“Eureca: um ABC para o Brasil” será exibido em 22 de setembro, na Fábrica de Cultura 4.0; produção recupera a participação de crianças, adolescentes e educadores na mobilização que fez do carnaval um instrumento de defesa de direitos
A história de uma mobilização nascida no Grande ABC para fazer crianças e adolescentes conhecerem, ocuparem e defenderem seus direitos chegou ao cinema. O documentário “Eureca: um ABC para o Brasil” será exibido na terça-feira, 22 de setembro, das 15h às 17h, na Fábrica de Cultura 4.0 de São Bernardo do Campo. A sessão será acompanhada de um encontro com o diretor Thiago Fernandes e é indicada para pessoas a partir de 12 anos.
O filme reconstrói a trajetória do Bloco Eureca — Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente, manifestação criada no início dos anos 1990 em São Bernardo e ligada ao Projeto Meninos e Meninas de Rua. Ao longo de mais de três décadas, o bloco transformou carnaval, arte, formação e ocupação das ruas em instrumentos para divulgar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e cobrar a efetivação dos direitos previstos na legislação.
A história registrada no documentário, porém, começa antes do próprio Eureca. Ela alcança as mobilizações dos anos 1980, quando crianças, adolescentes, educadoras, educadores e organizações sociais participaram do debate nacional que modificou a maneira como a infância passou a ser reconhecida pela legislação brasileira.
Documentos da Assembleia Nacional Constituinte registram a participação do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua naquele processo. Em abril de 1987, a organização encaminhou formalmente uma proposta à Constituinte. No mês seguinte, representantes do movimento e crianças participaram de audiência pública sobre direitos da infância. Registros da Câmara mostram ainda que documentos produzidos pelas próprias crianças foram entregues durante os debates constitucionais.
Das mobilizações pelo ECA às ruas de São Bernardo
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu um novo marco ao determinar, no artigo 227, que crianças e adolescentes devem ter seus direitos assegurados com absoluta prioridade pela família, pela sociedade e pelo Estado. Dois anos depois, a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente e consolidou o princípio da proteção integral.
Foi nesse período que nasceu o Eureca. A Assembleia Legislativa de São Paulo situa a criação do bloco em 1991 e o primeiro desfile em 1992, já com uma mensagem que expressava o desafio colocado após a conquista da nova legislação: “O ECA tá aí, só falta cumprir”.
O nome do bloco transformava a própria sigla em afirmação política: Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente. O carnaval passou a servir como espaço de formação e mobilização, aproximando das crianças, adolescentes, famílias e comunidades temas que poderiam permanecer restritos à linguagem jurídica.
Direito à educação, saúde, cultura, lazer, dignidade, liberdade, convivência familiar e comunitária e proteção contra diferentes formas de violência passaram a ocupar as ruas em forma de música, fantasia, bateria e manifestação coletiva. O que estava escrito na legislação ganhava linguagem popular e se convertia também em cobrança dirigida ao poder público.
Essa combinação entre participação e cultura tornou-se uma das marcas do Eureca. Em vez de colocar crianças e adolescentes apenas como público das ações, o bloco abriu espaço para que participassem das atividades, das discussões e da própria construção da manifestação.
Filme recupera arquivos e histórias de quem viveu a mobilização
Dirigido por Thiago Fernandes, “Eureca: um ABC para o Brasil” foi construído a partir de pesquisa histórica, digitalização de arquivos e entrevistas. A narrativa percorre experiências iniciadas nos anos 1980, passa pela Constituição de 1988, pela criação do ECA e pelo desenvolvimento do Bloco Eureca em São Bernardo.
A produção também transforma em memória pública materiais acumulados ao longo da trajetória do movimento. Fotografias, registros audiovisuais, jornais e documentos ajudam a reconstruir não apenas os desfiles, mas o processo político e social que os produziu.
Em outubro de 2025, o documentário foi exibido no Teatro Elis Regina, em São Bernardo. Na ocasião, Thiago Fernandes afirmou que o filme acompanha a trajetória de meninas e meninos da cidade em meio a estratégias de sobrevivência, dignidade e busca por direitos. Weber Góes, presidente do Projeto Meninos e Meninas de Rua, relacionou essa história ao desafio permanente de fazer os direitos previstos no ECA chegarem à vida cotidiana.
A memória do Eureca também foi reunida em uma exposição realizada em 2025, com fotografias, recortes de jornais, vídeos, documentos históricos e obras de artistas do Grande ABC. A mostra abordou o surgimento do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua e as mobilizações relacionadas à consolidação do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Em novembro daquele ano, o documentário chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo. A sessão reuniu integrantes do projeto e pessoas ligadas à trajetória do Eureca, ampliando para além do ABC a circulação de uma história construída a partir da participação popular e da luta pelos direitos da infância.
Uma história que continua nas ruas
O documentário registra uma trajetória que não ficou restrita ao passado. Em fevereiro de 2026, o Eureca realizou o seu 34º desfile em São Bernardo, levando novamente crianças e adolescentes às ruas da região central da cidade.
A edição teve como enredo “Eureca 35 anos: começo, meio, sem fim, de uma luta contínua para o ECA existir” e voltou a relacionar carnaval com participação, formação e defesa de direitos.
A permanência do bloco depois de mais de três décadas mostra uma característica central de sua história: a aprovação do Estatuto não encerrou a mobilização. O ECA estabeleceu direitos e responsabilidades públicas, mas sua realização depende da existência de políticas, serviços, orçamento, participação social e mecanismos capazes de cobrar o cumprimento da lei.
É justamente nessa passagem entre conquistar um direito e fazê-lo existir concretamente que o Eureca construiu sua identidade.
O artigo 227 da Constituição e o Estatuto determinam prioridade absoluta à infância e à adolescência. Isso significa que a proteção prevista na legislação deve produzir consequências na formulação e execução de políticas públicas e na destinação de recursos.
Ao recuperar essa trajetória, o documentário também apresenta uma dimensão frequentemente apagada quando se conta a história dos direitos da infância: crianças e adolescentes não foram apenas destinatários das mudanças. Em diferentes momentos, também participaram das mobilizações, estiveram em espaços públicos, apresentaram reivindicações e ajudaram a construir formas de organização.
Documentos da própria Constituinte registram essa presença. Durante uma audiência de maio de 1987, representantes do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua destacaram a participação de crianças que haviam produzido suas próprias reivindicações e estavam em Brasília para apresentá-las.
Mais de três décadas depois, essa memória ganha outra linguagem. O cinema passa a preservar histórias antes guardadas em fotografias, recortes, vídeos, documentos e lembranças de quem participou do movimento.
A exibição de “Eureca: um ABC para o Brasil” em São Bernardo recoloca essa história diante de novas gerações e recupera uma experiência nascida no próprio território: a de crianças, adolescentes, educadoras, educadores e movimentos que levaram direitos para as ruas e fizeram do carnaval também um espaço de participação social.
Serviço
Eureca: um ABC para o Brasil — exibição do filme e encontro com o diretor Thiago Fernandes
Fontes
Assembleia Legislativa de São Paulo — Documentário “Eureca: um ABC para o Brasil”
Câmara dos Deputados — registros das audiências da Constituinte sobre direitos da infância
Diário do Grande ABC — Documentário retrata história do Bloco Eureca
Diário do Grande ABC — Exposição celebra a história do Bloco Eureca
