Relatos apontam cobrança para divulgar apoio a Clóvis Volpi; caso foi levado ao Ministério Público
Servidoras, servidores e trabalhadoras e trabalhadores terceirizados de Ribeirão Pires denunciaram pressão para divulgar, em perfis pessoais de WhatsApp e redes sociais, material político favorável a Clóvis Volpi, hoje candidato a deputado estadual pelo PSD.
A denúncia foi publicada inicialmente pelo Diário de Ribeirão Pires em 31 de julho de 2026. Segundo o jornal, profissionais da Saúde relataram que teriam recebido orientação para publicar uma imagem de Clóvis acompanhada da frase “Sou amigo do Clóvis Volpi”.
Os relatos envolvem uma questão central nas relações de trabalho: o uso de vínculos hierárquicos, cargos de chefia ou dependência profissional para influenciar manifestação político-eleitoral.
O caso ganhou também uma frente institucional. Duas publicações jornalísticas informaram que uma representação foi encaminhada ao Ministério Público para apuração.
Trabalhadoras relataram medo de perder o emprego
Segundo o Diário de Ribeirão Pires, servidoras, servidores e pessoas terceirizadas da área da Saúde relataram pressão para divulgar o material político em seus perfis pessoais.
O jornal preservou a identidade de pessoas ouvidas na reportagem.
Entre os relatos publicados está o de uma trabalhadora terceirizada que associou a pressão ao receio de perder o emprego.
A condição das pessoas terceirizadas é especialmente importante porque relações desse tipo podem envolver dependência simultânea da empresa empregadora e da estrutura pública onde o serviço é prestado.
A posição ocupada por quem transmite uma orientação política, portanto, é parte central da investigação sobre eventual constrangimento no ambiente de trabalho.
Denúncia foi levada ao Ministério Público
O Diário de Ribeirão Pires informou que o ex-vice-prefeito Gabriel Roncon apresentou representação ao Ministério Público em 31 de julho.
O Jornal Folha também noticiou o encaminhamento e atribuiu a Roncon relatos envolvendo trabalhadoras e trabalhadores de diferentes setores municipais, entre eles Saúde, Educação, Guarda Civil Municipal e áreas administrativas.
Segundo a publicação, a representação questiona possível pressão exercida por pessoas comissionadas em posições de liderança para promover politicamente Clóvis Volpi.
Gabriel Eid Roncon foi vice-prefeito de Ribeirão Pires e atualmente ocupa cargo comissionado de assistente especial parlamentar no gabinete da deputada estadual Ana Carolina Serra, conforme registro público da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.
A posição política de quem apresenta a representação integra o contexto do caso. O conteúdo da denúncia, por sua vez, deve ser analisado a partir dos relatos, documentos e providências adotadas pelos órgãos responsáveis.
Clóvis já havia deixado a Secretaria de Saúde
Clóvis Volpi deixou o comando da Secretaria Municipal de Saúde em 28 de fevereiro de 2026, cerca de cinco meses antes de a denúncia vir a público.
Na ocasião, sua saída foi relacionada à preparação para a disputa eleitoral. Luiz Carlos Perlatti assumiu a Secretaria.
Esse dado é importante para reconstruir a cadeia administrativa envolvida nos relatos.
Quando as denúncias foram publicadas em julho, Clóvis não ocupava mais cargo de secretário municipal de Saúde.
A investigação sobre eventual pressão no interior da pasta, portanto, envolve saber quem ocupava funções de chefia, quem transmitiu as orientações relatadas e qual relação essas pessoas mantinham com a administração municipal ou com a pré-campanha.
De pré-candidato a candidato a deputado estadual
No momento em que os relatos foram divulgados, Clóvis Volpi era apresentado como pré-candidato a deputado estadual.
Em 16 de agosto, lançou oficialmente sua candidatura pelo PSD em Ribeirão Pires.
A denúncia, portanto, se refere a acontecimentos atribuídos ao período de pré-campanha.
A cronologia também importa porque a legislação eleitoral estabelece limites para manifestações e condutas no ambiente de trabalho durante o processo eleitoral.
TSE proíbe assédio eleitoral no ambiente de trabalho
Em 2026, o Tribunal Superior Eleitoral incluiu expressamente na regulamentação das eleições a proibição de propaganda ou assédio eleitoral no ambiente de trabalho público ou privado.
A Resolução TSE nº 23.755/2026 reforçou a proteção das trabalhadoras e trabalhadores contra pressões relacionadas a voto, apoio ou manifestação eleitoral.
O Ministério Público do Trabalho caracteriza o assédio eleitoral como prática de coação, intimidação, ameaça ou constrangimento no contexto da relação de trabalho destinada a influenciar a orientação política ou eleitoral de uma pessoa.
A proteção abrange diferentes formas de vínculo, inclusive trabalho no setor público e situações envolvendo pessoas terceirizadas.
Entre as condutas que podem ser analisadas estão pressões para manifestação política, divulgação compulsória de apoio e ameaças de prejuízo profissional relacionadas à posição eleitoral.
O enquadramento jurídico de cada caso depende das circunstâncias concretas, da relação entre as pessoas envolvidas e das provas reunidas.
Relação hierárquica está no centro da denúncia
O ponto mais relevante dos relatos não é simplesmente a circulação de uma peça política.
Servidoras, servidores e trabalhadoras e trabalhadores podem, individualmente, possuir preferências políticas e manifestá-las dentro dos limites legais.
A questão muda quando uma manifestação deixa de ser espontânea e passa a ser relacionada a uma ordem, cobrança ou pressão proveniente de alguém com poder sobre o emprego, cargo, contrato ou cotidiano profissional.
Por isso, a denúncia em Ribeirão Pires envolve uma pergunta objetiva:
houve utilização de relação hierárquica ou da estrutura pública para constranger trabalhadoras e trabalhadores a promover uma candidatura?
Essa é a questão que precisa orientar a atuação dos órgãos de controle.
Terceirizadas estão em posição especialmente sensível
Os relatos envolvendo pessoas terceirizadas acrescentam outra camada à denúncia.
Diferentemente de uma servidora ou servidor efetivo, uma trabalhadora terceirizada depende formalmente de uma empresa contratada, mas desenvolve suas atividades dentro de uma estrutura pública e pode estar submetida, na prática cotidiana, a diferentes relações de autoridade.
Quando existe receio de perder o emprego, a fronteira entre “pedido” e “pressão” precisa ser observada com atenção.
A identificação das empresas envolvidas, das chefias das unidades e da fiscalização dos contratos pode ajudar a esclarecer como essas relações funcionavam nos locais onde as denúncias surgiram.
Prefeitura possui canais institucionais contra assédio
A Prefeitura de Ribeirão Pires mantém uma Ouvidoria municipal e disponibiliza materiais institucionais de prevenção ao assédio.
Esses mecanismos também colocam uma responsabilidade sobre a administração diante de denúncias envolvendo ambiente de trabalho.
Quando uma servidora, servidor ou pessoa terceirizada relata constrangimento relacionado ao vínculo profissional, cabe verificar se os canais internos foram acionados e quais medidas administrativas foram tomadas.
Município já sofreu condenação em outro caso de assédio
Ribeirão Pires também possui um antecedente institucional relacionado às condições de trabalho no serviço público.
O Ministério Público do Trabalho informou que o Município foi condenado judicialmente em processo envolvendo assédio moral e discriminação por orientação sexual no Departamento de Fauna.
Segundo o MPT, aquele caso teve origem em denúncia apresentada em 2023 e resultou em medidas de prevenção, mecanismos de denúncia e condenação por danos morais coletivos.
O processo envolve fatos diferentes da denúncia eleitoral de 2026.
Seu peso para esta reportagem está no histórico de exigência institucional de prevenção e enfrentamento a práticas abusivas no ambiente de trabalho municipal.
Outros relatos de assédio apareceram em 2026
O Diário de Ribeirão Pires também publicou em julho e agosto outros relatos de servidoras e servidores sobre situações de assédio moral dentro da administração municipal, inclusive na Secretaria de Comunicação.
São episódios distintos, que devem ser analisados separadamente.
A repetição de denúncias envolvendo relações de trabalho, entretanto, amplia a importância de acompanhar quais medidas de prevenção, apuração interna e proteção às trabalhadoras e trabalhadores estão sendo utilizadas pela Prefeitura.
O papel de Guto Volpi
Guto Volpi é o atual prefeito de Ribeirão Pires e ocupa o comando do Executivo municipal no período em que as denúncias surgiram.
Sua responsabilidade institucional está relacionada ao funcionamento da administração pública e das estruturas de chefia do município.
A denúncia publicada não atribui, por si só, uma ordem diretamente ao prefeito.
A investigação sobre o caso deve observar se a orientação relatada partiu de agentes públicos, pessoas comissionadas ou chefias vinculadas à estrutura administrativa e qual era a cadeia de responsabilidade dessas pessoas.
O papel de Clóvis Volpi
Clóvis Volpi é o beneficiário político do material cuja divulgação teria sido cobrada de servidoras, servidores e pessoas terceirizadas.
Isso torna necessária a apuração sobre a origem da peça, sua distribuição e a participação de pessoas ligadas à candidatura.
Também é relevante verificar como o material chegou aos ambientes de trabalho mencionados nas denúncias e se houve atuação coordenada entre agentes políticos, campanha e estruturas administrativas.
Nenhuma responsabilização individual pode ser presumida apenas pelo fato de a peça promover sua candidatura.
A investigação deve identificar autoria das mensagens, origem das orientações e cadeia de circulação.
E depois? MP pode esclarecer destino da representação
O principal desdobramento institucional agora está no Ministério Público.
A representação atribuída a Gabriel Roncon pode resultar em diferentes providências, como pedido de informações, coleta de documentos, oitivas, abertura de procedimento ou arquivamento.
O eventual envolvimento de relações de trabalho e de promoção eleitoral também pode levar a análises por órgãos como Ministério Público do Trabalho e Justiça Eleitoral, conforme os fatos apurados.
O ponto decisivo será saber qual destino foi dado à representação e quais elementos acompanharam o pedido de investigação.
Ambiente de trabalho não pode ser instrumento de pressão eleitoral
A liberdade política das trabalhadoras e trabalhadores não desaparece quando começa o expediente.
Nem servidoras e servidores públicos nem pessoas terceirizadas podem ser tratadas como extensão automática de interesses eleitorais de chefias, partidos ou candidaturas.
A existência de uma relação de poder torna especialmente grave qualquer pressão associada a ameaça de demissão, exoneração, perda de função ou prejuízo profissional.
No serviço público, o problema alcança também outro princípio: a estrutura administrativa pertence à população e não pode ser confundida com a estrutura eleitoral de governantes ou candidaturas.
É por isso que as denúncias de Ribeirão Pires exigem investigação.
Não se trata apenas de saber quem publicou uma imagem.
Trata-se de saber se trabalhadoras e trabalhadores tiveram liberdade para decidir se queriam ou não publicá-la.
FONTES
Diário de Ribeirão Pires — reportagem de 31 de julho de 2026 sobre os relatos de servidoras, servidores e pessoas terceirizadas da Saúde.
Jornal Folha — publicação de 31 de julho, posteriormente atualizada, sobre a representação atribuída a Gabriel Roncon e relatos envolvendo diferentes áreas da administração.
Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.755/2026, que trata da vedação ao assédio eleitoral em ambientes de trabalho.
Ministério Público do Trabalho — orientações institucionais sobre assédio eleitoral e proteção de trabalhadoras e trabalhadores.
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo — registro funcional de Gabriel Eid Roncon.
Prefeitura de Ribeirão Pires — informações institucionais, Ouvidoria municipal e mecanismos de prevenção ao assédio.
Diário do Grande ABC — informações sobre a saída de Clóvis Volpi da Secretaria Municipal de Saúde e o lançamento de sua candidatura a deputado estadual.
Ministério Público do Trabalho da 2ª Região — informações sobre processo anterior envolvendo assédio moral e discriminação no Município de Ribeirão Pires.
