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O Lado Esquerdo da Notícia

Tarifa Zero não é para todas as pessoas

Por Léo Duarte

Em São Caetano, moradores cadastrados seguem viajando de graça, enquanto parte de quem vem de outras cidades para trabalhar paga R$ 5 por embarque

A Tarifa Zero continua existindo em São Caetano do Sul, mas não vale para todas as pessoas que utilizam os ônibus municipais. Desde 15 de julho de 2026, moradores cadastrados seguem viajando gratuitamente, enquanto parte de quem mora em outras cidades paga R$ 5 por embarque.

A diferença está principalmente no endereço. Uma pessoa pode trabalhar todos os dias em São Caetano, participar da economia local, atender clientes, cuidar de pessoas, atuar em hospitais, escolas, obras, lojas, restaurantes ou escritórios e, ainda assim, pagar passagem porque mora do outro lado da divisa municipal.

No primeiro dia do novo modelo, a Prefeitura informou que as filas no Terminal Nicolau Delic eram formadas, em sua maioria, por pessoas de fora que vêm à cidade trabalhar. Para quem não está entre as categorias com direito à gratuidade, a tarifa passou a ser de R$ 5 por viagem.

A política colocou, assim, uma fronteira tarifária dentro de uma realidade metropolitana. São Caetano recebe diariamente trabalhadoras e trabalhadores de municípios vizinhos, mas concentra a gratuidade principalmente em quem comprova residência na cidade.

Tarifa Zero deixou de ser universal

São Caetano implantou a gratuidade universal nos ônibus municipais em 2023. Em 2026, a Prefeitura mudou o modelo e encaminhou à Câmara Municipal uma proposta para reformular o custeio e as regras de gratuidade do transporte.

A mudança foi aprovada em junho. A Lei Municipal 6.319, de 17 de junho de 2026, estabeleceu a nova política, e o Decreto 12.285, de 1º de julho, regulamentou as regras e fixou a tarifa pública unitária em R$ 5.

A cobrança passou a valer em 15 de julho. Moradores cadastrados mantiveram a gratuidade, assim como os demais grupos contemplados pela legislação, nas condições estabelecidas pelas normas municipais e federais.

Por isso, morar fora de São Caetano não significa, por si só, que a pessoa necessariamente pagará a tarifa. Há categorias com direito à gratuidade independentemente da residência, conforme as regras específicas aplicáveis a cada grupo.

Para grande parte das pessoas que mora fora e trabalha na cidade, entretanto, o vínculo de trabalho com São Caetano não garante Tarifa Zero. A residência passou a ser um dos elementos centrais para determinar o acesso ao benefício municipal.

Quem mora tem gratuidade; trabalhar na cidade não garante o benefício

A diferença fica clara quando dois deslocamentos cotidianos são comparados. Uma pessoa que mora em São Caetano e trabalha em São Paulo pode utilizar gratuitamente o ônibus municipal para chegar à estação ou a outro ponto de conexão, desde que esteja regularmente cadastrada.

Já uma pessoa que mora em Santo André e trabalha diariamente em São Caetano paga R$ 5 por embarque municipal se não estiver entre as categorias com direito à gratuidade. O desenho da política, portanto, prioriza a residência em São Caetano, e não o vínculo cotidiano de trabalho com o município.

Essa escolha tem impacto numa cidade inserida em um mercado de trabalho metropolitano. São Caetano concentra empregos e recebe diariamente pessoas de Santo André, São Bernardo do Campo, Mauá, Diadema, São Paulo e outros municípios.

As divisas administrativas estabelecem os limites de atuação do poder público municipal, mas a circulação cotidiana ultrapassa essas fronteiras. Moradia e trabalho frequentemente estão em cidades diferentes, especialmente em uma região urbana integrada como o Grande ABC.

São Caetano atrai trabalhadores de outras cidades

O deslocamento de trabalhadoras e trabalhadores para São Caetano é uma característica histórica da Região Metropolitana de São Paulo. Estudos sobre mobilidade pendular mostram que uma parcela expressiva das pessoas que trabalham no município reside fora dele.

Pesquisa publicada em São Paulo em Perspectiva, com dados históricos, apontou que 48,5% das pessoas que trabalhavam em São Caetano residiam em outro município da metrópole, aproximadamente 30 mil pessoas naquele período.

Outro estudo, baseado no Censo de 2010, também identificou São Caetano entre os municípios em que mais da metade da mão de obra residia fora da própria cidade. Os números correspondem aos períodos analisados por essas pesquisas, mas demonstram uma característica histórica da organização metropolitana do trabalho.

Os dados recentes de emprego mostram que São Caetano continua sendo um polo econômico regional. Em julho de 2026, o município registrou saldo positivo de 663 empregos formais, segundo o Novo Caged, o maior resultado entre as sete cidades do Grande ABC naquele mês.

A cidade continua atraindo empregos e atividade econômica. Ao mesmo tempo, parte das pessoas que atravessa suas fronteiras para trabalhar passou a pagar pelo transporte municipal.

Prefeitura relaciona mudança ao aumento de passageiros

A Prefeitura relaciona a alteração da Tarifa Zero ao forte crescimento da quantidade de passageiros após a implantação da gratuidade universal. Segundo a administração municipal, antes do programa os ônibus transportavam cerca de 20 mil passageiros por dia.

A expectativa inicial era de crescimento de aproximadamente 50%. Segundo os números divulgados pela Prefeitura, porém, o sistema chegou a registrar um pico de 80 mil passageiros diários durante o período de gratuidade universal.

A administração associou esse aumento à maior ocupação dos veículos e das filas e defendeu mudanças para melhorar a operação. Ao encaminhar a nova política, também apresentou a concentração da gratuidade em moradores como uma forma de conciliar o financiamento do transporte e a oferta do serviço.

Depois da mudança, a Prefeitura passou a destacar a redução da quantidade de passageiros por veículo, das filas e o aumento do espaço disponível nos ônibus. Ao mesmo tempo, parte das pessoas que antes utilizava o sistema gratuitamente passou a pagar por cada viagem.

Movimento caiu no primeiro dia da cobrança

O impacto sobre o movimento dos ônibus apareceu imediatamente. Em 15 de julho, primeiro dia do novo modelo, a VIPE registrou aproximadamente 30 mil passageiros.

A Prefeitura comparou esse resultado ao pico de 80 mil passageiros registrado durante a gratuidade universal e apontou uma redução próxima de 60%. O número de 80 mil corresponde ao pico informado pela administração e, portanto, não representa necessariamente a média diária de todo o período anterior.

Mesmo considerando essa diferença, o volume registrado no primeiro dia do novo modelo ficou muito abaixo do máximo alcançado durante a gratuidade universal. A redução permaneceu visível nas semanas seguintes.

Um mês depois, cerca de 10 mil passageiros pagavam

Em 15 de agosto, um mês depois da mudança, o sistema transportava pouco mais de 40 mil passageiros nos dias úteis, segundo balanço com dados atribuídos à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e à VIPE.

Desse total, aproximadamente 30 mil utilizavam gratuidades e cerca de 10 mil eram pagantes. O movimento total correspondia a aproximadamente metade do pico de 80 mil passageiros divulgado pela Prefeitura para o período de gratuidade universal.

Os números representam o movimento do sistema, e não uma contagem de pessoas únicas. Ainda assim, a diferença mostra uma redução importante na quantidade de viagens registradas pelos ônibus municipais depois da mudança tarifária.

A redução pode envolver diferentes escolhas de deslocamento, como caminhada, trem, ônibus intermunicipal, automóvel, transporte por aplicativo ou outras combinações. O resultado concreto é que o sistema municipal passou a transportar um volume menor de passageiros depois da retomada da cobrança para parte do público.

Quem paga ida e volta pode gastar R$ 220 por mês

O impacto da tarifa aparece com mais clareza quando o valor de cada viagem é transformado em despesa mensal. Uma pessoa que paga R$ 5 na ida e outros R$ 5 na volta gasta R$ 10 por dia apenas com os ônibus municipais de São Caetano.

Em 22 dias de utilização, o gasto chega a R$ 220 no mês. Com 20 dias, são R$ 200; com 24 dias, R$ 240; e, com 26 dias, R$ 260.

Dias de usoDuas viagens por dia
20R$ 200
22R$ 220
24R$ 240
26R$ 260

O salário mínimo nacional em 2026 é de R$ 1.621. Os R$ 220 equivalem a aproximadamente 13,6% do valor bruto do piso nacional, enquanto R$ 260 correspondem a cerca de 16%.

Isso não significa que todas as pessoas trabalhadoras desembolsem integralmente esses valores. Quem tem acesso ao vale-transporte segue as regras específicas do benefício, e há pessoas que utilizam apenas um trecho do sistema municipal.

Para quem não tem o transporte integralmente coberto, a tarifa representa uma despesa que não existia durante a gratuidade universal. Além disso, quem mora em outro município pode precisar pagar trem, ônibus intermunicipal ou outro meio de transporte antes mesmo de chegar aos ônibus de São Caetano.

O mesmo valor pesa de maneiras diferentes

Uma tarifa de R$ 5 não representa a mesma parcela do orçamento para todas as pessoas. Quanto menor a renda disponível, maior pode ser a participação do transporte nas despesas mensais de quem precisa se deslocar diariamente.

A questão ganha importância porque São Caetano concentra empregos em comércio, serviços, saúde, educação, construção e outras atividades que também recebem trabalhadoras e trabalhadores de municípios vizinhos. O vínculo cotidiano dessas pessoas com a cidade, porém, não garante automaticamente acesso à gratuidade.

A diferença criada pela política aparece todos os dias na catraca. Pessoas que utilizam os mesmos ônibus e participam da mesma dinâmica econômica podem pagar valores diferentes conforme os critérios estabelecidos para acesso ao benefício.

Mais de 52 mil cadastros de moradores estavam aprovados

Às vésperas da mudança, 60.327 pessoas haviam solicitado cadastro para utilizar gratuitamente os ônibus. Até 13 de julho, 52.459 solicitações de moradores tinham sido aprovadas, e mais de 21 mil cartões já haviam sido entregues.

Com a entrada em vigor da nova regra, os ônibus passaram a transportar pessoas submetidas a regimes tarifários diferentes. Moradoras e moradores cadastrados utilizam gratuitamente o serviço, assim como pessoas enquadradas em outras gratuidades previstas na legislação.

Quem não está entre os grupos beneficiados paga a tarifa de R$ 5. O sistema municipal passou, portanto, a combinar subsídio público, gratuidade direcionada e cobrança por viagem.

Tarifa Zero tem R$ 32 milhões previstos para 2026

A volta da cobrança para parte dos passageiros não eliminou o financiamento público do transporte. O Plano Plurianual 2026-2029 prevê R$ 32 milhões para a ação Tarifa Zero em 2026.

A previsão é de R$ 33,6 milhões em 2027, R$ 35,28 milhões em 2028 e R$ 37,044 milhões em 2029. Somados, são R$ 137,924 milhões previstos para os quatro anos.

Esses valores correspondem às previsões orçamentárias do PPA. O gasto efetivamente realizado em cada período depende da execução financeira e dos pagamentos efetuados no sistema.

O transporte municipal continua, portanto, recebendo recursos públicos para sustentar a gratuidade. A diferença é que o modelo atual combina esse financiamento com a arrecadação das tarifas pagas pelas pessoas que não estão contempladas pelo benefício.

Ônibus mais vazios não contam toda a história

A redução da quantidade de passageiros por veículo é apresentada pela Prefeitura entre os resultados positivos da mudança. No balanço do primeiro mês, pessoas ouvidas em conteúdo sobre o sistema destacaram maior espaço nos ônibus e redução das filas.

Para quem permanece utilizando o transporte, viajar em veículos menos cheios pode representar uma melhora concreta. Ao mesmo tempo, a redução do movimento mostra que muitas viagens que existiam durante a gratuidade universal deixaram de aparecer no sistema municipal.

Mobilidade, porém, envolve mais do que a ocupação dentro dos veículos. Também envolve o acesso das pessoas ao transporte necessário para chegar ao trabalho, à escola, aos serviços públicos, ao comércio e a outros espaços da cidade.

A mudança, por isso, produz duas realidades simultâneas: ônibus com menor ocupação para parte das pessoas que continuam utilizando o sistema e uma tarifa de R$ 5 para parte de quem antes viajava gratuitamente.

A fronteira municipal não acompanha a vida cotidiana

São Caetano tem cerca de 15 quilômetros quadrados e está fisicamente integrada às cidades vizinhas. Todos os dias, pessoas atravessam suas divisas para trabalhar, estudar, utilizar serviços, fazer compras e manter relações familiares e sociais.

Uma trabalhadora doméstica pode morar em Santo André e trabalhar em São Caetano. Uma profissional da saúde pode vir de Mauá, uma balconista de São Bernardo do Campo e um trabalhador da construção de Diadema. São exemplos de uma dinâmica metropolitana em que moradia e trabalho frequentemente estão em municípios diferentes.

A política tarifária coloca uma diferença de acesso justamente sobre essa realidade. A cidade recebe diariamente pessoas que trabalham em seu território, enquanto concentra a gratuidade principalmente em quem comprova residência dentro de seus limites.

A discussão sobre a Tarifa Zero, portanto, ultrapassa o preço individual de uma passagem. Ela envolve a relação entre mobilidade, trabalho, renda e o acesso às políticas públicas em uma região onde a vida cotidiana atravessa fronteiras municipais.

FONTES

Prefeitura de São Caetano do Sul; Câmara Municipal de São Caetano do Sul; Lei Municipal 6.319/2026; Decreto Municipal 12.285/2026; VIPE — Viação Padre Eustáquio; Plano Plurianual 2026-2029; Novo Caged; estudos sobre mobilidade pendular na Região Metropolitana de São Paulo; e balanço do primeiro mês do novo modelo publicado pelo ABCD Jornal com dados atribuídos à Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e à VIPE.

COLABORE CONOSCO