Operação Transparência 3 mira o deputado federal Cezinha de Madureira e duas advogadas. A investigação encontrou diálogos sobre pedidos a ministros, memoriais destinados a gabinetes do Supremo e contratos com pagamentos vinculados ao resultado de processos judiciais. A própria Polícia Federal ressalta que não há, até o momento, elementos que indiquem participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos investigados.
A Polícia Federal investiga uma possível estrutura de comercialização de influência junto a tribunais superiores, com o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) no centro das suspeitas. A terceira fase da Operação Transparência, deflagrada em 14 de setembro, cumpriu quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo para aprofundar suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A investigação é um desdobramento do inquérito iniciado em dezembro de 2025 para apurar irregularidades na destinação de emendas parlamentares.
A PF afirma que integrantes do grupo investigado teriam negociado com terceiros o pagamento de valores expressivos condicionados ao resultado de processos judiciais, sob a alegação de que poderiam influenciar decisões. A representação policial levada ao Supremo descreve uma atuação que envolveria o deputado e as advogadas Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, e Valéria Rodrigues Linhares, com funções diferentes na condução das causas, na elaboração de documentos, na formalização de contratos e nos contatos com integrantes dos tribunais. Trata-se de uma hipótese investigativa, ainda sem julgamento definitivo sobre a responsabilidade das pessoas envolvidas.
Mensagens encontradas no celular de Tuca abriram uma nova frente
Grande parte dos diálogos que sustentam a investigação foi encontrada no celular de Mariângela Fialek, apreendido em dezembro de 2025 durante uma fase anterior da Operação Transparência. Mariângela é advogada, ocupava função na Câmara dos Deputados e havia trabalhado como assessora de Arthur Lira quando ele presidia a Casa. A perícia no aparelho levou a PF a identificar conversas sobre processos judiciais, memoriais destinados a ministros e contatos atribuídos a Cezinha de Madureira.
Na representação reproduzida na decisão do ministro Flávio Dino, a Polícia Federal descreve uma possível divisão de tarefas. Mariângela apareceria na captação e formalização das causas e na elaboração dos memoriais; Valéria Rodrigues Linhares seria responsável por contratos de honorários e cessões de crédito; e Cezinha faria os contatos pessoais com integrantes de tribunais superiores. A PF afirma ter identificado uma repetição desse padrão em diferentes episódios analisados.
A decisão judicial reproduz a identificação de Valéria como esposa do parlamentar, mas ela contestou essa informação. Ao UOL, Valéria afirmou que não é casada com Cezinha de Madureira e informou que pediria acesso integral ao processo para conhecer os fundamentos das diligências. Por isso, nesta reportagem ela é tratada como advogada ligada ao deputado, sem atribuição de vínculo conjugal como fato incontroverso.
“Vou pedir a ele”: Kassio aparece nominalmente nos diálogos
Um dos episódios que mais chamaram a atenção dos investigadores envolve a Reclamação 76.831, que tramitava no Supremo Tribunal Federal. A reportagem do ICL Notícias que publicou os diálogos mostra que, em 12 de junho de 2025, Mariângela encaminhou um memorial a Cezinha e tratou da necessidade de uma intervenção relacionada ao processo. O deputado respondeu que tinha uma conversa marcada para as 16 horas e identificou o interlocutor como o ministro Kassio Nunes Marques.
Na sequência da conversa, Cezinha escreveu que iria “pedir a ele”. Para a Polícia Federal, a expressão é relevante porque indica, na hipótese investigativa, que a atuação do parlamentar poderia ultrapassar o simples encaminhamento de documentos e envolver um pedido pessoal ao julgador em causa acompanhada por advogadas ligadas a ele. A realização de audiência ou conversa entre parlamentar e magistrado, isoladamente, não constitui crime, ponto que também foi expressamente registrado por Flávio Dino.
Na mesma conversa, Cezinha afirmou já ter falado com pessoas chamadas “Andre e Antonio Carlos”. A identidade desses interlocutores não foi estabelecida na decisão, e não há elemento que permita afirmar que o “Andre” mencionado fosse o ministro André Mendonça. Essa distinção é importante porque, seis dias depois, Mariângela encaminhou ao deputado três memoriais relativos à mesma reclamação, destinados nominalmente a Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes.
O fato de um ministro aparecer como destinatário de um memorial não significa participação em qualquer irregularidade. A própria investigação diferencia o contato institucional legítimo com integrantes do Judiciário da suspeita que está sendo examinada: a possibilidade de terceiros cobrarem ou receberem dinheiro alegando possuir influência capaz de interferir no resultado de processos.
Outro processo previa pagamento de R$ 500 mil
A PF encontrou ainda diálogos referentes à Reclamação 79.545, também relatada por Kassio Nunes Marques. O processo havia sido apresentado em interesse de Michele Cariello de Sá Queiroz, então prefeita de Beberibe, no Ceará, e buscava interromper uma investigação conduzida pelo Ministério Público estadual. Documentos examinados pela polícia indicavam contrato com previsão de R$ 500 mil, com pagamento após o julgamento.
Em uma das mensagens relacionadas ao caso, Mariângela perguntou ao deputado se ele havia realizado o despacho. Cezinha respondeu: “Despachei sim”, acrescentando que o contato teria ocorrido no dia anterior. Para a PF, a combinação entre contratos vinculados ao resultado das ações e mensagens sobre contatos pessoais com julgadores é um dos elementos que justificam o aprofundamento da investigação.
Não há, porém, demonstração de que Nunes Marques tenha recebido dinheiro, aceitado vantagem ou decidido o processo em troca de qualquer benefício. O que está sob investigação é a atuação de quem supostamente oferecia a terceiros uma capacidade de influência sobre o tribunal.
Contratos ligados a outro caso chegavam a R$ 3 milhões
O maior valor identificado nos episódios divulgados até agora aparece na Reclamação 81.608, também sob relatoria de Nunes Marques. O processo estava relacionado a Denis de Souza Macedo, ex-secretário municipal de Educação de Belford Roxo, preso em fevereiro de 2025 durante investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de desvios de cerca de R$ 112 milhões de recursos do Fundeb e do Programa Nacional de Alimentação Escolar.
Os documentos examinados pela PF mostram uma previsão de R$ 1 milhão em honorários destinados à sociedade de advocacia de Valéria Rodrigues Linhares. Outro instrumento relacionado ao mesmo caso previa mais R$ 2 milhões em caso de sucesso, definido como a obtenção da liberdade do cliente, ainda que fossem aplicadas medidas cautelares. Somadas, as previsões contratuais relacionadas ao caso alcançavam R$ 3 milhões, o que não significa que todo esse valor tenha sido efetivamente pago.
As mensagens também registram Cezinha afirmando que já havia falado sobre o assunto. Em outro momento, depois de uma resposta formal do gabinete a um pedido de audiência, o deputado escreveu que iria pessoalmente verificar a situação. A Polícia Federal usa esses diálogos para sustentar a necessidade de investigar se os contatos eram apenas institucionais ou se estavam associados a uma atividade remunerada de intermediação de influência.
PF fala em possível “comercialização de influência”
A representação levada ao STF afirma que a investigação pretende determinar a existência, a dimensão e a eventual permanência de uma estrutura destinada à “comercialização de influência” junto a integrantes do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral. Os investigadores relacionam essa hipótese aos contratos de valores elevados e às mensagens em que o parlamentar aparece afirmando que havia falado, despachado ou feito pedidos a autoridades.
Flávio Dino considerou os indícios suficientes para autorizar as buscas e a apreensão de equipamentos e documentos. A decisão registra que Cezinha não aparece como advogado nas causas e que a investigação precisa determinar se sua condição de parlamentar era utilizada para transmitir a clientes a percepção de acesso privilegiado a magistrados. A autorização das buscas não representa condenação e não significa que as hipóteses apresentadas pela PF estejam definitivamente comprovadas.
Ministros citados não são investigados
A Polícia Federal fez uma ressalva expressa ao anunciar a operação: não há elementos que indiquem participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos apurados. Na decisão de Dino, os ministros mencionados aparecem como possíveis destinatários da influência que os investigados afirmariam possuir, e não como suspeitos de integrar a estrutura investigada.
Isso significa que os nomes de Kassio Nunes Marques, André Mendonça, Gilmar Mendes e outros magistrados surgem porque aparecem em memoriais, conversas ou contatos citados no material analisado. Até o momento, a investigação divulgada não apresenta evidências de que esses ministros tenham pedido, aceitado ou recebido pagamentos ou outras vantagens para decidir processos. Também não há demonstração de que alguma decisão tenha sido comprada.
Dino ressaltou ainda que receber parlamentares, conceder audiência a advogados regularmente constituídos e analisar memoriais são atos lícitos e fazem parte do funcionamento do sistema de Justiça. O ponto investigado é outro: saber se terceiros exploravam esses acessos, reais ou alegados, para cobrar valores sob a promessa de influenciar decisões.
R$ 510 mil em espécie encontrados com Valéria também entraram no caso
A investigação incorporou ainda um episódio anterior envolvendo R$ 510 mil em dinheiro vivo apreendidos com Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O dinheiro foi encontrado em sua bagagem em 25 de agosto, quando ela se preparava para embarcar. Como a origem dos valores não foi comprovada imediatamente naquele momento, a quantia foi apreendida pela Polícia Federal.
A defesa de Valéria afirmou ao Metrópoles que o dinheiro tinha origem lícita e seria proveniente de sua atividade profissional como advogada, sustentando que havia documentação capaz de comprovar os valores. Os advogados informaram também que pediriam a devolução da quantia. A apreensão, isoladamente, não comprova lavagem de dinheiro ou qualquer outro crime.
Na decisão que autorizou a Operação Transparência 3, Dino determinou a reunião da investigação sobre os R$ 510 mil com os demais fatos em análise, diante da possibilidade de conexão entre os procedimentos. A finalidade é verificar se existe relação entre o dinheiro, contratos, movimentações financeiras e os episódios investigados pela PF.
Cezinha também intermediou encontro de Mendonça com Daniel Vorcaro
A relação política entre Cezinha de Madureira e André Mendonça é anterior à atual investigação. A Folha de S.Paulo registra que o parlamentar participou da articulação política em torno da indicação de Mendonça ao Supremo, em 2021. Em março de 2025, Cezinha também intermediou uma reunião entre o ministro e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
Mensagens publicadas posteriormente mostram Cezinha avisando Vorcaro sobre o encontro em São Paulo e informando que Mendonça o aguardava. O próprio ministro confirmou a reunião e declarou que recebeu o empresário uma única vez, para tratar da Suspensão de Tutela Provisória 976, relacionada a créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Mendonça afirmou ainda que, quando posteriormente participou do julgamento, votou contra a posição defendida pelo banco.
Esse encontro pertence a outro contexto e, por si só, não comprova relação com a suposta comercialização de influência investigada na Operação Transparência 3. Sua relevância para o caso está no histórico de proximidade e de acesso político de Cezinha ao ministro, elemento que ajuda a contextualizar por que referências a Mendonça encontradas nas mensagens receberam atenção dos investigadores.
Defesa de Cezinha nega qualquer irregularidade
Em nota divulgada pela Folha de S.Paulo, a defesa de Cezinha de Madureira negou que o deputado tenha cometido irregularidades e afirmou que ele está à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários. Os advogados sustentaram que, com acesso integral aos autos e exercício do contraditório, ficará demonstrado que nenhuma prática ilegal ocorreu.
A defesa também questionou o momento da operação, realizada durante o período eleitoral de 2026. Na manifestação, os advogados argumentaram que medidas de grande repercussão deveriam ser conduzidas com distância de circunstâncias políticas ou eleitorais. Cezinha é candidato à reeleição para deputado federal.
As alegações da defesa coexistem com os indícios reunidos pela Polícia Federal e ainda serão examinadas no processo. Até esta fase, Cezinha de Madureira não foi condenado pelos fatos investigados na Operação Transparência 3, e a apuração continua sob supervisão do Supremo Tribunal Federal.
Contratos, acesso ao poder e uma pergunta ainda em aberto
Os documentos conhecidos até agora colocam lado a lado contratos de alto valor vinculados a resultados judiciais, memoriais destinados a ministros e mensagens em que um deputado afirma ter conversado, despachado ou feito pedidos a integrantes do Judiciário. Esses elementos levaram a PF e o Supremo a aprofundar a investigação sobre uma possível comercialização de influência.
O que ainda precisa ser estabelecido judicialmente é se essa influência realmente existia, se era apenas anunciada aos clientes ou se os contatos descritos se limitaram a atividades institucionais legítimas. Também não está demonstrado que ministros tenham participado das negociações financeiras ou alterado decisões em troca de vantagens. Essa diferença é central para separar os fatos já documentados das suspeitas que permanecem sob investigação.
