescência; famílias incapazes de interromper abusos; instituições que dificultam o acesso ao aborto legal; políticos conservadores envolvidos em casos graves e relações marcadas por enormes diferenças de poder.
A vantagem eleitoral dessa simplificação é evidente, ainda que não seja possível afirmar qual intenção íntima existe por trás de cada declaração do deputado. Aborto, feminismo, religião e sexualidade são temas centrais da mobilização bolsonarista, capazes de produzir engajamento, identidade política e inimigos reconhecíveis para uma base conservadora.
Isso permite dizer que o discurso exerce função eleitoral sem precisar inventar motivações pessoais. Em vez de explicar uma realidade social, ele organiza um conflito político: apresenta feministas como ameaça, oferece controle e punição como resposta e transforma uma questão de saúde, violência e direitos em instrumento de guerra cultural.
O que fica escondido quando a culpa é colocada nas feministas
No fim, a pergunta do título encontra respostas muito concretas. Quando Nikolas culpa feministas pelo aborto, desaparece a menina de 10 anos violentada desde aproximadamente os 6; desaparece a criança de 11 anos que precisou enfrentar instituições para conseguir o aborto legal; desaparecem mulheres negras e indígenas mais expostas às desigualdades reprodutivas; desaparecem os agressores que muitas vezes estão próximos da vítima e desaparecem as falhas do Estado que permitem que o abuso continue por anos.
Também desaparecem as contradições dentro do próprio campo conservador. Some o vereador eleito pelo PL indiciado pela Polícia Civil por estupro de vulnerável e crimes envolvendo material de abuso sexual infantil; some o vereador do Republicanos condenado definitivamente por abusos contra meninas de 10, 13 e 14 anos; some o político de direita cassado num processo que envolveu uma adolescente e exposição de crianças; some o prefeito apoiador de Bolsonaro que, aos 65 anos e com patrimônio milionário, se casou com uma estudante de 16 enquanto mãe, tia e integrantes da própria família ocupavam posições importantes na administração municipal.
Nenhum desses fatos transforma a direita inteira em responsável por crimes sexuais, assim como nenhum partido ou religião possui monopólio sobre a violência. O ponto é outro: eles destroem a divisão moral conveniente em que conservadores aparecem automaticamente como protetores da infância e feministas como responsáveis por sua suposta degradação.
Para uma criança estuprada, o partido do agressor pouco importa. Ela precisa que alguém interrompa a violência, acredite em seu relato, investigue quem a agrediu e garanta proteção; se estiver grávida, precisa receber informação verdadeira e acesso aos direitos assegurados pela legislação, não uma nova obrigação criada pela moral de outra pessoa.
É essa inversão que torna a fala de Nikolas tão grave. Ao deslocar a atenção dos agressores e das estruturas que permitem a violência para a sexualidade das próprias meninas, o discurso atribui culpa a quem deveria estar no centro da proteção.
O QUE PODE SER FEITO
Proteger crianças exige muito mais do que discursar sobre família. Exige escola capaz de identificar sinais de violência, Conselhos Tutelares estruturados, assistência social, SUS funcionando, investigação dos agressores, serviços especializados e profissionais capazes de ouvir meninas e meninos sem culpabilizá-los ou exigir deles uma narrativa perfeita para acreditar no abuso.
Educação sexual adequada à idade também faz parte dessa rede de proteção. Ela pode ensinar que nenhum adulto tem direito sobre o corpo de uma criança, que determinados comportamentos são abusivos, que autoridade familiar ou religiosa não transforma violência em cuidado e que pedir ajuda não torna a vítima culpada pelo que sofreu.
Nos casos de violência sexual, o atendimento precisa acontecer antes que a vítima seja empurrada de instituição em instituição. O Ministério da Saúde determina acolhimento, cuidado clínico, contracepção de emergência quando indicada, prevenção de infecções, atenção psicológica e orientação sobre aborto legal, sem exigir boletim de ocorrência como porta de entrada para o serviço.
Também é necessário garantir que o aborto previsto em lei exista fora do papel. Se uma menina precisa atravessar estados, enfrentar manifestantes, ter sua identidade vazada ou depender de uma batalha judicial para exercer um direito, o problema não está apenas na existência da legislação, mas na incapacidade do Estado de fazê-la chegar a quem mais precisa dela.
O QUE PODE ACONTECER A PARTIR DE AGORA
A disputa sobre aborto tende a continuar ocupando espaço importante na agenda da direita e da extrema direita. O PL 1.904 mostra que a guerra cultural pode produzir alterações concretas na legislação, inclusive com efeitos diretos sobre vítimas de estupro que descobrem a gravidez depois de 22 semanas.
Nikolas também deve permanecer no centro desse debate porque sua projeção política depende em grande parte da capacidade de transformar pautas morais em conteúdo de grande circulação. Quanto mais essa estratégia cresce, maior é a responsabilidade de confrontar suas afirmações não apenas com opiniões adversárias, mas com os fatos que elas silenciam.
A menina do Espírito Santo não precisava de alguém preocupado com seu “sexo desregrado”; precisava que alguém interrompesse os estupros que sofria desde a infância. A menina de Santa Catarina não precisava que adultos escolhessem em seu lugar como ela deveria suportar uma gravidez decorrente de violência; precisava que seu direito fosse garantido sem peregrinação institucional.
Depois que um agressor arranca de uma criança o controle sobre o próprio corpo pela violência, a obrigação do Estado deveria ser ajudá-la a recuperá-lo. Não entregar esse controle novamente a deputados, líderes religiosos ou qualquer outro adulto que decida, de longe, que ela deve carregar até o parto as consequências do crime sofrido.
FONTES CONSULTADAS
Pesquisa Nacional de Aborto 2021, de Debora Diniz, Marcelo Medeiros e Alberto Madeiro, publicada em Ciência & Saúde Coletiva.
Ministério da Saúde, orientações oficiais para atendimento às vítimas de violência sexual.
Ministério Público do Espírito Santo e cobertura jornalística sobre a menina de 10 anos vítima de estupro em São Mateus.
Folha de S.Paulo, apuração sobre a atuação de Damares Alves no caso da menina de 10 anos.
Ministério Público Federal e cobertura jornalística sobre a menina de 11 anos vítima de estupro em Santa Catarina.
Polícia Civil de Mato Grosso e cobertura sobre Thiago Bitencourt Ianhes Barbosa.
Folha de S.Paulo, condenação de Benedito Aleixo da Silva, Dito Motorista.
Câmara Municipal do Rio e cobertura jornalística sobre a cassação de Gabriel Monteiro.
UOL e Folha de S.Paulo, informações sobre Hissam Hussein Dehaini, patrimônio, apoio a Bolsonaro, casamento e cargos ocupados por familiares da adolescente e do prefeito.
Câmara dos Deputados, informações oficiais sobre o PL 1.904/2024.
Mariliz Pereira Jorge, Folha de S.Paulo, coluna sobre as declarações de Nikolas Ferreira.
