Projeto selecionará cinco pessoas artistas de Campinas para uma exposição coletiva, com cachê individual de R$ 1 mil. Inscrições seguem abertas até 15 de setembro.
A arte também é uma forma de existir, disputar memória, ocupar espaços e contar a própria história sem depender do olhar de quem sempre teve mais acesso aos meios de produção cultural. É com essa perspectiva que o Olhar da Diversidade está com inscrições abertas para uma nova edição voltada a pessoas artistas LGBTQIAPN+ que trabalham com fotografia e vivem em Campinas. A chamada vai selecionar cinco pessoas, e cada participante receberá R$ 1 mil de cachê artístico, além de ter os custos de impressão, montagem, divulgação, acessibilidade e ações educativas assumidos pela produção do projeto. As inscrições ficam abertas até 15 de setembro de 2026, e a exposição está prevista para acontecer em novembro, na própria cidade.
Mais do que oferecer uma vaga em uma exposição, a iniciativa cria condições concretas para que pessoas LGBTQIAPN+ possam produzir, apresentar e fazer circular suas próprias narrativas visuais. Isso importa porque a presença da diversidade na cultura não pode se limitar a aparecer como tema de obras produzidas por outras pessoas. Também é fundamental garantir espaço para quem cria, fotografa, dirige, escreve, pesquisa, seleciona imagens e decide quais histórias merecem chegar ao público. Quando pessoas LGBTQIAPN+ ocupam esse lugar de autoria, a fotografia deixa de ser apenas registro e se transforma também em ferramenta de memória, identidade, autonomia e afirmação de direitos.
Cinco vagas para artistas que vivem em Campinas
A chamada é destinada a pessoas artistas maiores de 18 anos, brasileiras ou estrangeiras naturalizadas, residentes em Campinas e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+. Para participar, é necessário apresentar uma série fotográfica autoral com seis a dez imagens, acompanhada de título da série, título individual das fotografias, descrição das imagens para acessibilidade, texto curatorial, minibio, fotografia da pessoa candidata, portfólio, documento de identificação e comprovante ou autodeclaração de residência. A seleção também informa que busca enfrentar desigualdades que atravessam o acesso à produção cultural, com atenção à diversidade de raça, gênero, território e deficiência.
Esse cuidado é importante porque acesso à cultura nunca foi distribuído de maneira igual. Produzir arte exige tempo, equipamento, formação, oportunidade, espaços de exposição e recursos financeiros, e essas condições não chegam da mesma forma para todas as pessoas. Quando um projeto prevê cachê, montagem, impressão, divulgação e acessibilidade, ele reconhece uma questão básica que ainda precisa ser repetida muitas vezes no setor cultural: trabalho artístico é trabalho e precisa ser remunerado. Não basta convidar pessoas LGBTQIAPN+ para participar de uma programação e esperar que elas arquem com todos os custos para estar ali. Valorizar a diversidade também significa criar condições materiais para que essa presença seja possível.
Fotografia também é direito de contar a própria história
Para quem acompanha as lutas LGBTQIAPN+, a discussão sobre imagem nunca foi pequena. Durante muito tempo, corpos, afetos e identidades dissidentes apareceram na cultura e na comunicação através de olhares carregados de estereótipos, apagamentos e enquadramentos que pouco tinham a ver com a experiência de quem estava sendo retratado. Por isso, ampliar o espaço de pessoas LGBTQIAPN+ como autoras das imagens é também enfrentar uma desigualdade histórica: quem tem o direito de representar quem, quem escolhe o enquadramento e quem decide quais experiências serão preservadas como memória coletiva.
O Olhar da Diversidade trabalha justamente nesse campo. Em sua apresentação institucional, o projeto se define como uma exposição de fotografias produzidas por artistas dissidentes, celebrando diversidade, identidade e resistência por meio de diferentes perspectivas. A iniciativa já realizou outras edições em Campinas e reuniu exposições, oficinas e atividades formativas. Em 2023, uma edição realizada na Sala dos Toninhos apresentou trabalhos de cinco artistas selecionades em áreas como fotoarte, retrato e fotografia urbana, fortalecendo a produção fotográfica LGBTQIAPN+ e criando espaço público para essas obras circularem na cidade.
Ocupar a cultura também é ocupar a cidade
Projetos como esse têm uma importância que vai além da programação de uma galeria. Cultura é direito, espaço de formação e instrumento de construção de pertencimento. Quando uma pessoa LGBTQIAPN+ vê uma exposição criada por outras pessoas da comunidade, encontra ali possibilidades de identificação que durante muito tempo foram negadas em muitos espaços culturais. Quando essa mesma pessoa consegue produzir e expor seu próprio trabalho, o movimento é ainda mais forte: ela deixa de aparecer apenas como público e passa a ocupar também o lugar de autoria, criação e produção de conhecimento.
Essa presença ganha ainda mais força quando acontece fora de circuitos fechados e chega aos espaços culturais da cidade. Campinas já recebeu outras ações do Olhar da Diversidade envolvendo fotografia, artes visuais, oficinas e diálogos com artistas, pessoas pesquisadoras e ativistas LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência. Em 2025, por exemplo, o projeto realizou uma programação gratuita em diferentes espaços culturais, reunindo exposições, intervenções artísticas e atividades de formação. Esse histórico mostra que a atual chamada não surge isolada, mas faz parte de uma trajetória voltada à ampliação da diversidade dentro da produção cultural da cidade.
Cachê também é política de valorização
O pagamento de R$ 1 mil para cada uma das cinco pessoas selecionadas precisa ser visto como parte central da proposta. Em muitos projetos culturais, artistas de grupos historicamente afastados dos espaços institucionais são chamados a oferecer trabalho, experiência e imagem em nome da diversidade, sem receber remuneração compatível. Ao estabelecer um cachê e assumir custos de produção da exposição, o Olhar da Diversidade reconhece que inclusão sem condições materiais pode se transformar apenas em discurso. Participar de uma exposição exige criação, preparação de arquivo, organização de portfólio, escrita de apresentação, acompanhamento de montagem e disponibilidade de tempo, e tudo isso tem valor profissional.
A chamada também reforça uma concepção mais ampla de acessibilidade e participação cultural. Não basta abrir uma inscrição e considerar que todas as pessoas partem das mesmas condições. Barreiras econômicas, raciais, territoriais, de gênero e relacionadas à deficiência interferem diretamente em quem consegue produzir, circular e permanecer no campo das artes. Políticas culturais comprometidas com diversidade precisam reconhecer essas diferenças e agir para reduzi-las, garantindo que mais pessoas possam chegar aos espaços de criação sem precisar apagar sua identidade ou enfrentar sozinhas obstáculos que são produzidos pela própria desigualdade social.
Inscrições vão até 15 de setembro
Quem quiser participar precisa ficar atente ao prazo. As inscrições terminam em 15 de setembro, e o resultado está previsto para ser divulgado até 1º de outubro. A exposição deverá acontecer em novembro de 2026, em Campinas, com duração prevista de 30 dias. Antes de preencher o formulário, é importante organizar a série fotográfica e conferir todas as exigências do edital para evitar que a inscrição seja prejudicada por falta de algum documento ou informação.
Ao abrir espaço para cinco artistas LGBTQIAPN+ produzirem, receberem por seu trabalho e mostrarem suas obras, o Olhar da Diversidade fortalece algo que ainda precisa ser defendido todos os dias: o direito de existir também passa pelo direito de criar, produzir memória e ocupar a cultura com a própria voz e o próprio olhar. Cada fotografia pode carregar uma história, um território, uma identidade, uma lembrança, uma denúncia, um afeto ou uma possibilidade de futuro. Quando essas imagens encontram espaço para circular, não é apenas uma exposição que ganha diversidade. É a própria cidade que passa a enxergar mais de si mesma.
